Entre Sombras
4 CAPÍTULO O4: A obrigação nos rege
Notas iniciais
Entre Sombras
Escrita por Coffee
CAPÍTULO O4: A obrigação nos rege
Ela andava ao lado do Amekage desconfiada. Eles andaram por entre as ruas escuras, até a parte mais alta da cidade. Em algum ponto os outros dois ninjas os abandonaram e eles ficaram a sós.
— Demorou muito para decidir vir, quase estourou o prazo. Já estava preparado para cortar as importações para Konoha.
— Tive alguns problemas no caminho.
A conversa se encerrou ali. Ela não estava com humor para dar explicações mais convincentes e não se importou com o que ele acharia do seu atraso. Estava ali, isso era o importante, e ali era onde iria permanecer por muito tempo.
Eles subiram uma campina lamacenta, até a casa que vira quando entrou. Era grande, diferente das demais construções ali não era feita de aço e ferro, e sim de tijolos escuros. Mesmo com o dia clareando, a falta do sol deixava tudo ao seu redor opaco e cinzento.
A vila era bem diferente de Konoha. Não havia árvores nas calçadas, nem áreas verdes. Apenas o cinzento aço e ferro por todo o lado, ruas lamacentas pela chuva constante, o céu escuro.
O kage andou em sua frente, notou que ao redor da casa não havia outras construções. Somente mais a baixo havia mais prédios industriais e bem ao fundo uma floresta de grandes árvores de onde eles deviam tirar madeira para importar.
Subiu os três degraus da casa desconfiada. Eles rangeram sobre o peso. Como imaginou aquela casa devia estar ali desde a fundação da vila que parecia girar em torno daquela construção.
O homem abriu a porta e deu espaço para ela entrasse. O interior era escuro, as paredes de tijolos beirando o negro, poucas mobílias também escuras, nenhum objeto decorativo.
— O que achou?
Ele perguntou, mas ela não se deu o trabalho de responder. Ele veio atrás de si, tocando sua mochila e ela deixou que ele a tirasse de suas costas, notou a careta dele ao sentir o peso.
— Algo muito pesado para uma moça carregar, poderia ter pedido que eu mandasse alguém para buscar as suas coisas, ou quem sabe, comprar novas aqui. Uma viagem tão longa com um peso desses nas costas—
— Minhas costas estão ótimas. Obrigada.
Cortou-o. Aquele falatório falsamente preocupado a irritava. Ele não se importava com o peso que ela tivera que carregar ou não teria a obrigado a casar-se para começo de conversa. Pessoas falsas a davam nojo.
— Bom, mandarei que Fuji lhe prepare um banho. Você está imunda.
Sabia que estava. Na corrida contra o tempo não teve como parar em alguma pousada ou rio para se limpar. Estava a quase quatro dias correndo e parando apenas para comer alguma coisa ou tirar um cochilo.
De todo modo quis ralhar com ele, dizer que essa era vida ninja, que eles viviam no meio do mato, à surdina, sujos de sangue e lutas, mas mais uma vez escolheu o silêncio.
— Fuji.
Ele chamou e mais do que de pressa uma mulher apareceu nas escadas. Tinha idade para ser sua mãe, era baixa, robusta, de cabelos castanhos escuros e olhos amedrontados.
— Sim senhor?
— Prepare a banheira para nossa convidada. Mostre-lhe o quarto e ajude-a a desfazer sua mochila. Prepare algo para que ela coma e depois a deixe descansar um pouco.
Um relógio começou a bater de repente. Era grande e cumprido, quase do tamanho dela e suas badaladas preenchiam a casa. Seis horas da manhã.
— Preparo o quarto de hóspedes?
A senhora perguntou.
E ela mesma se perguntou isso. Quanto tempo duraria o noivado? Três semanas? Um mês? Ela dormiria no quarto de hóspedes até lá?
— Pode a instalar no meu quarto. Ela deve estar bem descansada para hoje à noite.
Uma festa?
