Entre Princesas E Lobos
6 Capítulo 6
Notas iniciais
Estávamos mortos.
Um rosnado feroz surgiu, dessa vez de trás do urso. E depois vários outros rosnados e latidos o acompanharam.
O urso parou, cercado por lobos.
Quatro deles tentando abocanhar seu pescoço, ao mesmo tempo em que se esquivavam de seus dentes e garras. Mais dois lobos surgiram, mordendo suas patas traseiras, fazendo-o saltar e virar, incerto de qual ameaça enfrentar primeiro.
Fiquei imóvel por um momento, até que Sam me incitou a andar e me afastar da luta, procurando uma posição segura. Ele continuou na minha frente, espada na mão, pronto para me proteger de qualquer ameaça que pudesse surgir.
Um dos lobos saltou para frente, pegando o urso no pescoço. Sangue vermelho brilhante jorrou, manchando o pelo branco do urso e a boca do lobo.
O urso elevou-se nas patas traseiras novamente, balançando a cabeça, tentando livrar-se do lobo. Ele conseguiu se soltar, e correu para longe, fugindo da luta.
Os lobos pararam de rosnar, reconhecendo a vitória. Eles se reagruparam, aquele com a boca ensanguentada na frente. Eles olharam para Sam e eu.
"Merda." praguejei. "Qual o plano?"
"Matar tantos quanto possível, e esperar que o resto fuja."
Engoli em seco, sabendo que acabaríamos mortos.
"Eu não mataria nem um, se eu fosse você". A voz veio do nada, me virei, tentando encontrar sua dona.
A elfa loira, tradutora de lobos, estava parada ali. Sorrindo para mim. Ela caminhou até os lobos e parou, ajoelhando-se na frente do que tinha a boca ensanguentada.
“Você está bem Santy?” ela perguntou ao lobo.
Ele respondeu com um latido divertido.
A elfa, Brittany, acho, levantou-se e acariciou seu pescoço peludo.
"Eu já lhe disse.” Ela agora se dirigia a mim. “Eles não vão te machucar."
Sam baixou sua espada, e nos aproximamos do grupo.
"Ela disse para não ajudar vocês." Falou a elfa. "Mas Ela também não teria gostado se o urso comesse vocês.” Ela sorriu para Sam e eu, depois ficou com uma expressão preocupada. “Será que Ela vai ficar chateada? O que você acha?" Perguntou ao lobo.
Ele farejou suas roupas, limpando o focinho nas vestes da loira. Depois rosnou, e Brittany acenou com a cabeça. "Tudo bem. Eu vou dizer a eles."
Ela se virou, olhando para mim.
"Venham com a gente." disse a elfa. "A Filha da Lua está esperando por vocês."
* * *
Caminhamos em um grupo estranho. Uma elfa, seis lobos, um aventureiro e uma princesa.
Olhei para a elfa ao meu lado, andando silenciosamente através da neve. Já que estaríamos juntas por um tempo, eu poderia pelo menos matar uma curiosidade.
"Como você consegue falar com lobos?"
"Elfos podem se comunicar com animais e plantas.” Ela deu de ombros, como se não fosse nada de especial.
Fiquei surpresa. “Eu não sabia disso.”
Ela era uma faladora. Conversou comigo alegremente sobre tudo, seus amigos lobos, suas amigas plantas, e o fascínio que ela tem por patos. Contei a Brittany que próximo ao palácio havia um lago cheio deles, e prometi levá-la um dia para conhecer o local. Ela me abraçou animadamente. Nossa conversa fez a caminhada parecer mais rápida, e em pouco tempo o palácio de gelo estava à vista.
Era bonito, alto. As torres de gelo pareciam ser feitas de cristal, elas capturavam e ampliavam a luz do sol, era quase cegante olhá-las diretamente. Mas quando você forçava seus olhos, via que o castelo era pura arte. Fiquei espantada que algo tão belo pudesse ser construído por trolls.
"Chegamos." Disse a elfa. "Os visitantes devem passar pelos portões da frente."
Então, como na floresta, ela levantou a mão em despedida e se foi. Os lobos a seguiram.
Deixamos nossas coisas nos degraus do Palácio de Gelo.
"Não é muito bom para uma fuga rápida." disse Sam, franzindo a testa.
"Não." Eu respondi olhando para o gelo, apertando os olhos contra o brilho refletido. "Mas, se algo der errado, eu duvido que nós sejamos capazes de fugir dos lobos."
* * *
O hall de entrada era pouco decorado. Algumas tapeçarias congeladas revestiam as paredes.
"Olá?" Chamei. Minha voz ecoou por toda a sala, arrastando-se pelas paredes ocas. Este lugar tinha uma leve aparência de abandono. "Talvez eles tenham se enganado, e ela não esteja aqui."
Comecei a andar pelo castelo, explorando algumas salas.
"Talvez não." Houve um barulho atrás de mim, e depois o metal afiado frio pressionado contra a minha garganta. "Talvez outras coisas se escondam no escuro."
A respiração no meu ouvido era fétida, irregular, e os dedos frios que deslizaram em meu rosto não pareciam humanos. Eu podia sentir, atrás de mim, a forma sólida do meu agressor. As peças lentamente se encaixando enquanto eu assistia os olhos arregalados de Sam.
"Você é a princesa troll." Aquela com o nariz de três metros de comprimento. "A filha do rei que construiu este lugar?"
A mão em meu pescoço aumentou a força do aperto, e ela sussurrou em uma respiração surpresa:
"Você veio atrás de mim? Como é doce. Demonstre o seu valor matando um troll." Sua voz estava cheia de aversão e zombaria. "Quão tradicional. Quão nobre". Ela fez uma pausa, e eu podia sentir seu desprezo crescendo. "Quão estúpido."
