Entre Princesas E Lobos
4 Capitulo 4
Notas iniciais
Durante toda a noite me virei nos lençóis, inquieta com sonhos estranhos. Eventualmente, sentei-me na cama, jogando as cobertas no chão. Sopros de ar fresco entraram pela janela aberta, e eu tremi ao luar. Andei até a janela, e encostei-me no peitoril de pedra, de braços cruzados. Os jardins pareciam surreais ao crepúsculo, fiquei admirando-os por alguns minutos. Meus pensamentos vagavam longe.
Voltei para cama e fiquei deitada lá, sem conseguir dormir. Assisti os primeiros raios de sol entrarem pela janela.
* * *
"Quinn," minha mãe chamou no café da manhã "você dormiu esta noite?"
Balancei a cabeça, tristemente. Esfreguei os olhos com os dedos, e mal consegui esconder um bocejo.
"Acho que isso vai tornar a viagem mais difícil, princesa" Sam disse com um sorriso na voz.
Virei-me para encara-lo, minha testa franziu-se quando notei sua posição formal.
"Sua mãe e eu pensamos que Sam seria um bom companheiro de viagem para você." disse meu pai.
"E eu pensei que poderia escolher meu próprio companheiro." Respondi irritada.
"Você pode, Quinn. Sua mãe e eu fizemos apenas uma sugestão."
"Quem você quer escolher, então?" a voz de minha mãe era dura, com raiva porque eu estava questionando sua escolha.
Notei a expressão de Sam. Ele parecia magoado. Não era minha intenção, ele teria sido minha primeira escolha. Só fiquei irritada por meus pais tentarem tirar a decisão das minhas mãos.
Suspirei, resignada.
"Você pode vir comigo, com uma condição."
Isso pareceu desperta curiosidade nele.
"Sim, princesa?"
Inclinei-me para ele, sussurrando baixo em seu ouvido:
"Nunca mais me chame de princesa."
Ele deu um largo sorriso para mim.
“Feito.”
* * *
Os próximos dois dias foram incrivelmente intensos, havia os preparativos para a viagem, e o conselho exigiu que eu tivesse aulas básicas de esgrima e equitação. Além disso, passei horas ouvindo histórias sobre as terras do norte, e aprendendo a distinguir as pisadas de um troll das de um urso polar.
Meu último compromisso foi com um dos magos do reino. Ele entrou na sala, segurando livros de magia e encantos debaixo do braço. O mago parecia distraído, a barba por fazer, e havia uma mancha de vinho na frente de suas vestes.
Ele me entregou algumas garrafas de loções para cura. Então se afastou, abriu um de seus livros de magia, e se dirigiu para Sam:
"A rainha pediu um encantamento de proteção para você" ele continuou foleando o livro. "Não é uma má ideia, considerando o lugar para onde vocês irão."
Ele, então, pareceu encontrar o que estava procurando, e apertou os olhos para as palavras na página. Tentei espreitar por cima de seu ombro, mas após um segundo as palavras mudaram e se contorceram sob o meu olhar, movendo-se como um ninho de cobras.
"Sim, sim." disse ele, correndo um dedo pela página. "Proteção contra magia do mal. Com isso você não terá problemas com trolls, duendes e afins."
Depois disso o mago começou a cantar baixinho, movendo os lábios, a testa franzida em concentração. Uma névoa cinza começou a se formar em suas mãos, e foi tomando conta de todo o seu corpo. Em seguida, a névoa se estendeu ao longo do chão em direção a Sam. Lentamente, ganhando suas pernas, depois cintura e braços.
Vi Sam ficar rígido dentro da nuvem, mas ele não parecia sentir dor.
O mago assentiu e sorriu, tranquilizador.
"Quase terminado" disse ele.
Mas então senti algo queimar no meu pescoço, minha visão ficou embaçada por um segundo.
O mago me olhou curioso. Ele finalizou o encanto sobre Sam e caminhou até mim. Sua mão foi diretamente para o meu pescoço. Dei um passo para trás, confusa. Mas ele fechou os dedos ao redor do pingente do meu colar.
"Onde você conseguiu isso?" sua voz tremeu, e suas mãos também vibraram instáveis na minha garganta.
"Foi um presente" eu disse, cautelosa. "da minha mãe, a rainha."
Ele pareceu lembrar com quem estava falando e se afastou.
"Esta é uma magia poderosa, magia forte, muito maior do que eu poderia evocar.”
Depois de dizer isso, o mago reuniu seus livros e deixou a sala.
“Ele sabe mesmo fazer uma saída, não é?” Sam comentou olhando o velho ir embora.
* * *
Finalmente estávamos prontos para partir.
