Notas iniciais
Estou em semana de prova na faculdade, então, provavelmente, só postarei este capítulo. Espero que vocês gostem!

Durante o café da manhã no dia seguinte, dia da reunião do conselho que acontecia semestralmente, minha mãe estabeleceu algumas regras: Enquanto seus convidados estivessem aqui, estavam proibidas caçadas (perigoso e demorado), bebidas (alguns lordes gostavam demais) e, definitivamente, sob nenhuma circunstância, qualquer que fosse, romances com os servos.

"E já que estamos falando sobre este assunto, Quinn." ela disse "Acho que seu pai e eu temos sido muito tolerantes e pacientes com você. Nós até fechamos os olhos para o pequeno namoro com o menino dos estábulos.”

Nesse ponto eu era obrigada a concordar com minha mãe. Finn havia sido um erro terrível. Encantei-me por ele quando o vi domando os cavalos. Achava-o corajoso e valente. O que eu não sabia era que Finn é um completo idiota quando não está sentado em uma sela. Ele espalhou sobre o nosso primeiro (e único) beijo para todo o castelo. Meus pais o entregaram para servir em outro lugar, enquanto eu tive que ouvir o sermão mais longo da história do reino.

“Ela vai encontrar alguém digno, eu disse a mim mesma. Ela vai casar, ter filhos, uma família.” Pelo visto minha mãe continuou falando enquanto eu viajava em pensamentos. “Mas você não fez isso, e você está ficando mais velha...”

Os lacaios que serviam a mesa estavam indo devagar, tentando ouvir o máximo de fofocas possível.

"Oh Deus, mãe! Você realmente quer falar sobre isso agora?"

Eu estava absolutamente humilhada. Baixei a cabeça apoiando-a sobre mesa. O queixo da minha mãe endureceu.

"Diga a ela, Russel. Talvez ela ouça você."

"Querida, sua mãe está certa. Nós só queremos o que é melhor para você, e que você seja feliz, mas..."

"Há o reino a considerar, Quinn, e a sucessão. Sua irmã e Patrick tentam há anos ter um filho, sem sucesso.” Suas palavras caíram em silêncio mortal, ela sabia que havia ido longe demais.

Um brilho de dor passou rapidamente pelos olhos de Frannie, que estava na mesa e ouvia a tudo.

Encarei minha irmã esperando alguma reação, e quando ela nada disse, foi a gota d’agua para mim.

Levantei-me da cadeira raspando-a desagradavelmente contra o chão. A porta era muito pesada para batê-la de forma satisfatória e transmitir adequadamente a minha raiva, por isso nem me incomodei em fecha-la antes de sair.

Atrás de mim, ouvi meu pai suspirar.

"Isso não era necessário, Judy..."

* * *

A reunião do conselho não foi menos tensa do que o café da manhã. Fui chamada diante deles para contar minhas experiências com o lobo, a elfo e a garota estranha do bar. Senti-me como uma criança travessa em frente ao professor, à espera de ser punida.

Achei melhor deixar de fora a coisa toda do beijo. Há algumas coisas que seus pais e conselheiros realmente não precisam saber. Especialmente numa situação formal do tipo "devemos-ir-a-guerra?".

"E você não tem ideia de onde a elfa, ou a garota do bar foram?" A voz oleosa fez minha pele arrepiar, assim como seu dono: Harrison, o senhor do Vale Negro. Ele era, em parte, a razão pela qual minha mãe estava tão interessada em me casar. Sem um herdeiro, sem garantias de sucessão, Harrison era o terceiro na linha ao trono, atrás apenas de Frannie e eu.

"Não. Eu me distraí, e ela desapareceu na multidão."

"E o que, em nome dos deuses, deixou você tão distraída que a perdeu?"

Minha mãe deslocou-se na cadeira, e começou a protestar. Mas a Rainha Holiday, do leste, ergueu a mão, impedindo qualquer argumento.

"Deixe a menina falar, Judith." disse ela. "Acho que todos nós gostaríamos de saber."

Mordi meu lábio inferior, nervosamente. E mantive meus olhos firmemente fixos no chão.

"Ela me beijou."

Risinhos sarcásticos surgiram através de todo o conselho, sem dúvida felicitando-se de que, pelo menos, seus herdeiros eram melhores do que a escandalosa filha de Judith Victoria de Córdoba Fabray.

"Oh, Quinn!" A voz da minha mãe estava cheia de decepção, eu mal podia obrigar-me a encontrar seus olhos.

"E quando você conseguiu obter controle sob seus hormônios em fúria, ela já havia sumido?" A voz de Harrison era presunçosa agora, eu sentia minhas mãos apertando-se em punhos de vergonha e embaraço.

"Algo parecido com isso." murmurei.

E então eles me mandaram embora.

Agradeço-lhe muito, sua Alteza, volte quando tiver mais autocontrole do que um cão no cio. Essas não foram as palavras que eles usaram exatamente, mas era o significado do não dito.

E não era uma avaliação justa do meu personagem, considerando tudo.

