Entre Sombras

9 CAPÍTULO O9: A expressão nos entrega


Notas iniciais
Desculpas são necessárias e inúmeras, mas espero que me retrate com esse capítulo. Obrigada por todos os comentários maravilhosos, boa leitura!

ENTRE SOMBRAS

Escrita por Coffee

CAPÍTULO O9: A expressão nos entrega

— Onde você esteve ontem?

É a primeira coisa que Raioko pergunta quando a vê saindo do banheiro na manhã seguinte. Na noite passada, após seu encontro com Sasuke ela voltou para o hotel, furiosa e confusa, e ficou rolando na cama por duas ou três horas antes de finalmente conseguir encontrar descanso em seu sono.

O seu marido não havia aparecido até então, e provavelmente quando chegara estava bêbado demais para acordá-la e interrogá-la sobre qualquer coisa.

— Não aja como se não soubesse. Sei muito bem que mandou me seguirem.

— Ótimo, já que estamos deixando as máscaras caírem, eu pergunto, o que o Otokage queria com você?

Não sabia se Raioko sabia sobre sua relação com Sasuke, que ele era de Konoha, que já foram do mesmo time, e, se ele não soubesse, não seria ela que contaria.

— Nada. É amigo de Naruto, queria apenas me certificar que eu estava bem.

— Vou fingir que acredito.

— Ótimo.

— Só espero que não tenha falado coisas demais.

— Por que além de me seguirem, também não coloca um microfone nas minhas roupas? Assim você vai ter o controle total da situação.

— As surpresas me excitam boneca.

Deu os ombros, pegou a mochila e se preparou para sair. Não passava das cinco da manhã, e, quando realmente amanhecesse ela queria estar longe de Naruto, Sasuke, e das ameaças de Raioko que vinham com eles.

Conseguiu ir embora sem se despedir de ninguém. Não queria falar com Naruto e ter que enganá-lo, fingir que tudo estava bem. Nem queria ficar sobre os olhos acusadores do Uchiha. Mas sabia que em breve teria os dois de novamente. Outras reuniões já haviam sido marcadas, e ela teria que encará-los mais cedo ou mais tarde.

— O pessoal de Amegakure já partiu.

Suigetsu disse assim que eles se encontraram nos corredores do hotel.

Mas sabia que o que o garoto tubarão realmente queria dizer era: “Ela já partiu”.

Apesar de tapado ele parecia ter um sexto sentido para esse tipo de coisa. Suas inseguranças, suas preocupações, seus sentimentos. Ele vivia fazendo piadas sobre sua vida amorosa, e a maioria delas vinha acompanhada com “a gata do cabelo rosa”.

Ele tentava ao máximo ignorar o companheiro, mas, ignorar Suigetsu era uma missão tão difícil quanto ignorar Naruto.

E foi apenas desse último que ele se despediu com um aperto de mãos furtivo, porque ele não estava aberto para afetos e piadas logo cedo. Seu humor estava mais amargo do que o normal, e, quanto mais perguntas ele evitasse, melhor.

Suspirou.

Os olhos verdes não saíam de sua cabeça e a culpa dos seus ombros.

Teriam outras reuniões, e com elas, a chance dele descobrir o que realmente havia de errado com ela e aquele casamento. Ele só esperava que ela ficasse bem até lá.

De volta a Amegakure os dias passaram diante de seus olhos. Ela vivia dentro de casa, entretida com um livro ou outro, sentindo cada vez mais falta da sua vida agitada no hospital de Konoha.

A empregada de Raioko nunca falava com ela, com exceção de uma ou duas perguntas, nunca mais que isso (a mulher claramente a odiava).

Em uma terça-feira ela se cansou de ficar rolando no sofá e resolveu dar uma volta pela vila, quer Raioko gostasse quer não.

A vila em si parecia não gostar dela, e notou isso assim que pôs os pés para fora da mansão. Alguns olhares pararam seus afazeres para observá-la, cochichando entre si, alguns falando alto o suficiente para que ela ouvisse.

— Onde já se viu? Casar com uma estrangeira quando temos tantas mulheres melhores aqui...

— Essa tem o nariz tão empinado que nem sai de dentro de casa...

Ela engoliu uma resposta em silêncio e continuou andando firme. Seu corpo coçou para se virar e dar a resposta que mereciam, falar que não a conheciam que ela estava vivendo um inferno ao lado do líder que eles tanto veneravam, mas prosseguiu seu caminho.

Em certo ponto, mais a lesta da vila, viu que as casas ficavam cada vez menores e humildes. Alguns olhos a expiaram, mas permaneceram quietos.

— Senhora?