Do lado de fora, no pátio, nossos cavalos estavam carregados e esperando. Havia uma geada no ar, fazendo suas respirações expandirem-se em nuvens brancas. Assisti Sam tremendo de frio em sua capa forrada de pele.
"Vai ficar mais frio à medida que avancemos para o norte." eu disse. Ele acenou pra mim, resignado, e colocou suas luvas.
Rindo, saltei para sela do meu cavalo.
Uma vez que Sam e eu estávamos devidamente montados, gritos de alegria começaram a surgir nas muralhas do castelo. Os membros do conselho curvaram-se para nós, e nós para eles. Em seguida, os portões foram abertos e os cavalos começaram a avançar, trotando através da ponte.
* * *
Cavalgamos por dias em um ritmo constante, parando apenas poucas vezes para reabastecer nosso estoque de água e deixar os cavalos se hidratarem.
Sam era um companheiro de viagem tranquilo e silencioso. À medida que avançávamos, a paisagem perdia o verde exuberante da minha terra natal e tornava-se marrom e pálida.
A noite caiu rapidamente, fechando a escuridão à nossa volta assustadoramente depressa. Na distância, eu podia ver as luzes de uma taberna piscando convidativa.
"Vamos parar e passar a noite?" perguntei, e Sam concordou.
A taberna era como qualquer outra em que eu já havia entrado, cheia de bêbados. Escolhemos uma mesa, e pedimos comida e vinho. Analisei o ambiente a procura de rostos familiares. Era inútil, eu sabia, mas agora que nos aproximávamos do Norte, não podia evitar a sensação de que a minha garota do bar estava perto.
Passamos a noite ali. E quando o dia nasceu, fiz perguntas ao barman para obter informações.
"Sabe alguma coisa de um castelo feito inteiramente de gelo?"
O homem balançou a cabeça, polegares enfiados nos bolsos de sua jaqueta.
"Seria impossível por aqui." disse ele. "O gelo não dura muito tempo depois do ano novo. Você pode tentar com a contrabandista Sylvester, três dias ao norte daqui. Aquela lá é cheia de informações inúteis."
Montamos em nossos cavalos e seguimos viagem, reabastecidos. Ambos perdidos em pensamentos. Eu não conseguia parar de pensar na garota do bar, a pressão de seus lábios contra os meus, o calor de suas mãos no meu quadril...
Fui rasgada de minhas memórias pela voz de Sam, chamando de fora da trilha.
"Princesa! Por aqui!"
* * *
Guiei meu cavalo para fora da estrada, seguindo o meu primo. Sam desceu do cavalo, uma das mãos ainda segurando as rédeas, olhando para uma árvore. No começo, eu não vi nada de especial na árvore, nada que poderia prender atenção por muito tempo, mas depois avistei algo brilhando nas folhas, brilhando à luz do sol, como bronze polido.
Deslizei da sela para ficar em pé ao lado de Sam.
"Eu ouvi sobre estas árvores." comentei. "Costumavam haver florestas inteiras de metal, é o que dizem, mas elas já não existem. Elas foram minadas à extinção."
Sam balançou a cabeça, sua mão estendendo-se para escovar as folhas.
"Não até a extinção, obviamente."
Ele passou a mão ao longo dos ramos, e eu fiz o mesmo. O metal era áspero, sulcado como a casca sob meus dedos. Deslizei dos ramos para as folhas, seguindo ao longo das hastes, traçando as linhas das veias. O metal era tão fino, tão delicado, quanto a espessura de folhas reais, estávamos maravilhados com a finura. Então meu cavalo bufou atrás de mim, alto e claro no meu ouvido, eu saltei reflexivamente. Meus dedos apertaram sem jeito em torno da haste de uma folha, e ela rompeu na minha mão.
Sam olhou para mim, a boca aberta em choque.
"Eu não queria fazer isso." eu disse, e ele sorriu provocadoramente.
"Acho que você deveria afastar-se da árvore, princesa." a folha de cobre encolheu-se na minha mão, curvando-se para dentro de si mesma. Eu a coloquei no bolso do saco na minha sela, e montei lentamente de volta no cavalo. "Antes de fazer mais danos ao último membro sobrevivente de uma espécie."
Balancei minha cabeça, ignorando a provocação.
"Devemos continuar, se querermos chegar rápido a esta contrabandista."
* * *
Seguimos viagem tão rápido quanto as estradas irregulares permitiram. A terra, por todos os lados, subiu abruptamente. A pastagem rasteira rapidamente dando lugar a montanhas e florestas de pinheiros.
Ocasionalmente passamos por casas que tinham fumaça subindo das chaminés, e fazendeiros rolando barris de leite para fora de celeiros. As voltas e reviravoltas da estrada nos levaram em direção ao mar. No terceiro dia, fizemos uma pausa no topo de uma colina, olhando para a paisagem abaixo de nós. Não parecia uma cidade grande, todas as ruas eram visíveis, docas e armazéns coloridos revestiam o porto.
