Entre Sombras
8 CAPÍTULO O8: O silêncio nos sufoca
Notas iniciais
ENTRE SOMBRAS
Escrita por Coffee
CAPÍTULO O8: O silêncio nos sufoca
Quando se aproximaram da mesa seu estômago revirou. O loiro foi o primeiro a se levantar, seguido de Sasuke. Ainda de costas dava para notar as diferenças no corpo do moreno de todos esses anos que não se viam.
Tentou controlar a respiração, a ansiedade, o medo.
Naruto se virou e gritou seu nome em felicidade. Tudo que ela queria fazer era correr até ele e ser acolhida pelos braços do amigo. Queria ser consolada, queria ajuda, queria sentir-se querida e protegida.
Estava quase jogando tudo para o ar e correndo até o loiro quando seu marido colocou uma mão em seu ombro. Externamente deveria parecer apenas uma carícia, mas somente ela sabia o quanto aquela mão estava apertando, mantendo-a no lugar, mandando um alarme silencioso para ela.
“Fique aqui, haja naturalmente, ou vai pagar as consequências.”
Era o que o aperto parecia dizer. Ela respirou fundo e parecia controlada, até o momento que levantou a cabeça e seus olhos se cruzaram.
Sasuke...
Estava mais alto desde que partira pela segunda vez da Vila Oculta da Folha, o queixo mais anguloso, o rosto mais forte e masculino. Era um homem completo, havia abandonado totalmente as feições adolescentes da quais se lembrava.
Sabia que não podia contar com ele. Ainda estava chateada pelo descaso dele quando precisou, por ele não tê-la ajudado a se livrar daquele inferno de casamento. Sabia que nada disso havia sido culpa dele, mas ainda sim se sentia enjeitada como a criança que fora um dia.
Apesar de tudo desejou uma aproximação. Um contato. Qualquer coisa que trouxesse conforto, mas tudo que pode fazer foi uma mesura respeitosa.
Mal podia se segurar no lugar, e, no momento que Naruto suspeitou tudo que ela queria fazer era gritar:
“Sim, ele está me proibindo, sim, sim sim! Ele colocou uma supressão de chakra em mim! Eu não sou feliz, esse casamento não é bom. Me ajude, me ajude, me ajude!”
Mas ela teve que ficar satisfeita em morder o lábio para suprimir o choro, e com a sua voz mais convincente possível repetir que estava tudo bem.
Sasuke tinha a expressão indiferente de sempre, e Naruto parecia anuído com sua fala, então ela não sabia se eles haviam acreditado naquilo tudo ou não. Sua única esperança era pensar que não, que eles entendessem que havia algo errado, que a ajudassem.
Naruto.
Repetiu se corrigindo.
Que Naruto a ajudasse.
Sasuke não se importava. Nunca se importou.
Seus pensamentos foram interrompidos com a chegada de uma quinta pessoa. O Tsuchikage. Ele cumprimentou Raioko com um aperto de mãos e uma batida nas costas, e depois pousou seus olhos nela.
— Esta é minha esposa.
— A pupila de Tsunade? Você se casou com a pupila de Tsunade?
Ele nem ao menos a cumprimentou. Parecia ser tão interesseiro quanto seu marido.
— É maravilhosa, não é?
— É de bobo você não tem nada... Uma das kunoichis mais fortes do mundo shinobi...
Não era um elogio. A voz parecia carregada de inveja.
— Sim, e ela é todinha minha.
Naruto há poucos metros de distância fechou as mãos em punho e ela pensou ter visto os ombros de Sasuke endurecerem.
— Deu a kunoichi mais forte de sua vila para ele, Uzumaki? E depois dizem que você não é tapado...
O loiro não respondeu. O clima pesou e ela passou o peso de uma perna para outra se sentindo incomodada. Sentindo-se um animalzinho vendido no pet shop.
♣
Depois do encontro foram para um hotel, lá ela pode relaxar os ombros, tirar sua mochila das costas e sua capa das mãos e se trancar no banheiro. Longe do olhar de Raioko ela jogou água gelada no rosto e massageou as temporãs tentando (inutilmente) melhorar sua feição e seu psicológico.