Virou-se não vendo nada atrás de si. Depois olhou para um beco a sua esquerda, encontrando uma mulher, talvez uns cinco anos mais velha que ela, encolhida perto do muro na viela suja.

— Sim?

A mulher parecia envergonhada e ressabiada ao mesmo tempo, demorou pelo menos dois minutos para ela voltar a falar novamente:

— Não sei muito sobre a senhora, mas ouvi falar que é médica... Eu... Meu filho ele... Ele está muito doente... Se a senhora pudesse...

Entendeu imediatamente e se aproximou da moça, vendo-a dar alguns passos para trás em proteção.

— Leve-me até ele.

— O problema é que... — Viu-a morder o lábio inferior em dúvida — Eu não tenho dinheiro o suficiente...

— Não se importe com isso. Quero vê-lo.

Ainda desconfiada, mas aflita, a mulher deu-lhe as costas, entrando mais a fundo na viela. Prontamente pôs-se a segui-la. Quando estavam lado a lado, a outra começou a falar.

— Os médicos aqui são muito caros... Mas me falaram que o povo de Konoha é muito bondoso e generoso, e que a senhora é de lá... Sei que não deveria pedir algo assim, mas meu filhinho é tudo para mim, não posso suportar a ideia de perdê-lo...

— Está tudo bem. Não se preocupe com nada disso agora, vamos vê-lo sim?

Elas andaram até uma casa simples, de teto baixo e porta de ripas de madeira. O chão era de terra batida, havia um único cômodo dividido em cozinha, sala e quarto e uma pequena porta a direita que ela imaginou ser o banheiro.

Na cama simples de casal estava um embrulho. Um menino de prováveis nove anos, enrolado em um cobertor, tremendo de febre.

Sabia que não conseguiria usar seu chakra para curá-lo, então esperava que não fosse nada grave, para que pudesse salvá-lo usando métodos simples.

Examinou-o com cuidado. Parecia ser uma virose comum naquelas terras de chuvas constantes, contraída principalmente por crianças, que brincavam e até mesmo bebiam água de poças infestadas pelo vetor.

Precisaria de um antídoto e um antitérmico.

Explicou para a mãe o que a criança tinha da melhor forma que pôde, tentando não usar nenhuma palavra técnica.

— Ele vai ficar bem?

— A febre está muito alta. Preciso que pegue água para mim, e coloque algumas compressas na testa e pescoço dele, até que eu busque o remédio. Também preciso saber se há algum lugar que vende ervas aqui, preciso fazer um antídoto.

— Remédio?

— Sim, eu poderia fazer um antitérmico, mas esses que vendem em farmácias são mais eficazes e rápidos e precisamos baixar essa febre imediatamente, para que eu possa fazer o antídoto.

— Senhora, eu...

— Sakura, meu nome é Sakura.

— Sakura-sama... Eu não tenho dinheiro para isso... Já gastei meu pagamento desse mês em mantimentos e...

— Não se preocupe com isso. Somente me indique onde têm uma farmácia e algum lugar para encontrar ervas, e eu lidarei com o resto.

Comprou o remédio com o dinheiro que tinha trazido de Konoha. Depois passou em uma loja de ervas, pegando as necessárias para o antídoto e voltou para a residência da mulher.

Ela pareceu surpresa e aliviada em ver que ela realmente tinha voltado.

Administrou a dose de remédio e fez com que a criança bebesse.

— Posso usar seu fogão?

— Claro.

A mulher que ela descobriu chamar-se Suo saiu de perto do filho e correu até a pia e o fogão, tirando panelas de lá de cima para ela pudesse usá-los.

Enquanto amassava as ervas, pensava em um modo de fazer algumas perguntas sem ofender Suo.

— Por que não o levou ao hospital?

— É muito caro...

— Mas deve haver uma ala publica, não?

— Eles dizem que recebemos o suficiente para pagar o hospital, porque não pagamos imposto nenhum aqui, e realmente, quem trabalha das fábricas têm dinheiro para isso quando precisam, mas nós... Meu marido colhia alimentos no campo, quando ele faleceu meu filho ainda era pequeno, e eu não conseguia pagar uma creche para colocá-lo. Minha vizinha cuidou dele para que eu pudesse trabalhar no campo também, mas agora estamos fora da colheita, mesmo assim recebo um tanto fixo, mas não é o suficiente.

Sua mente foi instantaneamente entendendo.

Como já havia percebido antes (e confirmado com o preço do remédio e das ervas), tudo ali era muito caro. Suo dissera que eles não pagavam impostos, mas também não tinham direito a alas públicas em hospitais e escolas. Com o preço elevado dos alimentos, devia sobrar pouco dinheiro para gastarem em saúde e educação.

— As crianças aqui não vão à escola?

