Entre Sombras
23 CAPÍTULO 23: O tempo nos reconstrói
Notas iniciais
Entre Sombras
Escrita por Coffee
CAPÍTULO 23: O tempo nos reconstrói
O Tsuchikage estava furioso.
— O que foi aquilo? O que diabos você estava pensando? Podia ter acabado com tudo de uma vez! É bom você manter essa sua boca estúpida calada ou—
Ele olhou para ela com ódio, tanto pela intromissão, quanto por ter ouvido o que ele estava falando com Raioko.
— O que diabos está fazendo aqui?
— Eu quero falar com o meu marido.
A palavra saiu ainda mais sarcástica do que ela esperava, e ela nem ao menos conseguiu sorrir.
— Ora! Isso nem é permitido!
— Então por que o senhor está aqui?
— Petulante! Precisa de alguém que a coloque no seu lugar, já que Raioko não deu conta.
— Desculpa, senhor, mas acho que quem precisa se colocar no seu lugar é o senhor.
— Como ousa! Eu sou o líder de uma grande vila, e você é apenas uma vad—
— Acho que o senhor quer dizer que eu sou apenas uma grande shinobi, grande médica e uma heroína de guerra. E que embora eu não seja kage, tenho mais capacidade, honestidade e caráter do que o senhor. Afinal, porque está tão preocupado com a condenação de Raioko? E quem será que o ajudou a se livrar de uma das algemas de chakra?
Ele estava vermelho de ódio.
— Você! Como ousa—
— Tsuchikage — Era o funcionário do tribunal — O seu tempo acabou, peço que o senhor se retire, por favor.
— Isso não vai ficar assim! Essa sua petulância não vai passar impune. Vai engolir todas as palavras que me disse e—
— Aguardarei ansiosa.
Isso o irritou ainda mais, e ele passou pela porta resmungando palavrões.
Finalmente olhou para Raioko.
Estava com dois pares de algemas em cada pulso e duas em cada tornozelo. Parecia um pouco pálido demais, embora ela não soubesse se era devido a ausência de chakra ou a alguma conversa que tivera anteriormente com o líder da Vila Oculta da Pedra.
— O que está fazendo aqui?
Ele a olhou como se visse um inseto.
— Apenas queria te ver antes que fosse levado para a prisão.
No subterrâneo do País do Ferro, um local impossível de sair, ao menos, não vivo.
— Isso tudo é culpa sua! Maldita hora em que—
— Não, isso não é culpa minha, é culpa sua. Culpa da sua arrogância, da sua ganância, do seu ódio e da sua maldade.
— Você ainda vai ter o que merece.
— Vou mesmo. Eu vou ter o que eu mereço. Vou continuar livre, nas minhas missões, no meu hospital, com os meus pacientes, meus amigos, meus companheiros de time. Eu vou ter o que eu mereço, liberdade. E você também vai ter o que você merece.
— Não é disso que eu estou falando! Você vai ser punida! Você nunca vai ser feliz! Você vai carregar as marcas da sua vida comigo para sempre! Olha seu pescoço—
— As marcas do meu pescoço vão sumir, assim como todas as outras. Você não tem mais o poder de me subordinar, nunca teve, na verdade. Me subordinou apenas fisicamente, mas não minha mente. Agora, você não vai subordinar mais ninguém, e os moradores de Amegakure vão ter o valor, a felicidade e a liberdade que merecem, uma vida digna.
— Há-há! Aquela vila vai falir sem a minha administração, vão todos para o buraco, para o inferno!
— Se acreditar nisso vai fazer o resto dos seus dias passarem mais depressa, continue. Mas no fundo você sabe que não é isso que vai acontecer. Amegakure vai se reerguer, a vila tem muitas pessoas boas, integras, que só estavam paralisadas e intoxicadas com o seu veneno.
— Vão todos morrer, vão todos—
— Para o inferno? Você já disse isso. Sabe, apesar de tudo, eu tenho dó de você.