De boas vindas?
Riu da própria desgraça.
Um anúncio de noivado talvez.
— O que tem hoje à noite?
Perguntou, sem se virar para ele. A senhora arregalou os olhos como se dissesse que ela era louca de perguntar algo a ele.
— Nosso casamento, boneca.
Agradeceu por estar de costas e por ele não poder ver sua reação, ainda sim ele pareceu notar seus ombros tremerem mesmo em baixo da grossa capa que usava, e que inclusive ainda pingava água da chuva.
Escutou passos. A senhora subiu as escadas, provavelmente querendo dá-los privacidade. Ele se colocou em sua frente.
As mãos dele tocaram seu capuz, abaixando-o e ela resistiu à vontade de desviar do toque.
Ele observou seu rosto, agora sem o capuz. E começou a tirar sua capa. Descruzou os braços para que ele o fizesse. Sentia-se exposta somente com a calça negra e a blusa vermelha, sob o olhar dele.
Raioko deixou sua capa em algum lugar, e já estava a sua frente novamente.
Ele tocou o coque no seu cabelo, e logo seus cabelos caíram pelas costas. Ela havia os deixado crescer após a guerra, e agora eles estavam a apenas alguns dedos acima do seu quadril.
— Não achou que eu iria perder tempo com noivados quando eu posso tê-la para mim, não é? Achou que eu iria correr o risco de dar tempo para que vocês achassem uma saída?
Ele riu alto e malicioso.
— Você tem muito a aprender comigo, boneca. Mas fique tranquila — Ele se aproximou, sua boca colando em seu ouvido — Eu vou lhe ensinar tudo direitinho... Agora suba e descanse.
Ela quis xingar-lhe e dizer que ela não seguia ordens, mas sabia que de agora em diante essa era a sua vida.
Suspirou se afastando dele e subindo as escadas de madeira.
O quarto era grande como os demais cômodos da casa. No centro havia uma cama de casal de tamanho médio, com um dossel tão delicado que era contraditório pensar que um homem como aquele dormia ali.
A empregada já tinha trazido sua mochila para cima, a aberto, e estava espalhando seus pertences pelo guarda roupas. Não gostou daquilo, embora soubesse que ela estava cumprindo ordens, não gostava de outras pessoas mexendo em suas coisas, desfazendo suas malas.
— Pode deixar — Ela demorou alguns segundos para lembrar e se acostumar com o nome — Fuji-san, farei isso mais tarde.
A senhora não retrucou. Apenas apontou para uma porta em que ela imaginou ser o banheiro e depois disse:
— Trarei sua refeição daqui a alguns minutos.
E se retirou silenciosa.
Suspirou, pela primeira vez sozinha e sentou-se na cama com a mão entre os cabelos.
Depois de passar algum tempo assim, levantou-se andando até a mochila aberta, e no fundo dela encontrou seu shampoo e condicionador, assim como alguns itens de higiene pessoal e roupas. Levou tudo para o banheiro acoplado ao quarto, fechando bem a porta atrás de si.
Estava paranoica, sabia, mas as paredes daquela casa a deixavam assim. Aquela vila a deixava assim. Parecia que nunca estava realmente sozinha, era como se estivesse o olhar de alguém sobre si, e isso a arrepiava.
Primeiro escovou seus dentes, duas vezes. Depois testou a temperatura da água da banheira já cheia. Estava morna do modo que gostava e tinha um cheiro bom de sal de banho. Primeiro lavou os cabelos até eles parecerem limpos o suficiente, depois espalhou sabão pelo corpo e aproveitou para usar uma gilete e tirar alguns poucos pelos que insistiam em crescer. Por último lavou todo o corpo e o rosto.
O banho de algum modo a renovou. Estava exausta, mas ao saber que casaria ainda naquele dia acabou tirando um pouco do seu sono e deu espaço a inquietação.