— Somente os que querem ser ninjas ou os que têm dinheiro para pagar. A academia ninja é barata e acessível para muitos da população, não para nós, obviamente, mas para os operários da fábrica é algo possível. Alguns fazem turnos duplos para tiraram dinheiro a mais para pagá-la para os filhos. A vida ninja é sofrida, mas é a opção que temos aqui, pelo menos o preço pago por missões é maior do que o da fábrica e do campo.

Não quis conversar mais. Aquela conversa a enjoava. Saber que a comida que as vilas importavam dali, por um preço tão barato era fruto de uma escravidão disfarçada.

Acabou de fazer o antídoto. Deu a primeira dose e instruiu a mulher a como dar as outras. Prometeu voltar no dia seguinte e saiu pelas ruas nubladas de Amegakure.

Chovia fino, mas ela não se importou. Seus pensamentos maquinavam, precisava encontrar um modo de ajudar aquelas pessoas. Se ao menos pudessem denunciar aos kages... Tinha que haver um jeito.

— Estou curioso para saber o que fez hoje. Casa, farmácia, ervaria...

Raioko apareceu ao seu lado de repente. Usava o manto de kage e as pessoas da rua principal faziam reverência quando ele passava.

— Parece que já sabe de tudo.

— O que foi fazer por aquele lado da minha vila?

— Fui cuidar das pessoas que você não cuida. Que você explora. Que deixa morrer de doenças e fome.

— Não seja dramática, nunca ouviu falar na lei do mais forte?

— E você ainda se diz um líder...

Sua voz era feroz, mas baixa. Caminhavam pelo centro da cidade, e ela não queria que os moradores ouvissem.

—A massa trabalha... A elite festeja...

— Você é ridículo.

— E você é um docinho. Não quero que se envolva nos problemas da minha vila. Fique longe dos meus moradores e daquela parte suja da vila.

— Se você admite que eles vivem mal, porque não os ajuda?

Ele riu.

— Quem você acha que paga pela lagosta que comeremos hoje à noite? Não seja cínica. Todas as vilas têm desigualdades.

— Sim, mas temos direito a escola e hospitais públicos, e, mesmo que não seja uma maravilha, pelo menos servem para que—

— Não venha me dar lição de moral.

Eles tinham chegado à mansão. As luzes estavam acessas e a casa cheirava a comida recém-feita. Imediatamente ela pensou na pobreza na outra parte da vila e não conseguiu comer aquela noite.

Suspirou. Estava novamente indo a uma reunião. Implorou para ficar em casa, mas Raioko alegara que não confiava nela sozinha na vila.

Ele não era idiota. Sabia que ela tentaria mudar as coisas por lá tão logo ele desse as costas.

Passaram primeiro na Vila Oculta da Grama, e agora ia para o País do Trovão na penúltima reunião. Dessa vez na Vila Oculta da Nuvem onde os lugares candidatos a sede do Exame Chunnin se apresentariam.

Viajavam somente os dois e mais um guarda. Ela não entendeu porque Raioko estava viajando com apenas um subordinado, mas não ousou perguntar.

Um dia na viagem, quando estavam no País do Redemoinho, longe de qualquer pousada e hospedaria, pararam para descansar em céu aberto. Ela colocou seu saco de dormir em baixo de uma árvore, longe da fogueira montada e longe dos dois homens com olhos de águia.

À noite, de olhos fechados, tentando dormir, ela ouviu uma conversa.

— Notícias?

— Gengo — Era o nome do principal subordinado de Raioko — Mandou uma ave. A rebelião nas fábricas parou, mas os operários ainda estão inquietos...

Ela entendeu. Por isso os outros homens de Raioko ficaram para trás. Os moradores (finalmente) haviam notado que algo estava errado, e aparentemente se rebelaram.

Talvez, houvesse esperança.

E ela não via a hora de voltar para Amegakure e ajudá-los.

Chegaram no começo da manhã. O sol estava quente, e ela não via a hora de tomar um banho para tirar o suor e o cansaço do corpo.

Vários kages estavam chegando naquele momento e todos eles se viraram para ver a entrada de Raioko, os rostos tinham uma expressão estranha, desconfiança e dúvida.

Embora ela permanecesse cega em vista do motivo, seu marido parecia saber muito bem. Por que empinou a cabeça, ajeitou a coluna, e adentro a vila como se nada o afetasse. Frente a tantos olhares, ela se sentiu mal, com o vestido longo e lilás, de pano esvoaçante, tão diferente de suas roupas de batalha.

Sentiu-se intimidada.

— Bem vindo, Raioko.

O kage de Kumogakure cumprimentou-o com um sorriso forçado.