Paramos em um estabulo fora da cidade, desmontando ao mesmo tempo em que uma criança correu para nos auxiliar, habilmente segurando as rédeas de nossos cavalos.
"Pode deixar seus cavalos aqui enquanto estiver na cidade, minha senhora.” disse a menina, olhando-nos com astúcia. "Apenas três moedas de ouro cada."
O preço era exorbitante, descontroladamente inflado. Eu olhei para Sam, e ele deu de ombros. Nós realmente não tínhamos escolha.
* * *
A cidade era movimentada, as ruas estavam cheias de pessoas.
"Os senhores conhecem a contrabandista Sylvester?" perguntei a um grupo de trabalhadores que encontramos nas docas. Suas instruções eram fortemente acentuadas, traços cadenciados da língua dessa região, mas entendemos o que eles diziam.
Depois de procurar por quase toda a cidade, finalmente conseguimos o endereço da contrabandista. Mas já era tarde, decidimos passar a noite em uma estalagem e procura-la no dia seguinte, bem cedo.
* * *
As escadas da pousada eram escuras e frias, a madeira rangia sob os meus pés a medida em que subíamos. Sam e eu ficamos no mesmo quarto por questão de segurança. Apesar de tranquila até agora, a viagem oferecia certos perigos e meu primo estava lá para me proteger.
O quarto tinha duas camas de solteiro. Acendemos as velas e começamos nossas rotinas noturnas, nos preparando para dormir.
Uma vez que Sam e eu estávamos deitados, apaguei as velas e o quarto ficou iluminado apenas pela luz do céu noturno.
"Você está acordado?" eu sussurrei, e o ouvi soltar um pequeno sorriso.
"Sim, acho que estou." uma pergunta ficou presa em minha garganta, e finalmente Sam se virou, olhando para mim em toda a extensão do espaço entre as nossas camas. "O que você quer?"
"Você acredita em amor à primeira vista?"
Houve um longo silêncio, e então, apesar da pouca luz, eu o vi acenar. Virei-me inteiramente para ele, apoiando-me em meus cotovelos.
"Você já se apaixonou à primeira vista?"
"Não." A palavra era plana, sem inflexão ou emoção, e eu sabia, sem saber exatamente por que, que era uma mentira.
"Não acredito.” falei em tom de provocação “Quem teria imaginado. Sam Evans II, O Aventureiro, é na realidade um romântico."
Ele bufou e rolou sobre suas costas, jogando um braço sobre os olhos.
"Eu só quero dormir" disse Sam, mas a oportunidade era boa demais para deixar passar.
"Quem é ela?" insisti. "Um romance de infância fadado ao fracasso? Uma ninfa que você conheceu durante suas viagens? Ou será que é um rapaz?"
"Não." A palavra era mais definitiva dessa vez, e mais verdadeira. Comecei a cavar no meu cérebro tentando desenterrar um nome, alguém com quem ele se preocupasse.
“Frannie?”
Ele fez um barulho de insulto.
"Não. Frannie é como uma irmã para mim. Assim como você.”
"Oh, meu Deus!” exclamei. "É isso. Sou eu, não é? Você está loucamente, profundamente, apaixonado por mim. É por isso que você nunca usa o meu nome, é muito doloroso."
"Vá dormir, Quinn” ele respondeu, apesar de eu ouvir o sorriso em sua voz.
E, com relutância, eu fiz o que Sam disse, tínhamos um dia cheio pela frente.
* * *
Quando já era manhã, seguimos as indicações para a casa da contrabandista, ela ficava na periferia da cidade. Sua casa se parecia com todas as outras do Norte, feitas de madeira e pintadas de branco na frente e vermelho na parte de trás.
"Por que pintar a casa de duas cores?" sussurrei para Sam, espreitando por cima da cerca para ter uma visão da proprietária. Ele ia responder, quando...
"A tinta vermelha é mais barata." disse uma voz, vindo de trás das folhas, fazendo-nos saltar "Então você mostra a seus visitantes uma tinta cara, a branca. A menos que eles decidam esgueirar-se por trás, como você." Uma mulher loira, já de certa idade, mas que aparentava excelente forma física, surgiu. "Posso ajudar?"
"Sue Sylvester, contrabandista?" Ela me encarou desconfiada, sem nada responder. "Fomos informados de que você pode saber sobre um palácio de gelo, e os seus novos habitantes."
Sylvester olhou sobre os meus ombros, verificando a rua, antes de nos convidar para entrar.
"Venham!" disse ela em voz baixa. "E sejam rápidos."
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