Penteou os longos fios ali mesmo, dentro do banheiro, vestiu uma roupa limpa (outra calça preta e uma blusa azul escura de mangas) e saiu. O vento frio da janela aberta constatou com o ar abafado do banheiro e a arrepiou.
Andou até a janela, mas esta estava emperrada. Pensou em usar sua força para tentar fechá-la, mas ficou com medo de quebrar algo em seu primeiro dia ali, e por fim, desistiu. Só ao virar-se foi que notou uma bandeja no criado mudo ao lado da cama.
Havia uma maça, uma laranja, três torradas, uma pasta de framboesa ou cereja e um copo de leite.
Sentou-se na cama, encostando-se a cabeceira e puxou uma das cobertas pelo seu colo para se proteger do vento frio. Foi estranha a sensação de estar em uma cama desconhecida que não era de nenhuma pousada, pelo contrário, ela passaria muito tempo ali. Tinha que se acostumar.
Comeu as torradas com a pasta que descobriu ser de framboesa e depois a maça. Depois escorregou seu corpo pela cama. A roupa de cama deveria ter sido trocada esta manhã, porque cheiravam a produto de limpeza, quase tão estéril quanto roupas de hospitais e isso a deixou mais confortável.
Antes de dormiu pensou que tinha que escrever para Naruto e falar que havia chegado, mas sabia que uma carta provavelmente já tinha chegado até ele, com contratos para que ele assinasse. Raioko não era tolo, sabia que ela não se casaria com ele sem ver contratos escritos da aliança definitiva entre Amegakure e Konoha.
Não soube exatamente quando caiu no sono.
Acordou em alerta no momento em que sentiu alguém entrar no quarto. No primeiro momento ficou em dúvida de onde estava. Depois se lembrou de tudo e seu estômago pareceu revirar-se.
Voltou-se para a porta. A senhora a olhava em dúvida como se pensasse se ela estaria acordada ou não. Levantou-se sentando na cama como forma de mostrar que sim, estava acordada (infelizmente).
Fuji entrou com algo nas mãos. Colocou em sua cama silenciosamente e depois foi pegar a bandeja.
— Poderia me falar, por favor, que horas são?
Ela pediu, após virar a cabeça pelo quarto e não achar nenhum relógio. Apesar de ser educada a senhora pareceu não gostar da pergunta, ou talvez apenas não gostasse dela. Ainda sim, respondeu.
— São dezesseis horas.
Havia dormido tanto tempo assim?
— Este é o vestido que o meu senhor deixou para que vestisse. Ele deve vir buscá-la em breve.
Fuji não ficou para sanar suas outras dúvidas. Deu as costas e saiu.
Levantou-se jogando as cobertas para o lado e correu até a peça no lado oposto da cama.
Não era um kimono matrimonial, nem um desses vestidos de noivas brancos que estavam na moda agora.
Era um vestido branco, porém de dois panos, um forro mais grosso e outro leve e transparente por cima, longo, com alças transpassadas na frente. Não havia nenhum bordado, nem acessório.
Era bonito, tão delicado que ela ficou em dúvida se ficaria bem com aquilo.
Foi ao banheiro e vestiu-se, a barra ficou um pouco grande demais, mas não tanto aponto de tropeçar. Na mala achou uma sandália nude que Ino lhe dera uma vez. Vestiu-a. Fez um coque nos cabelos e passou um pouco de maquiagem.
Como tinha que fazer aquilo, faria com dignidade.
Ela não iria ficar chorando pelos cantos, nem fazer birra e rasgar o vestido.
Seria forte como Tsunade lhe ensinara a ser.
Porém, ao olhar-se no espelho, o desespero a abateu.
Por algum motivo, ao olhar seu reflexo ela se lembrou de Sasuke.
Talvez por ter passado parte de sua infância imaginando que um dia casaria com ele, talvez por algum outro motivo.
Aquilo era real? Ela iria mesmo se casar com um homem que mal conhecia?
— Ficou tão linda quanto pensei.
Virou-se.