A ela, ele reservou um aceno de cabeça que foi correspondido.

— Precisamos conversar a sós antes mesmo da reunião principal.

O Raikage disse sem delongas. Raioko somente acenou positivamente, o rosto fechado em uma máscara de raiva disfarçada.

Algo estava realmente errado.

— Vou receber meus outros convidados. Fique à vontade.

Assim que o líder da Névoa deu as costas, ela observou as mãos de Raioko se fecharem em punho. Ele se virou para ela, ficando frente a frente.

— Se eu descobrir que você tem algo a ver com isso... — Ele não deu tempo para que ela retrucasse, colocou uma mão seu ombro e se aproximou dela — Agora você vai sorrir, e me beijar como se estivesse totalmente apaixonada.

Ela não queria beijá-lo, menos ainda na frente de todo mundo. Ele tocou o cordão de supressão de chakra, e, de algum modo enviou uma corrente elétrica pelo seu corpo, ela se segurou no ombro dele para manter-se em pé, enquanto lutava para não gritar.

— Entendeu?

Acenou positivamente, sua mente, nublada de dor.

Ele se aproximou e beijou-a selvagenmente. Com tanta força que ela sentiu os lábios doerem. Correspondeu como podia, seu corpo ainda fraco pelo choque, teve que se apoiar no dele para manter-se em pé, mas, externamente poderia ter sido entendido como uma carícia.

Quando se separaram, ela não pode encarar aqueles olhos observando-os.

Porém, antes de abaixar a cabeça e seguir para o hotel, seus olhos envergonhados se cruzaram com outro olhar.

Negros como a noite.

— O que está acontecendo?

Perguntou, não aguentando manter a boca calada.

O Amekage não respondeu sua pergunta. Apenas entrou no quarto do hotel, deixando seus pertences jogados na cama.

— Eu vou resolver toda essa merda. E você fica aqui. Está me ouvindo? Não quero que saia daqui. Yuzo vai comigo, mas não se engane eu sei tudo que acontece, então, permaneça aqui dentro e só saia quando eu permitir. Nada de conversar com seu amigo estúpido, nem com ninguém.

Quis retrucar, mas sabia que era inútil. Então simplesmente deu as costas, entrando no banheiro. Tomou um banho gelado, tentando aliviar o calor e a tensão.

Seus pensamentos estavam voltados para o que teria acontecido, mas não conseguia formar nenhuma teoria, porque volta e meia eles caiam para a lembrança de olhos negros, observando seu beijo em Raioko.

Nauseada, ela escovou os dentes duas vezes.

Saiu do banheiro, colocou um vestido fino (também presente de Raioko), e começou a organizar os seus pertences no pequeno guarda-roupa no canto do quarto. Duas batidas na porta foram ouvidas.

Incerta, ela pensou ser Naruto, mas não havia nenhum chakra ninja, então ela abriu metade da porta. Observou a menina, era claramente uma camareira, então deu espaço para que entrasse.

Sabia que provavelmente viera trocar os lixos do banheiro, então voltou aos seus afazeres. Até queria dizer qualquer coisa, tentar tirar qualquer informação, mas seu humor não estava dos melhores depois do show de Raioko na frente de todos.

De costas, ela sentiu algo na atmosfera mudar, no mesmo tempo em que ouviu a porta ser trancada com a chave. Virou-se de supetão, pronta para se defender.

Não havia mais a frágil camareira a sua frente.

Sasuke.

Estava perto dela em um segundo, movimentando-se como um gato.

Rápido. Ágil.

— O que... O que está... Sasuke você não...

Mordeu a língua ao perceber que havia o chamado pelo nome.

— Se Raioko—

Observou uma expressão de raiva passar pelas feições sérias e dois passos em sua direção serem dados. Ela tentou dar passos para trás, mas logo encontrou a porta do guarda-roupa.

— Tem que sair imediatamente, tem q—

Foi voraz, mas totalmente diferente de Raioko.

A boca quente encontrou a sua. Beijando-a como se o mundo fosse explodir naquele momento. Ela tentou andar para trás, afastar-se dele, mas uma das mãos foi até a sua nuca, mantendo-a no lugar, e a outra para sua cintura, colando mais ainda os seus corpos.

No momento que a língua ávida tocou seu lábio fechado, ela se derreteu. Desistiu de manter a pose forte e raivosa. Havia voracidade, mas algo mais. Uma delicadeza disfarçada que fez com que lágrimas escorressem pelo seu rosto.

Notas finais
Não tive tempo de revisar muitas vezes, peço perdão por qualquer erro. Parece que tem alguém com ciúmes... Beijos! Leia também: https://fanfiction.com.br/historia/707679/Pedacos/