— Não quero a sua pena, enfie ela no—
— Mas você a tem. Tenho dó dessa sua vida miserável, não só da parte que vai começar agora, mas de toda ela. Deve ser horrível viver dessa forma, cheio de rancor, de ódio, de egoísmo. Deve ser horrível não ter nada mais a fazer da vida a não ser desejar e fazer mal aos outros.
— Minha vida é—
— Senhora Ichigo?
— Haruno.
— Desculpe, senhorita Haruno, seu tempo acabou, o réu tem que ser levado para a prisão.
— Já estou de saída.
O funcionário acenou positivamente e fechou novamente a porta atrás deles, os dando mais alguns segundos de privacidade.
— Sua vida inteira foi vazia Raioko. Tudo o que você fez, em busca de poder, em busca de reconhecimento, não resultou em nada. Por enquanto, você ainda vai ser lembrado como um homem egoísta e ganancioso, que quebrou a cara. Mas daqui a um, dois meses, você vai ser esquecido. Ninguém mais vai lembrar da sua existência. Ninguém mais vai seguir os seus passos, ou admirar você. Foi tudo em vão. Você viveu uma vida vazia, e vai terminar ela assim. A única pessoa que vai lembrar da sua existência é você próprio, e, se tiver sorte, o funcionário que lhe levar comida na prisão.
Ela olhou para ele uma última vez, nos olhos, e depois o deu as costas, ignorando os xingamentos que eram proferidos para ela.
Não disse adeus, nem tripudiou da sua condenação, nem cantou sua vitória. Apenas deu as costas, e bateu na porta duas vezes para que o funcionário a abrisse.
Lá fora, somente Sasuke continuava no tribunal, encostado na mesa de julgamento.
— Tudo bem.
Foi tudo o que ela conseguiu dizer quando ele olhou para ela, a voz saiu trêmula e fraca, e ela andou até ele sentindo a visão se embaraçar pelas lágrimas.
Estava exausta.
Cansada daquela situação, da angústia, da ansiedade, do medo e do ódio.
Queria poder esquecer tudo aquilo, mas sabia que não seria tão fácil quanto tinha dito para Raioko, pelo menos, não para ela. É claro que ia superar em algum momento, mas naquele, estava simplesmente exausta dos últimos dias, dos últimos meses.
— Acabou.
Sasuke disse, também se aproximando dela. O funcionário tinha saído dali, provavelmente indo levar Raioko para a prisão, e eles ficaram a sós.
— Eu sei.
Ela apoiou o peso do seu corpo no dele, não era exatamente um abraço, apenas um apoio físico para que ela não desmoronasse.
— Apesar de tudo, eu tive medo Sasuke, tive medo e...
Não conseguiu colocar tudo em palavras. O Uchiha passou uma das mãos confortavelmente nas suas costas e acariciou seu cabelo com a outra.
— Eu também.
Ela deu dois passos para trás, inconformada com Sasuke ter admitido uma fraqueza dessa forma. Mas um relacionamento era isso afinal, não? Demonstrar e falar em voz alta suas inseguranças, suas dúvidas e suas fraquezas.
— Eu... Enquanto você estava lá dentro, eu estava pensando o quão perto eu estive de me tornar um homem como ele.
— Sasuke, não diga isso. Você nunca seria como ele. Você tem caráter, tem—
— Você não faz ideia dos pecados que eu já cometi na vida, Sakura.
Ele tinha uma expressão tão desoladora que seu coração se partiu com a ideia da dor que ele deveria estar sentindo.
— Você estava doente Sasuke, não estava pensando com clareza. Você nunca seria um homem com ele, que não enxerga consequências, nem a dor dos outros, que vive de ódio.
— Eu vivi assim por muito tempo Sakura.
— Não se martirize com isso. Você se curou, pagou pelos seus erros, reconstruiu sua vida, não fique remoendo o passado.
