Entre Sombras

1 CAPÍTULO O1: A esperança nos afoga


Notas iniciais
Sobre a história: Será algo diferente de tudo que você já leu. A premissa de casamento arranjado NÃO trará uma história clichê, fique tranquilo, essa história trará variados temas e tramas. Boa leitura! . * Entre Sombras remete aos próprios kages (sombras). * Amegakure = Vila Oculta da Chuva. * Otogakure = Vila Oculta do Som (nessa história ela evoluiu para uma das Grandes Vilas Ninjas e tem como kage o maravilhoso Sasuke).

Entre Sombras

Escrita por Coffee

CAPÍTULO O1: A esperança nos afoga

A esperança pode ser nossa ascensão, mas também a nossa ruína. Agora ela entende que com a mesma força que ela pode nos fazer seguir em frente, ela pode nos destruir. Como uma onda no mar, com a mesma força que a onda vem, nos jogando para frente, o repuxo faz com que nos desequilibremos e nos arrasta para trás.

Seu maior defeito talvez tenha sido esse. Ter esperança demais. Esperança que as coisas iriam melhorar, que tudo iria ficar bem, que um dia ele iria a enxergar e a amar.

Sasuke sempre foi como uma onda, afinal. Com a mesma força que ele a levava para frente, para a superfície, ele a puxava para as profundezas.

Após sua partida ela foi jogada para frente. Depois das conversas noturnas no hospital, no toque em sua testa quando ele estava indo embora, ela teve a esperança que tudo se desenrolaria bem a partir dali. Que ele faria sua viagem de redenção e depois voltaria para que pudessem viver a vida um ao lado do outro.

Quando dois anos se passaram, sem nenhum contato, nenhuma carta, nenhuma resposta, ela percebeu que a onda começava a lhe puxar para trás. E aí veio a notícia que acabou de levá-la para as profundezas: Sasuke havia se tornado Otokage.

Não podia ser egoísta e taxar que aquilo era de todo horrível. O Uchiha estava reconstruindo uma vila aos pedaços, ajudando seus moradores massacrados pela dor e pelos resquícios da guerra.

Mas, ao mesmo tempo em que ele ajudava alguém a se reerguer, ele a punha cada vez mais fundo, afogada.

Como a esperança nunca lhe abandonava, ela esperou mais um longo ano por um convite, uma solicitação, um pedido para que ela o visitasse, para que ela fizesse parte de sua vida e de sua vila. Ela iria de bom grado para qualquer que fosse o lugar que ele a mandasse, faria de bom grado o que quer que fosse que ele a pedisse.

Ensinaria jutsus médicos para seus subordinados, ajudaria a construir casas, quebraria árvores para usar a madeira. Qualquer coisa. Por ele.

Porém o convite não veio.

Os anos foram se passando, Naruto foi visitar o amigo em uma missão diplomática e ela ficou ali, na vila, entre seus turnos de hospitais e suas comidas congeladas.

Otogakure cresceu o suficiente para tomar lugar como uma grande vila ninja (agora seis). Seu kage foi reconhecido em todo mundo como um homem sério e taciturno, mas muito fiel e bom com seus subordinados.

Em meio desses seus conflitos sentimentais veio então uma ameaça de Amegakure. Um chefe violento e sanguinário, inconformado por sua vila ainda não ter sido reconhecida como a sétima grande vila ninja. Para evitar conflitos, as vilas fizeram acordos e alianças com ele, até que chegou a vez de Konoha.

Ela foi chamada no escritório do Hokage em uma tarde nublada de outono. Ventava e as folhas caídas das árvores formavam pequenos rodamoinhos nas ruas de terra da vila, fazendo com que as crianças brincassem correndo atrás delas.

O Nanadaime a olhou estranho assim que entrou. Sentado em uma cadeira estava um homem alto (não tanto quanto Naruto), mas imponente. Devia ser pelo menos dez anos mais velho que ela.

