Entre Sombras
15 CAPÍTULO 15: O pesadelo nos asfixia
Notas iniciais
Entre Sombras
Escrita por Coffee
CAPÍTULO 15: O pesadelo nos asfixia
Sasuke acordou suado e ofegante.
O sonho, não, o pesadelo ainda vivido em sua mente.
Em um momento Raioko sufocava Sakura. Apertando o pescoço fino com as duas mãos com tanta força que o rosto dela estava vermelho, quase roxo de falta de ar.
E no momento seguinte não era Raioko.
Era ele próprio.
Apertando o pescoço dela, elevando o corpo pequeno, tirando os pés do chão.
Quando acordou estava zonzo.
Muitas vezes depois que sua fase traumática passara, quando voltou a si, depois daquele encontro na Vila do Ferro, sonhou que estava matando a médica vezes e vezes seguidas.
Mas nenhum tinha sido como aquele.
Tão real, tão vívido.
Andou até o banheiro, jogou uma água no rosto e encarou seu reflexo no espelho.
Tão cheio de pecados. Condenado.
Eu te perdoo.
A voz dela foi tão límpida que ele olhou ao redor na esperança que ela tivesse ali. Que os últimos acontecimentos não tivessem passado, também, de um pesadelo. Mas ele estava sozinho no quarto.
Lembrou-se da sua conversa com Naruto. Do pedido do amigo para que ele mantivesse a calma, que não fizesse nada precipitado para não colocar Sakura, os moradores de Amegakure e nem a segurança do mundo shinobi em risco, mas era difícil.
Seu sangue fervia ao olhar para o relógio e ver que naquele momento ela já devia ter chegado a Amegakure. E fervia ainda mais ao olhar todos os dias para o calendário e perceber que o tempo estava passando e eles não haviam feito nenhum progresso com a investigação.
E embora ele quisesse ficar em casa ou no seu escritório, estudando e investigando mais, todos os dias de manhã ele tinha que ir para as provas do Exame Chunnin e por lá permanecer até o fim da tarde.
Já fazia cinco dias que ela havia partido.
E seu coração batia angustiado. Ele mal conseguia comer e pensar em outra coisa sem ser um modo de tirá-la de lá. Sua insônia também havia aumentado, e todas as vezes que ele (finalmente) conseguia tirar um cochilo, era acometido por pesadelos com o daquela manhã.
Sakura.
Era isso que sentia quando eu estava fora?
Como você aguentou?
Como viveu tantos anos com essa...
Com essa...
Dor?
♣
Nos dois primeiros dias que voltara não havia visto Raioko. Fuji também se recusou a dar qualquer informação. Havia tentado sair para dar uma volta pela vila, mas fora impedida.
Não houve gritos, nem fogo, nada.
Estava tudo silencioso. Da janela ela viu os corpos serem enterrados em um terreno lamacento um pouco antes da floresta de eucalipto.
A dor pesou em seu interior. Sabia que era seu dever fazer alguma coisa, ajudar aquelas pessoas, deveria haver muitas pessoas feridas, mas ela não sabia como fazê-lo.
Estava sem seu chakra e um dos homens de Raioko permanecia na frente da casa 24 horas por dia.
Também precisava ir até a torre do kage, mas não tinha nenhuma desculpa para ir até lá. Pensou em ir usando a desculpa que estava com saudades, mas o seu marido jamais cairia em algo assim.
O jeito era esperar que ele voltasse.
E foi o que ele fez, no terceiro dia em que ela tinha voltado.
Tinha olheiras abaixo dos olhos. Era a primeira vez que ela o via sem estar intacto. Tinha algumas manchas na roupa, e estava tão exausto que parecia três ou quatro anos mais velho do que realmente era.
— Como foi em Oto?
— Tudo certo. Consegui as duas assinaturas no contrato. Tranquilizei os kages sobre as desconfianças deles em relação a vila.
Ele assentiu, tirou a capa que usava e passou por ela.
— Boa menina.
Foi tudo que disse antes de subir as escadas.
Meia hora depois eles estavam jantando em silêncio.
— O que... O que está acontecendo?
Decidiu perguntar.
— Nada que lhe interesse.
— Bom, como você mesmo diz, eu sou sua esposa, sou a senhora de Amegakure, eu mereço saber o q—
— Você não tem que saber de nada. Tem que me servir e obedecer. Não me deixe mais nervoso do que já estou.
Não insistiu. Sabia que não deveria.
Terminaram a refeição e depois ele a arrastou até o quarto.
Tomou-a bruto, puxando seu cabelo com mais força que o necessário e entrando nela como um animal. Depois rolou para o lado e dormiu até o dia seguinte.
