Entre Sombras e Segredos
16 📖 Capítulo 15 - O Salão das Raízes Eternas
Aurélia e Leonardo foram guiados pela Cavaleira Negra até o coração de Sylvaris. À medida que avançavam, o chão deixava de ser terra e se tornava um tapete vivo de raízes polidas, que pulsavam como se corressem nelas a seiva e a memória do povo élfico.
O salão real não era feito de pedra nem de ouro, mas de vida: um tronco colossal erguia-se até perder-se de vista, e dele brotavam varandas, arcos e colunas formadas de pura madeira. A luz que penetrava entre as copas desenhava reflexos dourados, dando a impressão de que cada raio era uma bênção antiga.
Guardas élficos alinharam-se em silêncio, abrindo caminho. Um cântico baixo ecoava pelas paredes vivas, palavras em élfico antigo que Leonardo não compreendia, mas que fizeram o ar vibrar. Aurélia, em respeito, tocou a palma da mão contra a testa e inclinou-se levemente.
— É o gesto de humildade — murmurou ela, olhando de relance para Leonardo.
Ele tentou imitar, mas seu movimento foi rígido, militar. Sussurros percorreram os guardas; alguns franziram o cenho.
Aurélia avançou um passo e corrigiu discretamente a postura dele, sussurrando:
— Aqui, força não vale mais que respeito.
No fundo do salão, sentados em tronos entrelaçados às raízes da árvore-mãe, estavam o Rei e a Rainha dos Elfos.
O Rei Eldarion, de olhos verdes como musgo antigo, mantinha uma expressão serena, mas havia peso em seu olhar — como se cada pensamento fosse calculado há séculos.
A seu lado, a Rainha Lythienne irradiava uma calma quase etérea. Seus cabelos prateados escorriam como fios de luar, e seu manto parecia pulsar junto à árvore viva. Ela não parecia apenas governar… mas ser parte da própria floresta.
— Aurélia do Clã Dei Lupari — disse Eldarion, sua voz profunda ecoando pelo salão.
— O nome de teu povo corre entre nós há gerações. Caçadores, guerreiros, filhos da lua.
Aurélia inclinou-se novamente.
— Em nome do meu clã, saúdo a Árvore-Mãe e seus guardiões.
Os olhos da Rainha então pousaram em Leonardo.
— Mas este… — sua voz foi suave, mas firme — …não é de teu clã, tampouco do nosso.
Leonardo deu um passo à frente, levando a mão ao peito como nos costumes humanos.
— Sou Leonardo. Não venho como inimigo.
Murmúrios cresceram entre os guardas e sacerdotes. Eldarion ergueu a mão, impondo silêncio.
— Palavras podem enganar. Mas a seiva da árvore não mente. — Ele fez um sinal, e sacerdotes trouxeram uma pequena taça esculpida em cristal de raiz.
— Quem deseja ser recebido em Sylvaris deve provar sua verdade diante da Mãe.
O líquido dourado dentro da taça brilhou com intensidade sobrenatural. Aurélia olhou para Leonardo, apreensiva.
— É o ritual da aceitação — explicou em voz baixa. — Quem mente diante da seiva… é consumido por ela.
Leonardo fitou o cálice por um instante. Então, sem hesitar, tomou-o em mãos.
— Se é isso que pedem, que assim seja.
O salão mergulhou em silêncio absoluto enquanto ele levava o líquido aos lábios. O gosto era doce e ardente ao mesmo tempo, como fogo e mel correndo pela garganta. O peito de Leonardo se aqueceu, sua visão oscilou, mas então a luz do cálice se apagou, e nada aconteceu.
Um suspiro coletivo percorreu o salão. A Rainha Lythienne esboçou um leve sorriso.
— Ele fala a verdade.
Antes que Eldarion pudesse responder, a própria Árvore-Mãe estremeceu. As raízes no chão vibraram, folhas desprenderam-se do teto vivo e uma brisa dourada percorreu o salão. Um murmúrio ecoou entre os anciões: o espírito da Árvore estava despertando.
Do tronco colossal surgiu uma figura translúcida, moldada de pura luz verde-dourada. Sua voz ecoou como vento entre folhas, mas carregada de uma autoridade que calava até o coração.
— Este humano… — disse o Espírito da Árvore — …não deve ser tratado como estrangeiro. Ele é especial.
Todos se ajoelharam, até mesmo Eldarion e Lythienne, em reverência. O rei ergueu o olhar, cauteloso.
— Espírito-Mãe… em tua sabedoria, diz-nos: quem é ele?
A manifestação brilhou intensamente.
— Ele é uma das pontes. — Sua voz parecia vibrar em cada raiz, em cada folha. — Uma ponte para o equilíbrio… e para a paz entre este mundo e tudo o que já foi criado.
Silêncio absoluto tomou o salão. Nenhum elfo ousava respirar alto.
Quando a luz se dissipou e a árvore voltou à quietude, Eldarion e Lythienne permaneceram de cabeça baixa, atônitos. O rei finalmente ergueu-se, sua voz grave, marcada pelo peso do que havia testemunhado:
— A Árvore-Mãe aceitou este humano. Ele terá nossa proteção. Mas sua presença altera tradições e exige cautela. Convoco a assembleia completa dos anciões para deliberar sobre sua integração.
Os anciões começaram a se erguer, debatendo em vozes diversas:
— Ele é um presente da Árvore! Devemos honrá-lo, não apenas aceitá-lo — disse um, de túnica de folhas profundas.
— Mas e se sua presença atrair inimigos? — contrapôs outro. — Humanos e clãs vizinhos podem ver isso como ameaça. Sylvaris não pode se dar ao luxo de ser vulnerável.
— A Árvore não se manifesta em vão. Sua palavra é lei — disse um sacerdote. — Quem ousar desrespeitar este humano afronta o espírito da Mãe.
Aurélia manteve-se firme ao lado de Leonardo, segurando sua mão. Ele respirou fundo, consciente de que não era apenas sobre eles, mas sobre toda Sylvaris.
Nesse instante, o mensageiro que aguardava na entrada aproximou-se do trono, apressado:
— Majestades! — disse, ajoelhando-se. — A fronteira norte… está em chamas. Vários postos de vigia foram destruídos, e aldeias vizinhas pedem ajuda imediata.
O salão explodiu em murmúrios e movimentos apressados. Guardas se prepararam, sacerdotes recuaram para verificar sinais nos troncos e raízes, e a tensão tornou-se palpável.
Eldarion ergueu a mão, impondo silêncio.
— A Árvore-Mãe aceitou este humano. Ele é nossa responsabilidade agora. Mas o perigo é real. Sylvaris exige ação imediata, e cada decisão daqui em diante será vital para preservar a paz e o equilíbrio.
Aurélia sentiu o peso dessas palavras ecoar em seu peito, enquanto Leonardo, embora ainda surpreso, compreendeu que o que os aguardava não era apenas um teste de coragem, mas o início de algo muito maior: a primeira ponte entre humanos e o mundo ancestral dos elfos.
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