— Essa é a aclamada Haruno Sakura? Pupila do Godaime?

O Uzumaki não respondeu, apenas acenou positivamente com a cabeça, enquanto ela observava o homem se levantar e andar ao redor dela, analisando-a.

De algum modo ela se sentiu um cavalo sendo vendido em um leilão.

— Eu imaginava que fosse um pouco mais alta e imponente. Mas não posso negar que é linda.

Sentia-se tão mal que nem ao menos retrucou ou agradeceu o que devia ser um elogio. Olhou para o loiro, procurando permissão para fugir dali o mais rápido possível. Ela não queria passar mais nenhum minuto sendo analisada daquela maneira.

Mas seu amigo apenas a olhou com pena.

— Sakura, esse é o kage de Amegakure.

Havia ouvido falar muito do terrível chefe da Vila da Chuva, e isso apenas fez com que sua ânsia aumentasse. Ainda sim se forçou ser gentil, sabendo que Konoha procurava uma aliança com a vila.

— É um prazer.

— Sim, será um prazer.

Ele respondeu, voltando a sentar-se.

Naruto pareceu perceber que sua paciência estava se esgotando.

— Já tenho minha proposta.

— Sakura, você já pode se retirar—

— Não, ela fica.

O homem interrompeu o loiro. E ela permaneceu parada sabendo que nada de bom viria daquela conversa.

— Sei que é solteira. Os boatos correm. Meu trato é: Amegakure continua mandando alimentos, madeira e ferro para a Vila da Folha. E em troca eu me caso com a mulher mais ovacionada do mundo shinobi.

— Você só pode estar brincando...

O loiro comentou. A bile subiu pela sua garganta rapidamente e ela pensou que fosse vomitar ali mesmo, no meio da sala do chefe da Vila Oculta da Folha.

— Eu não brinco. Preciso de uma mulher da minha altura ao meu lado. Forte e respeitada. Esse cabelo colorido não trás muito respeito, mas podemos dar um jeito nisso com o tempo.

— Ninguém mexe no meu cabelo — Respondeu, não aguentando guardar aquilo dentro de si — Nem em mim.

— Então Amegakure vai cortar todas as transições com Konoha, boa sorte em encontrar outra transportadora de ferro e madeira, e claro, comida para suas crianças. Pode também esquecer minha aliança em guerras e conflitos. Bom, vocês têm alguns dias para resolver. Estou voltando para a minha vila. Se a senhorita não vier até mim em uma semana, saberei que nossa aliança foi encerrada.

Ele não se despediu, nem disse seu nome. Apenas levantou-se e saiu porta a fora.

Sobraram ela, Naruto e aquela proposta absurda.

Na mesa do centro de inteligência e estratégia de Konoha estavam sentados o Hokage, Kakashi, Shikamaru, Ino e ela. Todos eles observavam alguns papéis, algumas propostas, enquanto ela permanecia silenciosa, de mãos atadas.

Perder a aliança com Amegakure não era uma opção. Ela era a maior fornecedora de alimentos, ferro e madeira que tinham, fora outros produtos menores, mas não de menor importância. O loiro havia tentado negociar novamente com o kage antes de sua partida, mas não obteve sucesso. A proposta já estava feita.

— Embora os campos de Konohagakure estejam dando grandes safras, não somos autossuficientes e com os problemas no País do Arroz depois dos desastres naturais, precisamos das safras da Vila Oculta da Chuva. — O Nara explicou.

— Quanto ao ferro, o País do Ferro está repassando por um valor muito alto, nesse pós-guerra não temos condições de comprar deles.

— Exatamente Kakashi-sama. Podemos encontrar novos fornecedores, mas até acertarmos tudo demoraria anos e não uma semana.

— Estão dizendo que não temos escolha? — O loiro perguntou a voz subindo dois tons, irritado com a própria impotência.

— Podemos tentar uma nova negociação com ele.