— Sua visão de mim é muito gentil.
Balançou a cabeça em discordância e aproximou-se novamente dele.
— Não deixe que Raioko traga fantasmas do seu passado de volta. Eu sei que você nunca seria como ele. Nunca. Você estava apenas doente, e em algum momento, como aconteceu, cairia em si.
Sasuke piscou em dúvida, ainda com o rosto atormentado.
— Vamos para o hotel, esse lugar me dá arrepios.
Ela soltou as mãos dele, que segurava em reconforto e começou a caminhar rumo a saída.
— Eu tive medo de te perder.
Olhou para trás.
— Mas o julgamento ocorreu bem e—
— Não só agora. Enquanto eu estava... Preso naquela loucura que era a minha mente naquela época. Todas as vezes que eu te ataquei e... — Ele não conseguiu continuar imediatamente — Uma parte de mim estava cega pelo ódio, e a outra gritava em desespero e horror pelas coisas que eu estava fazendo, com a possibilidade de te perder.
— Está tudo bem Sasuke, eu te perdoo.
— Eu não acho que eu mereça.
— Nós já conversamos sobre isso. Por favor, tire isso da sua mente. Sei que não é fácil, mas você precisa seguir em frente, não pode passar o resto da vida remoendo os erros do seu passado. Você precisa se lembrar deles sim, para que nunca mais cometa-os de novo, mas não pode deixar que eles determinem o modo como você vai viver agora.
Ele acenou positivamente, sem dizer mais nenhuma palavra, e eles voltaram para o hotel lado a lado, em silêncio. Ao chegarem lá, Naruto, Shikamaru e Tsunade os esperavam na recepção, e todos eles lhe deram um abraço caloroso e aliviado. Sasuke permanecia alguns passos atrás, com a mão nos bolsos e perdido em pensamentos, e isso a angustiava, mas ela sabia que essa era uma luta que só ele poderia vencer, sozinho, contra a sua própria consciência. Devia ser difícil para ele, ver através de Raioko uma situação que ele quase viveu, embora ela tivesse fé que isso jamais aconteceria com ele.
Jantaram juntos no restaurante do hotel, Naruto falando sem parar, e Tsunade bebendo mais sakê do que o recomendável. Ela queria falar com o Fuji, mas soube por Shikamaru que ela soube do resultado do julgamento e foi dormir em seguida. Talvez amanhã.
Ao terminarem a refeição, cada um foi para o seu quarto, Naruto e Shikamaru partiriam na madrugada do dia seguinte, e Tsunade ainda não tinha dito para onde iria. Ela e Sasuke foram para o quarto dele, ele parecia com o humor melhor e mais leve do que durante a tarde e a conversa que tiveram, mas ela sabia que viver com os próprios pecados não era uma tarefa fácil para ele.
Eles entraram no quarto, finalmente a sós e escondidos de olhares curiosos, e ele andou até ela, tocando seus lábios com a ponta dos dedos, e afastando seus cabelos do pescoço, beijando o local em seguida.
— Você... Você quer ir para Oto?
Comigo.
Era a palavra não dita. Ele parecia inseguro em ter feito a pergunta. Um convite. Um que ela havia esperar por muitos e muitos anos.
— Não.
Ele pareceu surpreso e envergonhado, feito uma criança pega pelos pais fazendo algo de errado.
— Bom, Naruto vai partir de madrugada então e—
— Eu também não vou para Konoha.
O Uchiha olhou-a sem entender, suspendendo as carícias e encarando seus olhos.
— Eu... Você e Naruto já viajaram bastante, tiveram experiências diferentes e... Acho que agora é a minha vez. Eu... Eu vou para Amegakure, ajudar na reconstrução.
— Pensei que você nunca mais fosse querer voltar para aquele lugar.