♣
Eram nove horas da manhã quando um sapo interrompeu seu sono.
Tsunade tentou afastá-lo com a mão e voltar a dormir (sua cabeça nunca se acostumava com a ressaca mesmo depois de tantos anos), mas o bicho insistiu que era uma mensagem urgente do Hokage e da sua pupila.
Ao ouvir o nome de Sakura ela sentou-se imediatamente na cama e arrancou os papéis dele.
Fazia muito tempo que não recebia uma carta da mais nova. Costumavam trocar algumas correspondências logo que ela começou a viajar, mas era complicado porque ela e Shizune nunca paravam em um lugar por muito tempo.
— O Hokage pediu que a senhora lesse primeiro a carta dele.
Mesmo desesperada por notícias de Sakura (mesmo não admitindo ela tinha um carinho e uma saudade enormes por aquela menina), ela resolveu acatar o pedido do Uzumaki.
Sabia que devia ser algo sério, eles raramente entravam em contato.
Seus olhos vagaram pela carta em descrença.
— Por que diabos Sakura está casada e ninguém me avisou?
Ela voltou a ler a carta e não gostou nadinha de descobrir quem era o marido da pupila.
Raioko.
Não era um homem de boa reputação. E provavelmente não era o marido que todo mundo pediu para os deuses.
Inferno.
Rasgou o outro envelope e suas desconfianças se confirmaram.
Sakura...
Por que demorou tanto para pedir ajuda?
Por que não me falou?
— A senhora vai mandar uma resposta?
Não respondeu, levantou-se, colocou o robe e prendeu o cabelo loiro. Abriu a porta do quarto da pousada em que estava hospedada e andou até o quarto da frente, batendo (ou esmurrando) a porta duas vezes.
— Shizune, se troque. Estamos indo para Amegakure.
♣
Ela acordou com um grito.
Estava longe, mas era um som tão alto e tão horroroso que fez com que um arrepio percorresse sua espinha e tremulasse seus ossos.
Jogou as cobertas para o lado correndo até a janela.
Ao longe podia ver o caos.
Fogo. Fumaça. Armas. Morte.
Era sua única chance.
Olhou para baixo. Não havia ninguém vigiando a casa. Sabia que o capanga de Raioko (assim como todos os outros) provavelmente tinham corrido em seu auxilio.
Ela não teria outra chance daquela.
Pegou a primeira roupa que achou. Um vestido bege.
Saiu sem nem ao menos pentear o cabelo. Não tinha chakra, ainda sim correu o máximo que seu corpo permitiu. Não havia quase ninguém naquela parte da cidade. Todos estavam mais na entrada da vila, onde o conflito acontecia.
Entrou na torre.
Era mais de uma hora da manhã, e tudo estava escuro. Subiu as escadas com pressa como uma foragida. A porta estava escancarada. Entrou na sala que parecia ser a do Amekage.
A mesa estava limpa, então passou a procurar nas gavetas. Não tinha muito tempo para ler. Então apenas passou os olhos pelos papéis tentando achar algo incriminador.
Não havia nada. Voltou-se então para o armário.
Uma infinidade de pastas não etiquetadas estava ali.
Alternando o olhar entre a porta e as pastas foi procurando.
— O que está fazendo aqui?
Era um dos capangas de Raioko.
Seu coração bateu acelerado, ela olhou para o lado, encontrando-o no batente da porta.
Não importa o que falasse, ele jamais acreditaria nela. Nunca tinha visto esse, e imaginou que ele devia ser um dos guardas da torre. Olhou ao redor, não tinha nada, nenhuma arma, nenhum modo de se proteger. Seu chakra estava preso e ela sabia que o único modo de continuar a sua busca era o matando.
Ele pareceu perceber sua intenção e correu até ela. Conseguiu desviar dos três primeiros socos, o quarto a acertou na costela.
Gemeu. Ainda sim, percebeu que não havia nada quebrado. Ele não queria matá-la, não sabia como proceder sem a presença de Raioko.
Foi sua brecha.
Ela usou o máximo de força que conseguiu para acertá-lo, não doeu como quando tinha chakra, mas ainda sim ele gemeu de dor.
Deu a volta por trás, apertando o pescoço dele com um braço em um mata leão.
Tentou lembrar das técnicas que aprendeu quando treinava para virar médica. Ninjas médicos podiam ficar constantemente sem chakra, por isso eles aprendiam como se defender e até mesmo atacar, um estilo de defesa pessoal sem chakra. E ela isso que ela estava usando naquele momento.