Raioko estava na porta do quarto. A roupa coberta pela capa de kage, embora Amegakure ainda não fosse reconhecida como uma das grandes vilas ninjas.
— Vamos.
Não foi um pedido nem uma pergunta. Ela o seguiu. Chovia pouco, mas um menino, alguns anos mais novo que ela, os esperava na porta da frente da casa com um enorme guarda chuvas na mão. Era grande o suficiente para cinco pessoas, mas foram apenas os três.
Eles desceram a rampa lamacenta, ela ergueu o vestido para não sujá-lo e andaram por entre a vila. Parecia que todos os habitantes da Vila da Chuva estavam para fora de suas casas hoje. A maioria deles com cabelos castanhos escuros, olhos amendoados e apesar daquela vila quase não ter a presença do sol, eles tinham a pele um tom mais escuro que o dela, como se passassem muito tempo ao relento.
Ela claramente não fazia parte daquele lugar e todos olhavam com exímio respeito para o Amekage, mas com desconfiança para ela.
Também não confio em vocês.
Ela quis dizer, depois de ver aqueles rostos tirando conclusões sobre ela, sem nem ao menos a conhecerem.
Eles passaram pelo corredor de pessoas, até chegarem a um lugar oval, com teto alto. Imaginou que ali eram feitas celebrações da vila. Ele deu a mão para ajudá-la a subir as escadas, e antes de abrirem a porta, ele disse:
— Vou me casar com a kunochi mais forte do mundo ninja.
Antes de se virar para ele, ela quis dizer que não era a mais forte, que as pessoas gostavam dela por ser pupila da Godaime, porém, desistiu ao virar-se para ele e olhá-lo nos olhos.
Não havia admiração ou afeto ali.
Havia apenas ambição.
As portas de madeira foram abertas. Era um corredor longo, mas sem cadeiras ou bancos na extremidade, não havia ninguém ali, apenas um senhor atrás de uma mesa que ela imaginou ser o juiz ou cerimonialista.
Andaram até eles. As portas continuaram abertas para que os habitantes pudessem se espremer atrás delas e enxergarem alguma coisa, mas não foram convidados a entrar, embora o espaço fosse grande o bastante.
Como imaginou, assim que chegaram a mesa, o senhor a mostrou os contratos assinados, tanto por Naruto (ela conferiu a assinatura) como por Raioko. Havia também uma carta de punho, do Nanadaime endereçada a ela, dizendo que estava tudo certo.
Era uma carta política, sem sentimentalismos, e aquilo a trouxe uma sensação de solidão.
Depois de conferir tudo (Raioko parecia sem paciência ao seu lado), finalmente concordou em continuar. Entrou então outro senhor, com vestes de monge.
Houve uma cerimônia religiosa, não que ela achasse que aquele homem ao seu lado fosse religioso, mas eles foram ungidos pelos deuses e prometeram estar juntos até a morte. Dizer aquilo em voz alta fez seu coração bater acelerado e seu estômago revirar inquieto.
Depois o juiz entrou novamente. Eles assinaram os papéis, ela agora assinando como Ichiro Haruno Sakura.
Engoliu em seco.
Estava feito.
Ele não a tocou, nem a beijou. Apenas pegou sua mão e a encaminhou até a saída. Lá fora os habitantes de Amegakure continuavam ao relento, mesmo já sendo à noite e a chuva tendo engrossado.
— Eu os apresento nossa mais nova aliança com Konohagakure, sua mais nova senhora e minha esposa, Ichiro Sakura.
Ninguém pareceu incomodado como ela ao ouvir a palavra aliança sendo dada a um casamento. Aquilo parecia natural ali.
Um a um, mesmo no espaço apertado das ruas de Amegakure, os moradores começaram a abaixar-se diante dela e do kage. Todos em uma reverência que deveria a emocionar.
Mas não sentiu nada.
Naquele gesto, excluindo um ou outro, não havia respeito por ela.
Apenas obrigação.
Eles não eram tão diferentes, afinal. A obrigação parecia reger essa vila.
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