— Eu também, mas estive pensando e... Acho que eu posso ser de grande utilidade por lá, por enquanto, posso treinar alguns ninjas médicos, posso ajudar na reconstrução, e, quando tudo estiver estabilizado e eles tiverem um novo líder, eu estarei pronta para partir novamente.
Ela pensou que ele fosse retrucar, mas ele apenas acenou positivamente.
— O que você acha?
Perguntou, em dúvida.
— Acho que eles têm muita sorte.
Ela sorriu, aproximando os lábios do dele. Não disse para onde ela voltaria após a reconstrução de Amegakure, e ele também não perguntou, respeitando a sua decisão. Não prometeu datas, nem cartas, nem pediu que ele a esperasse.
Era o suficiente viver aquele momento.
♣
Na manhã seguinte, ela se despediu de Naruto e Shikamaru, e soube que Tsunade tinha decidido lhe acompanhar, assim como Shizune.
— Acho que aquela vila vai precisar de muita ajuda, e se você acha que vale a pena, eu confio na sua decisão. Vou ajudar também.
Ela agradeceu o voto de confiança das duas, e, antes de partir, foi até o quarto de Fuji.
— Estou feliz por tudo ter acabado, menina.
— Eu também, Fuji-san, eu também.
As duas conversaram brevemente sobre o julgamento e sobre a condenação de Raioko, e depois ela contou a mais velha o que tinha planejado.
— Eu estou voltando para Amegakure, por um curto período, provavelmente, mas quero ajudar na reconstrução da vila. Estou indo pela Aliança Shinobi, acho que tem muito que posso fazer por lá, agora sem Raioko e os seus subordinados. Você gostaria de ir também?
Fuji pareceu surpresa com a sua decisão, e acenou negativamente com a cabeça.
— Não... Eu... Eu não tenho mais vontade de voltar para lá, sei que é uma vila com muita gente boa, honesta, e que merece a felicidade e a liberdade, mas... Aquele lugar me traz muitas lembranças ruins, e não sinto que eu pertença mais aquele lugar.
Acenou, entendendo a decisão dela.
— Eu entendo, mas... Para onde você vai?
— O garoto Uchiha, o Otokage disse que poderia permanecer na vila o tempo que quisesse, acho que vou voltar com eles para lá. Gostei do lugar no pouco tempo em que estive nele.
— É uma ótima vila Fuji-san, tenho certeza de que vai ser muito respeitada lá.
Elas se despediram com um abraço apertado, e ela foi se despedir da última pessoa que faltava.
Sasuke.
Ele estava no quarto, na mesma posição em que tinha o deixado mais cedo, com a mão nos bolsos, olhando pela janela. Ele partiria para Oto em menos de uma hora, e a única mochila de viagem dele já estava devidamente arrumada sobre a cama.
— Eu... Estou indo, Tsunade-sama e Shizune vão comigo.
Ele acenou positivamente, e se aproximou dela. A eletricidade entre eles ainda era visível, mesmo eles tendo passado a noite juntos. Seu coração acelerava e o sangue bombeava mais forte pelas suas artérias somente de tê-lo olhando para si.
— Eu... Queria agradecer o que fez ontem. Pelo pedido que protocolou para que as mulheres não recebam mais pena de morte. Tenho certeza que pelo pedido ter partido de um kage o processo vai andar bem mais rápido a partir de agora.
Outro aceno, e ele tocou seus cabelos.
— Eu... Vou sentir sua falta.
Disse a ele. Agora que o momento chegara, ela parecia paralisada, não sabia o que falar, nem como se despedir.
Ele deu um beijo em seus lábios, mais rápido do que ela gostaria, e depois um na sua testa. E, por fim, tocou o mesmo local, como já tinha feito outras três vezes.
Não disse mais nada, mas ela entendeu, como sempre.
Como na noite anterior, ela não fez promessas, nem ele. Apenas levou a mão ao local que ele tinha tocado recentemente, sorriu para ele, e partiu.