O homem conseguiu se livrar do seu agarre, mas ela o chutou no joelho, e ele gemeu de dor, então, segurou-o novamente pelo pescoço. Olhou ao seu redor, procurando algo que pudesse usar, e achou somente o fio do telefone.
Teria que servir.
Puxou com força o aparelho até desconectar o fio da tomada. O ninja se debatia em seus braços e ela já não tinha mais forças para segurá-lo, então passou o fio na sua garganta.
Segurou firme.
Um minuto, dois minutos, três minutos.
E ele estava morto.
Tirou o fio dele, e colocou novamente o telefone no lugar (não tinha certeza se ele ainda funcionaria). E depois rolou o corpo do capanga escada a baixo. Tirando o foco da morte do escritório.
Então voltou para sua busca. Abrindo pasta após pasta.
Até que finalmente achou. Recibos. Os custos baixos dos materiais que Amegakure importava. Encontrou também alguns contratos, alguns pergaminhos que explicavam que a vila não tinha prédios públicos de hospitais e escolas.
Por fim, achou uma tabela de controle com todos os impostos escondidos que os habitantes pagavam nos alimentos, água, vestuário e mais uma diversidade de coisas.
O barulho lá fora continuava.
Precisava ser rápida.
Correu até a máquina de cópias, copiando todos os papéis o mais rápido que conseguiu. Um barulho a assustou.
Olhou ao redor, procurando alguém, mas era apenas uma ave perto da janela.
Queria acabar logo aquilo e ir até a entrada da vila. Talvez pudesse ajudar os moradores na revolta de algum modo, embora não fizesse ideia de como.
A copiadora apitou. Correu até as pastas, colocando tudo no seu devido lugar e fechou o armário. Desceu as escadas e correu até a casa não muito distante dali.
Fuji estava na entrada.
— Menina, onde voc—
— Desculpe senhora, não posso explicar agora.
Subiu as escadas de casa com pressa, entrou no quarto fechando a porta. No fundo do guarda roupas estava a caixinha de joias com fundo falso. Foi lá que ela guardou os papéis tentando não amassá-los.
Depois, desceu novamente.
— Menina, onde você está indo? Nã—
Saiu correndo novamente rumo à escuridão.
Levou mais tempo do que esperava, mas conforme se aproximava da entrada da vila sentia o ar mais denso, a poeira se espalhando, o peso da fumaça.
Seus pulmões pareciam prestes a sair do peito.
Quando chegou a entrada da vila pode ver os corpos. Era crianças, adolescente, adultos e idosos. Pessoas de todas as idades estavam sendo mortas, civis, ninjas.
Ao longe viu um aglomerado. Raioko estava ali, batendo em um homem de aparentemente quarenta anos. O homem já estava praticamente morto, tinha sangue saindo da sua boca, da sua pele e até mesmo dos seus ouvidos.
— Nós exigimos uma votação para escolhermos um líder! Você nos explora! ‘Nos rouba!
Gritos de reclamação eram ouvidos, mas era tanto barulho e tanta fumaça que ela não sabia de onde vinham.
— Matem todos! Matem todos os rebeldes! Os que se entregarem serão perdoados.
A voz de Raioko era cortante, e ela viu alguns dos seus capangas se espalharem na névoa.
— Socorro!
— Meu filho não, por favor, por favor!
Sakura olhou ao redor, buscando algo que pudesse fazer, mas sem o seu chakra seus sentidos estavam lentos e ela estava cansada da caçada mais cedo.
Preciso fazer alguma coisa, ajudá-los de algum modo.
— O que diabos você está fazendo aqui?
O grito foi tão alto e tão furioso que o tempo pareceu parar.
Ela abriu a boca para responder, mas uma explosão tirou a atenção dele.
— Volte para casa imediatamente!
Seu marido mandou assim que o barulho da explosão cessou.
— Senhora, senhora! Por favor, por favor, me ajude! Minha criança, meu filhinho!
Ela olhou, logo atrás de Raioko, uma mulher não muito mais velha que ela carregava uma criança nos braços. Uma das pernas do menino estava decepada, e ela percebeu que ele morria de hemorragia mesmo sem o examinar.
Desesperada correu em direção a eles, mas assim que se aproximou foi impedida por um braço em seu peito. Foi um baque. O ar faltou na sua caixa torácica e ela buscou o ar com a boca como se estivesse se afogando.
Depois voltou a si.
— Raioko, por favor, por favor, me deixe ajudá-lo. Por favor. Eu imploro. É uma criança.
Raioko e dois passos a separavam da criança que gritava de dor. A mãe também gritava em desespero.
— Por favor, senhor, deixe que ela salve meu filho!
— Sakura, suma daqui.
— Não! Deixe-me cuidar dele, por favor, vou para casa assim que acabar!
