Notas iniciais
Divirtam-se!

Eu senti raiva. Mas era uma raiva silenciosa, distante, como se houvesse uma camada de gelo ao redor do meu coração, impedindo-me de sentir todas as coisas na intensidade que eu deveria estar sentindo.

"Por que você não me disse quem você é?" Minha voz soou mais amarga do que eu pretendia.

"Se eu tivesse me revelado logo no início, o que você teria feito? Pediria educadamente para me apresentar à rainha? E depois que eu recusasse, me prenderia e jogaria nas masmorras?" Ela suspirou dramaticamente, como se já estivesse cansada de ter aquela conversa. "Não fui até lá para falar com a realeza, Quinn. Nossa presença deveria ser discreta.”

Fiquei confusa, completamente. Suas palavras não exatamente as que eu esperava. Nada do que ela disse fazia sentido.

“Se esse era o plano, por que você mandou aquele lobo até mim, na floresta?”

Assisti enquanto um lampejo de raiva brilhou em seus olhos, suas mãos apetaram-se em punhos tensos ao lado de seu corpo.

“Por que você não pergunta diretamente a ela?” a Filha da Lua falou, sentando-se novamente na cadeira onde estava quando cheguei. Seus movimentos deliberadamente lentos e distantes, enquanto sua expressão tornava-se neutra, fria, quase glacial. “Santana?”

A garota de pele exótica levantou-se, ficando ao lado da Filha da Lua, como um soldado convocado por seu comandante.

“Conte a ela.”

Santana bateu o punho contra o peito uma vez, parecia um sinal de respeito e obediência.

“Foi um erro.” Seu tom de voz lembrava o de uma criança petulante obedecendo às ordens de seus pais, a zombaria sutil mesmo na posição formal. “Eu havia acabado de cumprir uma missão na floresta. Brittany estava comigo.” Ela lançou um olhar em direção a elfa, e pude ver todo o amor que havia naquela rápida troca de olhares. “Ela tentava escovar meus dentes, porque, segundo ela, eu tenho um hálito horrível quando estou na forma de lobo.”

Brittany concordou, mantendo, pela primeira vez, uma expressão séria. E eu tive que fazer o mesmo, ainda me lembrava daquele bafo fétido no meu rosto. A explicação de Santana finalmente me respondendo o que era aquela espuma no canto da boca do lobo, senti certo alivio ao descobrir não se tratar de um caso de raiva.

“Tentei escapar dela, meu lobo não gosta do sabor da pasta, corri um pouco e cheguei a uma trilha onde senti o teu cheiro.” Ela olhou para Filha da Lua, incerta sobre como continuar. “Você cheirava como ela.”

Esperei por mais palavras, no entanto, nada mais veio. Brittany deslocou-se na poltrona, inquieta, trocando um longo olhar com Santana. Alguma coisa estava errada. Eu sabia que não estava ouvindo toda a verdade.

Mordi meu lábio inferior, nervosamente. E mantive meus olhos firmemente fixos em Santana.

“Tudo bem, mas o que isso significa?”

Ela abriu a boca para responder, porém, mais uma vez, me foi negada a chance de uma resposta direta.

“Isto,” a Filha da Lua interrompeu, se levantando “Eu mesma explicarei para você, em outro momento.”

Eu estava prestes a argumentar, mas ela ergueu a mão, impedindo qualquer protesto.

“Por hora, temos assuntos mais urgentes a tratar, como o espectro que atacou sua mãe.”

Suspiros tensos explodiram por toda a sala. Aquilo definitivamente ganhou minha atenção, a floresta, por enquanto, esquecida.

“O que você sabe sobre isso?”

Um rosnado baixo atravessou a sala antes que ela pudesse me responder.

Dessa vez a interrupção veio do estômago do meu primo, que escolheu este momento para participar da conversa.

Sam olhou para baixo, arrastando as botas no chão, envergonhado.

“Desculpem.”

Mas a Filha da Lua riu abertamente. “Deixe-me responder suas perguntas enquanto comemos alguma coisa.”

Meu primo pareceu agradecido, eu também estava com fome, então concordei sem protestos.

Ela veio até mim e ofereceu sua mão. Aceitei timidamente. Nós caminhamos até uma das janelas, a vista que se formou perante mim era surreal.

Estávamos no alto de uma das torres de gelo do castelo, o que nos dava uma visão privilegiada. Ali, diante de nós, havia toda uma vila, que parecia estar dentro de uma daquelas cúpulas de globos de neve, só que, neste caso, a neve era mantida do lado de fora. Era mágico.