A primeira reunião seria em poucos minutos e ela tinha que estar totalmente recomposta.
Quando saiu do banheiro seu marido estava em pé ao lado de uma escrivaninha branca. Ele olhou-a saindo do banheiro e depois deslizou um papel sobre a mesa. Andou até ele.
— O que é isso?
Perguntou, pegando as folhas nas mãos e analisando. Eram contratos.
— Como diabos...?
Sua secou ainda mais e seus olhos se arregalaram.
— Genial! Você não concorda?
— Como conseguiu isso?
As folhas eram bem claras. Assinados pelos chefes de Iwagakure, Tsukigakure e mais algumas outras vilas. Os contratos compravam a exportação total das Vilas, deixando as demais sem os produtos.
Deixando Konoha sem os produtos.
— Tinha que arrumar mais algum modo de silenciar você. Mexi alguns pauzinhos... E agora tenho esses contratos, você está com as cópias, é claro. Mas basta você abrir essa sua linda boquinha, ou fazer algo de errado que eu assino e registro eles imediatamente. Esses papéis são como reservas, mas posso colocá-los na ativa a qualquer momento.
— Isso é um absurdo. Comprando todos os produtos dessas vilas você deixa as que importam sem, vai gerar uma crise.
— Elas podem comprar diretamente de mim. É claro, se eu quiser negociar com elas...
Um sorriso cínico surgiu no rosto másculo e tudo que ela queria fazer era quebrar todos aqueles dentes.
— Está na sua mão, boneca. Eu permito que você ande com seu amigo hoje, mas já sabe, se você abrir a boca, sua antiga vila não terá mais de quem importar porque eu comprarei todas as safras.
— Você não tem dinheiro o suficiente para isso.
— Ah não? Quer pagar para ver?
— Como conseguiria tanto dinheiro? Explorando ainda mais seus subordinados?
— Não enfie seu nariz nos meus negócios. Tudo que você tem que fazer é manter essa sua linda boquinha fechada. Aliás, eu tenho ótimas ideias do que você pode fazer com ela...
O sorriso foi sugestivo, ultrapassando a barreira do malicioso e seu estômago se revirou em enjoo.
— Vamos para reunião. Você deve ficar quietinha do meu lado. Entendeu?
Ele andou até ela, segurou seu queixo com as mãos, apertando-o e depois lhe deu um selo nos lábios.
Repugnante.
Saíram em direção ao local de reuniões. Ele radiante pelo xeque mate e ela inconformada com tudo aquilo.
♣
A reunião foi longa. Ela passou toda ela em pé ao lado de Raioko, porque somente os kages podiam se sentar nas estimadas cadeiras. Ela não prestou muita atenção, ficar de pé todo aquele tempo estava sendo mais cansativo do que o normal, porque ela não tinha muito controle de chakra e parecia cada vez mais fraca.
Quando acabaram, decidindo que ainda haveria outra reunião antes do Exame Chunnin, ela quase gritou em alegria. Tudo que queria era ir para o quarto do hotel e se deitar.
— Vamos andar agora?
Naruto estava sério ao seu lado. Ela estava pronta para recusar (porque realmente não estava em condições) quando Raioko falou por ela.
— É claro que ela vai. Está muito ansiosa para passar um tempo com o melhor amigo.
O loiro ignorou o Amekage e andou na frente esperando que ela o acompanhasse. Respirou fundo, criou forças e o seguiu.
Não sem antes ver Raioko a dirigindo um olhar sugestivo.
Pense bem no que vai falar.
O olhar dizia.
♣
— Como você está de verdade?
Foi a primeira coisa que Naruto perguntou quando eles ficaram “sozinhos” andando pelas ruas. O amigo havia abandonado totalmente a pose alegre e agora a olhava de um modo sério e questionador.
Sua língua coçou para despejar tudo sobre ele, mas tudo que saiu foi:
— Estou bem. Raioko não é ruim como falam.