— Já tentamos, ele está irredutível — A Yamanaka completou — Já fez acordos comerciais com Suna e Kirigakure, e também acordos econômicos com Kumogakure e Iwagakure. Não tem muito que eles precisem de nós. Por não terem se envolvido diretamente na guerra não sofreram grandes perdas e prosperaram bastante, são praticamente autossuficientes.

O Uzumaki passou as mãos pelos cabelos, inconformado. Ela se contentou em olhar para baixo, morder o lábio inferior e pensar mentalmente na própria desgraça.

— Podem se retirar, quero ficar sozinho com Sakura.

Os três não retrucaram. Recolheram os papéis de cima da mesa e se retiraram rapidamente.

— Eu não vou deixar isso acontecer, Sakura-chan, vamos dar um jeito de resolver isso.

Olhou para o loiro. Havia tanta pena e pesar na voz que a deixou tonta.

— Não temos como resolver isso. Ele não precisa de Konoha como nós precisamos dele. Para ele tanto faz fornecer ou não produtos para Konoha, se não comprarmos mais, outras vilas o farão.

— Tem que ter uma solução... Algo que possamos fazer para fazê-lo retirar essa proposta... Assim poderíamos propor alguma outra coisa, uma safra de algum alimento que ele não produza... Algumas das poucas matérias prima que temos... Produto têxtil talvez...

Os dois ficaram em silêncio por quinze ou vinte minutos, os dois cérebros maquinando uma solução, uma brecha.

Foi o Uzumaki quem cortou o silêncio.

— Precisamos falar com Sasuke.

— Desculpe Naruto, mas não acho que ele esteja interessado em nos fornecer matérias primas, até porque Oto também não tem o suficiente, ele importa muitas produtos de países vizinhos, inclusive da Vila Oculta da Chuva.

— Não, não para isso. Se conseguirmos provar que você já está envolvida, já está noiva de outro alguém, um alguém importante, Raioko não terá outra opção a não ser fazer uma nova proposta. Eu mesmo o faria, mas já sou casado com Hina-chan.

— Está dizendo para arrumarmos um noivado falso para mim?

— Sim, podemos dizer que era sigiloso e por isso você não contou naquele dia. Se for um homem poderoso o suficiente, Raioko não terá voz para ir contra.

Entendeu o raciocínio do amigo.

— E você supõe que esse homem seja Sasuke?

— O mundo ninja inteiro sabe da relação de você e Sasuke.

Ela quis perguntar: que relação?

Mas permaneceu quieta. Não devia retrucar o Hokage por mais que ele fosse seu amigo.

— Ele também não é casado. Temos a chance perfeita. Se ele a reclamar como dele, Raioko não terá alternativa.

— Naruto, Sasuke nunca irá concordar com isso. Jamais.

— É claro que vai! É pra salvar a sua pele, Sakura-chan, sei que ele estará pronto para nos ajudar! “tebayo!

— Naruto, nós não nos vemos há anos.

— Sakura-chan, não é um casamento de verdade! É só para fingir! Ele faz um anúncio de que estão noivos, Raioko faz uma nova proposta, e assim que assinarmos os novos contratos você volta para casa.

Ela não sabia o que era pior, fingir ser noiva de Sasuke ou aceitar a perda quando tudo aquilo acabasse.

— Não acho que ele vá acreditar, vai saber que estamos armando isso para fugir da minha união com ele.

— Amegakure tornou-se novamente uma vila muito tradicional, eles são conservadores ao extremo, ele não vai erguer a voz perante a sua vila e as outras para reclamar uma mulher já comprometida. Só não podemos demorar com esse anúncio, ou aí sim ele desconfiará.

— Mandará uma carta para Sasuke?

— Não, você irá pessoalmente. Isso não é uma coisa que eu possa escrever, se uma carta dessas cair nas mãos erradas, Konoha e o meu posto estarão comprometidos. E se estiver lá pessoalmente, menores são as chances de aquele bastardo recusar.

— E se ele recusar?