Raspei meus pés, irritadamente, ao longo do chão do corredor. Andando em círculos confusos, eu estava resmungando para mim mesma em completa raiva explosiva, quando as portas que levavam a câmara do conselho abriram-se. Eu esperava que fosse algum tipo de delegação oficial, mas Sam Evans II fechou a porta atrás dele, deslizando para fora, sem ser notado.

Ele me viu ali, e sorriu suavemente.

"Não se preocupe com eles, Princesa." Sam disse. "Você sabe que Lorde Harrison só está tentando manipular as coisas ao seu próprio favor. Ninguém pensa mal de você pelo que aconteceu."

Sam acreditava mesmo nisso, então tecnicamente não era uma mentira. Mas ele estava errado.

Sentei-me, frustrada, em um dos bancos que ladeavam o corredor. Sam sentou-se ao meu lado, e me virei para encará-lo.

“Você já viajou para o norte, não é?”

Ele assentiu.

Sam era meu primo em segundo grau. Sempre nos demos muito bem, mesmo com a diferença de três anos de idade.

Ele tinha um espirito aventureiro, e quando completou a maioridade (16 anos) viajou por todos os reinos conhecidos. Até hoje me encanto com as historias que ele me contou sobre suas aventuras.

"O lobo disse que eu cheirava como a Filha da Lua, você sabe o que isso significava? A garota do bar nunca me respondeu.”

Sam mordeu os lábios e ficou pensativo por um momento.

"Não tenho certeza, pode haver varias explicações." Ele coçou a nuca, um gesto que Sam sempre fazia quando estava pensando intensamente sobre alguma coisa. "Quero dizer, conversei uma vez com um dos Filhos da Lua sobre este mesmo assunto. Segundo ele, crianças cheiram como seus pais, enquanto são pequenas. E os casais, que compartilham uma cama e um banheiro, com o tempo passam a compartilhar o mesmo cheiro. Mas cheirar como alguém que você nunca conheceu?!" Ele encolheu os ombros. “Não me lembro dele ter falado algo sobre isso.”

Sentamo-nos em silêncio por um momento, cada um aparentemente perdido em seus próprios pensamentos.

"Será que minha mãe te enviou para me vigiar?" Ele balançou a cabeça. "O meu pai?"

"Não, Princesa. Eu só pensei que você poderia querer falar com um amigo.”

"Obrigada, Sam." eu disse realmente agradecida. "Acho que vou dar um passeio, encontrar novas formas de humilhar minha família... Você sabe, o de sempre."

Ele sorriu e acenou. Quando eu ja estava no final do corredor, ouvi sua voz chamar por mim:

"Fique longe de problemas!"

* * *

O castelo estava em alvoroço, como sempre é quando o conselho está em sessão. Os membros visitantes da realeza precisavam ser alojados, alimentados e entretidos, e o mesmo valia para os exércitos de serviçais que eram trazidos com eles.

Observei Kurt latindo ordens, os lacaios organizavam a sala de jantar para acomodar todos os convidados extras.

"Ei, você!" disse ele para mim, distraidamente olhando para o mapa de lugares em suas mãos. "Como foi a reunião do conselho?"

"Foi um desastre absoluto." respondi. Kurt tirou os olhos de suas listas, e por um momento eu fui o foco de sua atenção. "Foi só...".

Um estrondo nos fez saltar. Viramos para ver a causa. Um lacaio desajeitado derrubou uma caixa cheia de talheres de prata, estavam todos espalhados aos seus pés.

Eu podia ver o conflito no rosto de Kurt, entre sua amizade comigo e o seu dever como mordomo real.

"Está tudo bem, Kurt. Nós podemos conversar outra hora."

Ele assentiu e voltou para seus afazeres.

As portas de vidro que levavam para o jardim do castelo estavam abertas, soprando uma brisa de ar fresco para dentro da sala. O dia estava claro e fresco, o epítome da primavera, e eu sabia que não estaria atrapalhando ninguém nos jardins.

Vaguei através do pátio, por corredores verdes de plantas que se estendiam por cima da minha cabeça. Eles formavam linhas retas, levando para longe do palácio em ângulos crescentes, aplanados com o nascer do sol. Bem no meio havia um longo canal, onde cisnes flutuavam elegantemente em toda a superfície.

Ali, entre as plantas, era calmo e pacifico. Dizem que quando meus avós se casaram, a rainha passava horas ali, andando pelos jardins em contemplação silenciosa.

Fiquei algum tempo gozando da sensação de paz adquirida ali, mas, infelizmente, o meu descanso não foi tão longo quanto eu gostaria.

"Sua Alteza," um servo disse se aproximando. "a rainha e o conselho pedem a sua presença."

Juntos, o servo e eu seguimos de volta para o castelo. Quando chegamos às portas da câmara do conselho, ele parou e gesticulou para que eu continuasse. Antes de cruzar o limiar, perguntei a ele:

"Você sabe o que eles querem?"

Ele se curvou em reconhecimento.

"Eu acredito, Princesa, que a senhorita partirá em breve.”