— Por que será que não estou convencido disso?
Ela deu os ombros.
Seu braço doeu no ponto em que seu marido cruelmente apertou horas mais cedo, quando roçou no casaco grosso que ela usou para esconder aquele vestido ridículo. Disfarçou a careta da melhor maneira que pode, e seguiu na caminha tranquila ao lado do loiro.
— Você sabe que eu diria se tivesse algo errado.
O Uzumaki acenou positivamente, ainda não parecendo muito convencido.
— Não sei nem como olhar par você depois disso tudo. Agora eu vejo a grande merda que fiz, onde eu estava com a cabeça? Eu acho que tinha tanta certeza que o teme ia te ajudar que não esperava que você realmente fosse obrigada a se casar. Quando recebi a carta, mal dormi por uma semana. A culpa está me consumindo, Sakura-chan.
— Naruto, a vila, os habitantes estavam em jogo. Não fique assim, eu sei que você sente muito pelo que aconteceu e isso me conforta. ‘Se eu precisasse fazer novamente pelo bem da vila, eu faria. É meu dever como cidadã e como kunoichi.
Os ombros do amigo parecem pesados, ela quer abraçá-lo e confortá-lo melhor, dizer que entende, que ele não tinha escolha, mas ela sente que um subordinado de seu marido está os seguindo. Então ela permanece ereta e elegante.
Mesmo que seus sapatos estivessem a matando.
Mesmo que a supressão de chakra estivesse a matando.
Mesmo que aquele peso tanto nos seus ombros e nos de Naruto estivessem a matando.
♣
— Falou com ela?
Nem ao menos espera Naruto sentar para perguntar. O loiro parece cansado, e não responde imediatamente. Ele senta, passa a mão pelo rosto e pede uma bebida.
— Sim. Ela disse que está tudo bem. Que o casamento está indo bem, que ele não é como falam. Falou que não respondeu minhas cartas porque está ajudando na vila e quase não tem tempo para escrever.
— E você acreditou?
— Pareceu convincente.
— Isso não pode ser verdade.
Sua mente grita que há algo errado, embora ele não saiba o quê.
— Sasuke, acho que nós estamos procurando coisas erradas que não existem. Apenas pegamos implicância com ele, mas nem o conhecemos de verdade.
— E você confia em um homem que pediu uma mulher em troca de importações? Que praticamente chantageou você?
O Uzumaki mexe a cabeça, incomodado.
— Eu vou para o meu quarto, estou exausto.
— Naruto, você não pode ir dormir sem saber o que realmente está acontecendo.
— E o que está acontecendo? De verdade Sasuke, sei que você está se sentindo culpado, mas porque está procurando tanto um defeito nesse casamento? Você está nervoso porque não a ajudou ou por vê-la nos braços de outro homem?
Os dois.
Os dois.
Ele não responde.
— Você nunca a quis Sasuke. Não sei se você pensou que ela ia ficar a vida inteira se rastejando por você, mas, agora que ela casou e parece estar bem, por favor, deixe que ela viva a vida dela. Que seja feliz, ela merece isso.
Cala a boca. Cala boca. Ela não está feliz.
Sabia que não era coisa da sua cabeça. Sentia isso. Havia algo muito estranho naquele homem, naquela vila e naquele casamento. E não era só seu ódio em vê-la com outro que estava fazendo com que ele pensasse aquilo. Ou pelo menos ele esperava que não.
Há algo errado.
Muito errado.
E eu não vou desistir até descobrir o quê.
♣
Quando ela chega ao quarto do hotel seu marido não está ali. Ela deita na cama e dorme imediatamente. O cansaço a abate.
Ela acorda quando já é noite. As comemorações do lado de fora continuam, ela houve o barulho mesmo do quarto andar.
Toma um banho relaxante, apreciando a glória de estar sozinha. Depois veste uma calça e uma blusa simples e joga um casaco grande por cima. Sabe que se Raioko a ver assim não irá aprovar (não é uma roupa elegante), mas ela fica contente em provocá-lo mesmo que fosse por algo tão simples e fútil.