♣
Ela chegou em Amegakure quatro dias depois. Como sempre o céu estava nublado e a promessa de chuva era certa. Tsunade e Shizune estavam ao seu lado, e elas foram recebidas na entrada da vila por outros ninjas da Aliança Shinobi.
— Sejam bem-vindas. Recebemos a carta de que vocês iriam se juntar a nós, tenho certeza de que vão ser de grande ajuda.
— É claro que vamos, eu sou Tsunade, e eu já lutava e curava quando você ainda estava nas frald—
— Tsunade-sama! — Raiou com a mais velha, sorrindo sem graça para o shinobi que as recebia. Era um jovem de sorriso gentil, e parecia nervoso com a presença delas ali — Muito obrigada. Estamos aqui para ajudar no que precisarem.
O jovem pareceu relaxar um pouco com as palavras dela, e as levou vila adentro, explicando o que estava fazendo. Já havia alguns shinobis da aliança e moradores de Amegakure limpando as ruas principais, tirando os destroços da última rebelião, e todos pareciam animados com a possibilidade de mudanças.
Ela não resistiu e olhou para o fundo da vila, na colina, onde a casa de Raioko, e aquela que ela morou por meses estava. Tinha queimado quase completamente, mas a estrutura resistente ainda podia ser vista, embora estivesse negra de fuligem. Desviou o olhar, quando foram apresentadas a mais pessoas que estavam ajudando na reconstrução, e ela deu a ideia que vinha amadurecendo durante toda a viagem.
A construção de um hospital público, primeiramente algo improvisado para que pudessem atender todos que precisavam de ajuda, e posteriormente a construção de algo sólido e permanente.
Todos aceitaram a sua ideia, e os dias passaram em meio a chuva, fuligem, pó e ainda sim, muita dor.
Quando as tendas do hospital improvisado estavam instaladas, Tsunade, Shizune e ela começaram a atender os moradores da vila. Havia muitos casos de mutilação. Pessoas que perderam membros tanto trabalhando nas fábricas e no campo, quanto durante as rebeliões. Braços que haviam sido decepados por máquinas, por bombas e até mesmo por subordinados do ex-Amekage.
Elas trataram todos da melhor forma que conseguiram. Alguns estavam infeccionados pela falta de cuidados, mas elas conseguiram salvar a grande maioria das pessoas, embora dois não tivessem resistido, devido a tratamentos caseiros incorretos durante tantas semanas, até que a ajuda viesse.
Além disso, a população pediátrica sofria de muitas moléstias como vermes, devido a ingestão de água e alimentos de origem duvidosa e sem a higiene necessária, e com doenças causadas por vírus e bactérias. Elas realizaram triagens dos casos mais graves, tratando esses primeiro, e incumbiram os shinobis da própria vila que a as acompanhavam no treinamento para se tornarem médicos a conscientizar a população sobre a necessidade de novos hábitos de higiene e de ir constantemente ao hospital realizar exames gerais.
Aos poucos, a aparência de Amegakure e dos seus moradores foi se modificando. As ruas agora estavam limpas, livres de todas as lembranças das lutas de antigamente, a grande maioria das casas tinham sido reconstruídas e a antiga casa de Raioko estava sendo transformada na sede permanente do hospital.
Os cidadãos pareciam mais alegres agora, relaxados, livres. Sempre a cumprimentavam com um bom dia ou um boa noite, agradeciam pela sua ajuda e alguns até pediam desculpas pelo modo como a trataram no passado, o que ela respondia com um sorriso gentil.
Nunca havia sido culpa deles. O que esperar de um cachorro que apanha todo dia, afinal? Eles estavam apenas defendendo seu território e mordendo quem quer que parecesse uma ameaça. Agora, livres do dono, podendo reger a vila como eles achavam que é certo, eles viviam mais felizes.