A lâmina correu em meu pescoço, só arranhando a pele. Sam moveu-se para frente, e eu me esforcei para falar.
"Não.” Suspirei. "Estamos aqui para a Filha da Lua."
"A metamorfo?" A pressão da lâmina diminuiu ligeiramente, afastando-se da minha pele. Eu podia sentir a adrenalina aumentar o fluxo de sangue no local.
"Sim." disse Sam, a voz suave e reconfortante. "Estamos aqui para a metamorfo."
"Aquela vadia expulsou minha família, roubou meu palácio, roubou minha comida, roubou minhas coisas bonitas." A troll soltou um tipo de soluço estrangulado, grossas lágrimas escorrendo do seu rosto para o meu cabelo. "Todas as minhas lindas coisas bonitas."
Ela me deixou ir, me empurrando para frente. Eu tropecei no chão de gelo, e quase perdi o equilíbrio. Meu primo me pegou e me virou de frente para a troll.
"Nós dois." Eu disse. "Vamos nos livrar dela para você." Era uma promessa que eu não poderia cumprir, mas trolls não eram conhecidos por sua inteligência.
"Se eu concordar em não comer vocês," Falou a troll. "Vocês precisam me dar algo em troca, além da cabeça da vadia."
Sam e eu trocamos um olhar, então me lembrei da folha de metal que peguei e dei para Sam guardar em seu bolso durante a viagem. Ele pareceu ter a mesma ideia
"Para você." Ele disse, entregando a folha para ela. "É isto bonito o suficiente?”
A troll analisou por um momento.
"Bonito o suficiente, por enquanto." Ela acenou com a mão na direção da parede. "Sigam pela porta, se Ela quiser, irá encontrá-los."
Uma vez que atravessamos as portas, o clima era mais quente. Corredores e escadas levavam para todas as direções. Sam e eu ficamos confusos, sem saber por onde seguir.
"Para onde agora, princesa?"
Eu estava a ponto de dizer que não tinha a menor ideia, quando me lembrei das palavras da troll, Ela vai nos encontrar. Presumivelmente, qualquer direção era o caminho certo.
Um corredor à nossa direita chamou minha atenção, seguimos por ele. Era mais longo do que eu havia pensado, chegamos até os pés de uma escada. Subimos degraus sem fim, até que chegamos a um novo corredor, no final deste, havia dois guardas parados na frente de uma porta.
"Olha só," Sam sussurrou. "Você realmente nos trouxe para o lugar certo. Estou quase orgulhoso."
Rolei os olhos para a provocação. Caminhamos em direção à porta. O guarda não se moveu. Era um rapaz moreno, vestia apenas calças de couro marrom e sandálias de tiras de couro, seu peito estava descoberto. Ele era forte, mas com um penteado estranho. Apenas uma faixa de cabelo cobria o topo de sua cabeça, fora isso, ele lembrava bastante minha garota do bar. O lobo sentado calmamente a seus pés, também não se mexeu. Seus olhos assistiram nossa aproximação, desinteressadamente.
“Espera!” Sam exclamou parando ao meu lado. “Eu conheço você. Puckerman! Sou eu, cara. Sam Evans II. Paguei-te umas bebidas naquele prostibulo em Albuquerque.”
O guerreiro não fez qualquer sinal de que tivesse ouvido ou reconhecido Sam. Aparentemente, ele estava no “modo de trabalho”.
"Abra a porta." Ordenei, como costumava fazer com os servos em meu castelo.
Esperei, olhando para o guarda com indiferença entediada.
Mas ele continuou impassível. Depois de um tempo, percebi que ele não tinha intenção de obedecer.
"Eu mandei abrir a porta."
Ainda assim, ele não se moveu. Então marchei para frente, colocando a mão na maçaneta. Esperei que ele esboçasse alguma reação, mas ele me deixou passar.
Entrei na sala, Sam atrás de mim. Era bem iluminada. O gelo ali era tão fino que a sala parecia feita de vidro fosco. Devia haver algum tipo de magia no ar, para o ambiente ser tão bem aquecido.
Brittany estava sentada em uma poltrona, ao lado dela uma garota de pele bronzeada, exótica. E havia outra mulher sentada na frente das duas.
Bem, pelo menos eu achava que era uma mulher. Tudo o que eu podia ver eram suas pernas.
Pernas longas e bem torneadas.
De repente, eu estava nervosa em conhecer a Filha da Lua, de uma maneira inteiramente nova. Antes, tudo o que eu tinha para me preocupar era uma morte violenta por ataques de lobos. Agora, eu tinha que lidar com uma atração inexplicável por uma possível inimiga do meu reino.
A figura na cadeira levantou-se. Ficando em pé, de frente para mim. Ela estava vestida como a garota de aparência exótica. Muita pele a mostra. Apenas um top de couro marrom. Saia também de couro marrom, com aberturas laterais para facilitar os movimentos, o comprimento ia até o meio das coxas. Por baixo da saia, quando ela se levantou pude ver que havia um short. E seus pés estavam calçados por sandálias de tiras, feitas de couro. Não pareciam roupas adequadas para viver no frio.
"Bem, princesa." disse ela. "Se eu soubesse que teria esse efeito em você, eu teria me vestido assim antes."
Arranquei meus olhos das suas roupas, e realmente olhei para o rosto da mulher que estive procurando por todo esse tempo.
O rosto sorridente, de fato, era o da minha garota do bar.
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