Decide descer e procurar por algo para comer. Havia tomado um chá com Naruto, mas já fazia horas, e agora seu estômago já roncava de fome.
Lá fora as luzes dos postes iluminam as ruas, mas há também luzinhas menores penduradas entre um poste e outro dando um ar alegre e festivo. Ela anda pelas barraquinhas, ninguém parece a notar ali, e ela não pode se sentir mais grata.
Compra um espetinho de polvo e come na frente da barraca, em pé. Há muitas conversas e risadas, tantas pessoas a sua volta... E ainda sim ela se sente sozinha.
Quando acaba de comer, ela dá mais um volta pela cidade. Algumas ninjas adolescentes a reconhecem e a cumprimentam pelos seus dotes médicos. Ela se sente satisfeita e feliz pelo reconhecimento, agradece e continua andando.
Sobe uma rua onde há poucas barracas, e encontra um lugar calmo com poucas pessoas. Fica alguns minutos ali, parada, observando o movimento nas ruas em baixo.
— Sakura.
Um arrepio sobe pela sua espinha e seu corpo treme involuntariamente.
Ela demora pelo menos três minutos para se virar.
— Otokage-sama.
Faz uma mesura educada, mas tudo que ela realmente quer fazer é chorar.
Por que diabos você veio falar comigo?
Vá embora.
Vá embora, por favor...
— Sakura, precisamos conversar.
— Acho que não temos nada para falar.
— Sakura, eu sinto muito, se eu soubesse, eu...
Seu sangue ferve. Ela tem vontade de dar um soco naquele rosto maravilhoso.
— ‘Se soubesse não mudaria nada.
— Sakura, me ouça eu—
— Um pedido Sasuke — Ela percebe que o chamou pelo nome, e corrige. — Um pedido, Otokage. Eu tinha um pedido a fazer. Esperei horas.
— Eu estava em reunião, se soubesse que era algo tão grave...
— Por favor, não haja como se importasse.
— Sakura, não—
Percebe então que está dando outra gafe. Seus olhos estão marejados, ela está amargurada, e quase falando a ele que por culpa dele ela estava vivendo aquele inferno.
— Pra minha sorte ele é um homem bom.
Sasuke ri pelo nariz.
— Não minta.
— Não estou mentindo. Está tarde, eu devo ir.
Quando ela se vira para ir embora ele toca seu braço. É um toque sutil, não a aperta nem a machuca, apenas a mantém no lugar. Mas é um toque no mesmo lugar que Raioko a apertara mais cedo, e ela disfarça (pela segunda vez naquele dia) uma careta de dor.
— Sakura, eu exijo que me conte a verdade.
Ela ri alto, sem nenhum humor e se desvencilha do toque dele.
Do toque que a deixa confusa, derretida, aquecida.
— Exige? Exige? Desculpe-me, Otokage-sama, mas o senhor não tem o direito de exigir nada de mim.
Ela não sabe o que a humilha mais. Chamá-lo de senhor ou toda aquela situação.
— Sakura, pare de me chamar assim.
— É isso que você é não é? Foi por isso que não me atendeu. E é por isso que não o direito de exigir nada de mim.
— Sakura eu posso te ajudar. ‘Se me contar o que ele está fazendo com você, e eu sei que ele está fazendo alguma coisa, eu posso te ajudar.
— Não você não pode. E quando podia, nem ao menos me ouviu. Tenha uma boa noite, Otokage-sama.
Ela não espera uma resposta. Não escuta mais nenhuma palavra. Porque sabe que se o ouvisse falando mais qualquer coisa, se derreteria, contaria tudo, abandonaria toda aquela pose e choraria ali mesmo, na frente dele.
Ele não a segue. E ela não sabe se agradece ou pragueja.
Seu coração está confuso. A imagem dos olhos negros não saem de sua mente.
Por que, pela primeira vez em muitos anos, os olhos negros pareciam verdadeiramente preocupados.
E isso a quebra.
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