Nem tudo era perfeito. Às vezes uma casa que tinha acabado de ser refeita desmoronava. Ou alguns moradores que ainda apoiavam Raioko arranjavam brigas nos subúrbios, mas nenhuma vila era perfeita, e aquela que estava se livrando agora de tanta dor não seria diferente.
Ela e Sasuke trocaram algumas cartas enquanto ela estava ali. Não era nada muito pessoal, ela apenas contava a ele como estavam as coisas ali, e ele lhe dava notícias sobre Oto. Não era algo meloso, nem romântico, mas ela sabia que era a forma deles de saber se o outro estava bem.
Quatro meses depois da sua chegada ali Naruto veio visitar a vila. Passou uma semana e meia também ajudando na reconstrução, e os moradores ficaram encantados ao ver o grande Hokage de Konohagakure suando ao carregar pedras junto com eles, e ainda dando discursos motivadores. Quando ele partiu, os cidadãos pareciam ainda mais dispostos a trabalhar na reconstrução da vila e fazer dela um lugar digno.
— Você vai se candidatar?
Tsunade a perguntou de repente, em um dia que estavam a sós em uma sala do hospital. O dia estava relativamente claro para Amegakure, e o sol ameaçava despontar por entre as nuvens. Elas já tinham atendido todos os pacientes da parte da manhã, e agora fazia um pequeno horário de almoço antes dos atendimentos da tarde.
— Como?
— Estão abrindo as inscrições para o cargo de Kage. Você vai ser candidatar?
— É claro que não.
— Acho que deveria, você daria uma ótima líder e os moradores daqui admiram muito você. Tem grandes chances de ganhar.
Ela acenou negativamente.
— Eu vim para cá ajudar na reconstrução porque achei que seria de grande utilidade. Não parecia certo deixar essas pessoas jogadas aqui, sem auxílio médico depois de tudo o que aconteceu, sendo que grande parte foi desencadeada por mim. Eu sentia que devia isso a eles, a vila, e principalmente a mim.
— A você?
— Sim, quando sai daqui pela última vez, pensei que nunca mais fosse querer voltar, mas depois, pensando com calma, eu percebi que precisava enfrentar esse medo, precisava deixar o passado para trás e mostrar para mim mesma que o futuro poderia ser diferente, poderia ser melhor.
— E se você liderar essa vila ele realmente pode ser.
— Aqui não é o meu lugar, Tsunade-sama. É uma boa vila, tenho certeza de que vai ter um potencial incrível assim que a reconstrução acabar, mas não é o meu lugar.
— E qual é o seu lugar? Konoha ou Oto?
Ela acenou negativamente com a cabeça e deu os ombros, não sabia a resposta. Às vezes, antes de dormir, passava bastante tempo pensando sobre. Konoha havia sido o seu lar a vida inteira, e ela admitia que a ideia de sair de lá definitivamente a deixava angustiada. Conhecia cada cantinho daquela vila, cada rua, cada casa, cada corredor do hospital. Conhecia os moradores, e tinha o respeito deles. Mas... Ao mesmo tempo sabia que podia amar Oto, e lá havia uma parte sua que não estava em Konoha e em nenhum outro lugar.
Sasuke.
Quando ela saiu dos seus devaneios, ainda sem ter uma resposta concreta, Tsunade já não estava mais na sala, e ela ainda permaneceu ali dois ou três minutos com os seus pensamentos, antes de voltar a atender.
Mas o pensamento não saiu da sua mente o resto da tarde e nem a noite, quando se deitou para dormir.
Havia um futuro para ela e Sasuke? Eles conseguiriam equilibrar seus desejos pessoais, seus anseios e encontrar um denominador comum?
Ela se revirou no colchão de solteiro sem conseguir dormir por horas, pensando no assunto. Ela o amava, sabia que seria capaz de deixar Konoha e mudar-se para Oto para ficar com ele, mas a pergunta era: seria aquela a escolha certa?
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