* * *

Mesmo através das portas da câmara, era possível ouvir a discussão do conselho. Parei na entrada, minha mão na maçaneta da porta, tomei algumas respirações profundas antes de gira-la. A porta se abriu facilmente, e eu entrei na sala. De repente, os membros do conselho ficaram tranquilos e em silêncio.

Minha mãe era a única que não olhava para mim. Ela mordia as unhas, preocupada. Meu pai estava com a mão em suas costas, esfregando círculos suaves. Ele sorriu para mim, e eu sei que devia ser tranquilizador e reconfortante, mas não era.

"Sua Alteza," o porta-voz escolhido era o duque de um terreno vizinho, um homem conhecido por seus discursos prolixos. "você trouxe a esta sessão um assunto de extrema importância. Nós, os membros deste conselho, decidimos que o ataque do espectro e os rumores sobre os Filhos da Lua em nosso território podem estar relacionados, e exigem uma investigação mais aprofundada."

Tentei me impedir de revirar os olhos para as palavras enfadonhas do duque, e outros deviam estar se sentido da mesma maneira.

"Vá para o norte, para o gelo, e confirme pessoalmente se os boatos contados por sua beijoqueira-do-bar são verdadeiros." A interferência de Lord Harrison atraiu olhares furiosos de outros conselheiros, mas ninguém disse nada.

O duque o ignorou, e continuou:

"Para este fim, sua alteza, propomos que você se aventure no Norte para averiguar a veracidade destes rumores." Os suspiros frustrados de outros membros da realeza pareciam não ser entendidos pelo duque, ele prosseguiu: "Você pode escolher um companheiro de viagem, é claro. Alguém para protegê-la, já que sua viagem além de investigativa também tem fins diplomáticos. Há muito tempo tentamos iniciar relações com os Filhos da Lua."

Acenei em compreensão, apertando minhas mãos atrás das minhas costas. Abri a boca para falar.

"Quinn querida," minha mãe interrompeu. "você não tem que aceitar." Ela ficou de pé. "Isso é muito perigoso. Nós não temos nenhuma informação real, nada além de rumores. Sabemos muito pouco sobre este clã, além do fato deles terem derrotado o tirano troll. Eles não devem ser subestimados. Ninguém pensará mal sobre você, se recusar esta missão."

Eu sabia que essa era uma mentira furada, rejeitar o apelo do Conselho seria mais uma vergonha que eu traria à minha família.

"Meus senhores e senhoras." eu disse, encarando a todos. As expressões em seus rostos estavam em branco, exceto pelo sorriso encorajador que Sam enviava para mim. "Aceito a missão. Irei para o norte, e descobrirei a verdade sobre esses boatos."

Parei diante da minha mãe, e caí de joelhos, adotando a pose formal. Espalmei minhas mãos juntas, como em oração, e ofereci a ela.

"Juro por minha fé, que servirei a este conselho com a plenitude de minha capacidade, que não me permitirei ser distraída ou desviada, e que manterei a todo custo os segredos do nosso reino."

Minha mãe tomou minhas mãos em aceitação, e acenou com a cabeça, em silêncio. A sessão e o juramento terminados, os conselheiros deixaram a sala um por um, até que restamos apenas nós três.

"Isso foi dito bravamente, Quinn." minha mãe expressou, e me ajudou a levantar. "Vamos, tenho algo que você gostará de ver."

Meu pai e eu a seguimos pelos corredores, para o arsenal cerimonial. Este era o lugar onde o reino mantinha as mais especiais, mais ornamentadas, armas e armaduras. No canto, suspensa na parede, estava a espada que meu pai usou para matar um dragão. As armas de inimigos conquistados também estavam aqui: cimitarras curvas de piratas, adagas de duendes, machados de anões rebeldes do leste... Todo este lugar estava protegido por mais do que fechaduras, havia encantos muito fortes cercando-o.

No fundo da sala estava um grande armário, bastante simples e despretensioso. Minha mãe abriu-o e retirou de dentro um simples colar. Ela pediu que eu me virasse, e o fechou calmamente em meu pescoço. Senti uma energia estranha passar por todo o meu corpo.

“Este colar foi feito há muitos séculos por um mago branco poderoso” ela explicou “Ele foi criado para proteger sua filha contra os ataques mágicos de seus muitos inimigos escuros. Sua magia é acionada apenas pela linhagem de sangue do mago, nossa família.”

Passei meus dedos lentamente sobre o pingente em forma de escudo, sentindo as runas antigas entalhadas ali.

“Obrigada, mãe” eu disse olhando em seus olhos. Era visível a sua preocupação. E naquela rápida troca de olhar, tentei transmitir a ela tanta segurança quanto o possível.

"Use-o no jantar de hoje à noite," meu pai disse. "mostre ao Lord Harrison uma das muitas coisas que ele nunca terá.”

E pela primeira vez, desde que a reunião do conselho começou, minha mãe deu um sorriso contagiante.

"Russel," ela falou. "essa é uma excelente ideia."

Eles saíram, então, de braços dados. Eu fiquei por mais um momento, admirando meu reflexo em um espelho que estava ali.

"Cuidado Filha da Lua, estou chegando.”