A vila era cercada por uma enorme e circular parede de gelo, dentro dela havia um rio que cortava todo o território, dividindo-o em duas partes. De um lado, havia algo parecido com um acampamento de guerra, tendas enormes montadas, cavalos, alguns guerreiros duelavam com espadas, outros atiravam flechas em alvos, havia ainda um grupo de lobos que pareciam treinar algum tipo de luta. Do outro lado, era um vilarejo normal, crianças corriam numa praça, mulheres lavavam roupas no rio, trabalhadores cuidavam de algumas plantações, havia um mercado e várias casas.

“Bem vinda ao meu lar, princesa!”

Eu estava maravilhada, mas havia uma pergunta que precisava ser respondida, agora.

“Qual o seu nome?” pedi, olhando diretamente em seus olhos.

“Rachel.” Ela respondeu depois de um momento. “O meu nome é Rachel.”

* * *

Cruzamos os portões que ficavam atrás do castelo. Assim que passamos pela barreira magica que cercava aquele lugar me senti ficando quente, o clima era tão aconchegante e acolhedor. Fomos levados para o lado civil da cidade, por assim dizer.

A Filha da Lua nos guiou até uma taberna. O lugar era extremamente limpo e organizado, isso me surpreendeu. Normalmente esse tipo de negocio não prioriza a higiene.

Uma ruiva nervosa, carregando um bloco de notas, veio nos atender.

“Boa noite, Emma.” Rachel a cumprimentou com um sorriso. “Como estão Will e as crianças?”

“Will está lá nos fundos, contando o estoque.” A ruiva, Emma, respondeu usando um pano para limpar a mesa que já estava brilhantemente limpa. “E as crianças estão ótimas, é incrível como elas crescem rápido. Elas estão com meus pais agora.”

Nossos pedidos foram anotados. E antes de trazer a comida, a ruiva trouxe varias canecas fumegantes de... alguma coisa.

Olhei para o liquido, desconfiada. Torci o nariz tentando cheirar o vapor.

"A especialidade local." Explicou Rachel.

Encorajada por ela, tentei tomar o primeiro gole, ao mesmo tempo em que sua mão deslizou por minha perna e parou no interior de minha coxa. Engoli rapidamente, asfixiando-me com o líquido escaldante queimando todo o caminho da minha garganta.

“Muito bom.” Consegui dizer, tentando impedir lágrimas de rolarem dos meus olhos. “Mas um pouco quente.”

A comida chegou. Tudo muito gostoso, meu pernil estava suculento e saboroso. Enquanto comíamos a conversa fluiu naturalmente, leve e descontraída.

Terminamos de comer, e eu precisava fazer as perguntas pelas quais fui enviada até aqui.

“Então, Rachel, o que você estava dizendo sobre o espectro?”

Ela suspirou, e descansou seu copo sobre a mesa.

“Direto ao ponto, hein princesa?” Rachel brincou, colocando as mãos atrás da cabeça e se recostando na cadeira. Mas vendo que eu continuava a encara-la, ela revirou os e então sua expressão tornou-se séria. “Tudo bem, vou dizer a vocês tudo que sei.”

Eu esperei, e ela começou:

“É preciso um grande poder para evocar um espectro. Grande e malévolo.” Sua voz era sombria. “Mas controlá-lo? Isso é ainda mais difícil. E só pode ser alcançado depois de um grande sacrifício.” Ela parou, deixando o sentido de suas palavras afundarem em nossas mentes.

Fiquei repetindo o que ela disse em minha cabeça, tentando entender a mensagem. Meus olhos se arregalaram quando alcancei o significado.

“Eu não entendo.” Sam tinha uma expressão confusa. “O que você quer dizer com ‘um grande sacrifício’?”

Acho que ele entendia muito bem. Mas sua consciência nobre lutava contra este conhecimento.

“Sua alma.” Rachel falou, calmamente. “Quem quer que tenha evocado o espectro, ofereceu sua alma em troca dos serviços. E pela forma que o espectro adotou, essa pessoa só pode ser um metamorfo lobo.”

Levantei-me da cadeira abruptamente, raspando-a de forma desagradável contra o chão.

“Um de vocês. Um de vocês tentou matar a minha mãe!”

Sam também se levantou, puxando sua espada para lidar com a ameaça.

Nós fomos atraídos para uma armadilha. Olhei ao redor e vários olhos amarelos de lobos olhavam para nós. Santana, sentada em nossa mesa, parecia vibrar, o ar tremia ao seu redor.

“Controle-se, Lopez.” Rachel disse a ela sem nunca tirar os olhos dos meus. Aqueles enormes olhos marrons, ela parecia tão machucada, tão ferida. Eu queria correr para ela, e beijar para longe aquela dor. Mas ela tentou matar minha mãe. Ela era o inimigo.

Rachel era o inimigo.

Notas finais
Creio que só poderei atualizar a fic uma vez por semana. Comecei um estágio agora que está me esgotando. Estagiário sofre, gente! Rachel é o inimigo? O que vocês acham?