Ela tossiu com a fumaça, os rebeldes ao seu redor pararam pela cena.
— Nós nos rendemos! Nós paramos com a rebelião, deixe que ela cuide do garoto.
Um deles, de olhos escuros e cabelos grisalhos (parecia ser o líder) propôs.
— Raiko, por favor, não há muito tempo.
— Já disse para você sumir daqui.
A mãe soltou um grito que corroeu seu coração, quando a criança parou de gritar e fechou os olhos.
— Nós nos rendemos! Salve Uji.
Ela imaginou que Uji fosse o nome do garoto.
— Raioko — Olhou-o nos olhos. Ele estava furioso, e nem um pouco tocado pela cena de uma criança de não mais que nove anos estar decepado e morrendo na sua frente — Por favor.
Ele negou com a cabeça.
— Vá para casa.
Furiosa, ela tentou passar por ele, até conseguiu dar dois passos antes que ele a agarrasse novamente.
E então ela sentiu a bochecha arder, sangue quente descer no seu supercílio e sangue preencher sua boca.
Ela caiu no chão com a força do tapa.
Os joelhos e os dedos afundando na lama.
A médica cuspiu sangue no chão, toda a sua mandíbula e bochecha doía.
O silêncio foi geral.
Antes que pudesse ter qualquer reação, Raioko a levantou pelo braço, puxando-a com força e marcando seu braço com seus dedos.
A empurrou para um capanga.
— Leve para casa.
Comandou, como se ela fosse um objeto e não um ser humano.
— Nós nos rendemos, você precisa deixar que ela salve a criança!
— Raioko, por favor.
Foi tudo que ela conseguiu falar antes de começar a ser arrastada para dentro da vila.
— Matem todos.
Foi a última ordem que ela ouviu do Amekage. E depois ouviu os gritos de dor, de horror e o mais alto de todos, o de uma mãe que acabava de perder seu filho.
♣
Tsunade estava paralisada.
Ela olhou em choque a pupila tentando salvar a criança e olhou em horror o próprio marido a dar um tapa. E depois observou uma chacina acontecendo bem ali, na sua frente.
Preciso parar isso.
Tirar Sakura daqui, agora.
Ela não conseguiu dar dois passos antes de ser interceptada.
Era o próprio Amekage que a olhava com ódio.
— Como você pode ver, estou resolvendo alguns problemas, visitas na minha vila não estão sendo permitidas.
— Suma da minha frente.
— Você veio atrás dela, não veio?
— Sim, eu vim buscar Sakura, e vou levá-la comigo.
— Não, você não vai. Ela é minha esposa e está sobre o meu domínio.
Atrás dele, as pessoas que tinham se rendido estavam sendo mortas.
Ela deu mais um passo em direção ao fim da ponte que a separava daquela desgraça. Precisava fazer alguma coisa, ajudá-los. Mas foi novamente parada. Ele agarrou seu braço, e Shizune entrou na sua frente em proteção.
— Saiam daqui agora.
— Você só pode estar brincando. Não vou a lugar nenhum.
— Ótimo. Parece que você não gosta tanto da sua pupila quanto imaginei.
— Não me velha com ameaças vazias.
Respondeu, mas ela não sabia se eram tão vazias assim. Aquele homem estava matando uma infinidade de ninjas e civis ali, até mesmo crianças, e ela sabia que ele era sim, capaz, de matar Sakura.
— Vazias? Lembre-se que ela está aqui. Rodeada pelos meus serviçais. Não vou fazer joguinhos com você, já deve saber que ela está sem chakra. Um mísero gennin podia quebrar aquele pescoçinho fino.
Tsunade não sabia o que falar.
Queria tirá-lo da frente dela, entrar naquela vila, e colocar ordem ali dentro, mas ao mesmo tempo sabia que não podia jogar com a vida da Haruno.
Precisava de cautela.
— Sumam da minha vila agora. Uma palavra sua, uma denúncia e a garota está morta.
Inferno.
Esse moleque não pode falar assim comigo.
Eu sou Tsunade, médica, ninja e ex Hokage.
Inferno.
— Tsunade-sama, acho melhor irmos embora.
E depois decidimos o que fazer.
Era o que Shizune queria poder dizer.
— Ouça a sua criada. Suma.
Mesmo odiando fazer isso, mesmo que cada passo tenha sido uma luta interna, ela o fez.
Virou-se e deu um passo, dois passos, três passos.
Afastando-se cada vez mais daquele homem maldito.
Desculpe Sakura, não posso arriscar sua vida.
Mas eu prometo que vou te tirar daqui.
Desse pesadelo.
Custe o que custar.
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