O loiro fez uma careta, endureceu os ombros, e finalmente disse:

— Aí você já estará a apenas três dias de viagem para Amegakure.

Acenou positivamente, sua expressão saindo mais desesperada do que realmente gostaria.

— Eu sei que Sasuke irá nos ajudar. Assim que você explicar para ele o que está acontecendo, tudo que esse acordo implica, ele irá nos ajudar. Isso é algo que nós faríamos por ele sem pensar duas vezes, ele também fará por nós.

— Devo arrumar minhas coisas para partir.

— Se Gaara não estivesse comprometido com a filha do chefe de Iwagakure, teríamos mais uma chance, mas agora tudo que nos resta é Sasuke. Eu iria com você, mas estou esperando o chefe do País do Urso para uma negociação, preciso estar presente.

O loiro levantou de sua cadeira e a abraçou tão forte que suas costelas doeram. Ainda com os braços ao redor do seu corpo, ele a confortou.

— Leve uma mochila com alguns de seus pertences, vai precisar ficar em Oto até que a nova proposta seja feita e assinada. Assim que fizermos, te avisarei para que volte para casa e retorne sua vida normalmente.

Retribuiu o abraço, uma lágrima descendo sem aviso pela bochecha.

— E se Sasuke não nos ajudar—

Sua voz saiu quebrantada e ela não conseguiu terminar a frase.

— Se aquele teme não nos ajudar, eu irei atrás de novas vilas para conseguir ferro, madeira e alimento, e te tirarei das mãos daquele homem o mais rápido possível. Caso a resposta seja não você deve partir imediatamente para a Vila da Chuva, ou chegará depois do prazo de uma semana. Mas não iremos precisar de nada disso, o Otokage vai nos ajudar, ‘ttebayo!

Ela quis dizer que não tinha tanta certeza. Quis pedir para que alguém fosse com ela, quis explicar que ela estava morrendo de medo, vergonha, aflição por ter que pedir algo assim para ele.

Mas apenas fez uma referência respeitosa para o Hogake (e seu melhor amigo) e saiu.

— Vocês têm certeza que Sasuke irá fazer isso?

— Naruto sim, mas eu não estou muito certa. Se ele fizer isso também corre grandes chances de quebrar seu contrato com Amegakure, e embora ele precise bem menos desses suprimentos do que nós, não estou certa de que ele abrirá mão disso...

Ino acenou enquanto a ajudava a colocar algumas roupas e produtos na mochila. No fim, ela ficou maior do que gostaria.

— Você tem certeza que ele não vai ajudar.

A loira afirmou, não perguntou.

— Por que diz isso?

— Está levando quase tudo de importante, como se estivesse se mudando definitivamente.

Parou de dobrar uma calça jeans, e virou-se para loira.

— Bem, temos que trabalhar com todas as possibilidades, certo?

— Infelizmente.

Nos portões da vila estavam Kakashi, Ino e Hinata. O Hokage estava ocupado com papelada, e não pode vir, mas Hinata se despediu pelos dois. Ino soltou algumas lágrimas, enquanto a abraçava, e depois que as duas partiram para seus afazeres diários, ficaram Kakashi e ela.

O mascarado sorriu, e tocou sua mochila em dúvida.

— Está levando muita coisa.

Deu os ombros.

— Sakura, ele vai ajudá-la, estou certo disso. Fique tranquila.

— Espero que sim, ou daqui uma semana eu estarei casada com um homem que só vi uma vez e que todas as vezes que ouvi seu nome ele estava acompanhado da palavra sanguinário.

Eles se despediram com um abraço desajeitado e sorrisos tristes. E então ela partiu para a viagem de três dias até Otogakure.

Um bolo se formava em sua garganta somente ao pensar em ver Sasuke novamente.

E parecia ainda maior ao pensar no que teria que pedir a ele.

Notas finais
O que vocês acham que irá acontecer nesse reencontro? Façam suas apostas! Voltarei em breve!