Entre Pixels e Perfumes

15 O Som do Reconhecimento


Notas iniciais
O silêncio que se seguiu à revelação foi mais ruidoso do que qualquer música da festa. Marcos desceu os degraus da varanda como se estivesse em transe, os olhos fixos em Jessy, temendo que ela desaparecesse se ele piscasse.



​Marcos parou a dois degraus do chão, ficando exatamente na altura dela. O brilho da lua refletia no vestido azul de Jessy e nas lágrimas que ela não conseguia mais conter. Ele não pegou o celular no chão; seus olhos eram a única conexão de que precisava agora.

​— Não pode ser... — A voz de Marcos saiu como um sopro, rouca e quebrada. — Quatro anos, Jessy. Quatro anos em que eu te contei meus medos, meus sonhos... em que eu disse que você era a minha luz. E você estava na mesa ao lado.

​Jessy deu um passo à frente, sustentando o olhar dele com uma mistura de orgulho e vulnerabilidade.

​— Eu não sabia no começo, Marcos. E quando descobri... como eu poderia te dizer? O Lupus me tratava como uma rainha, mas o Marcos Delavga? O Marcos me tratava como se eu fosse invisível, ou pior, como se eu fosse um erro no seu sistema perfeito.

​Marcos fechou os olhos por um segundo, sentindo o peso daquelas palavras como um soco. Ele desceu os últimos degraus, ficando a centímetros dela. O perfume de flores que ele sentiu no carro há dois anos — e no restaurante — finalmente fez sentido.

​— Eu fui um idiota — ele confessou, a voz embargada. — Eu criei o Lupus para ser o homem que eu não tinha coragem de ser no mundo real. Mas a Morena... ela foi a única que conseguiu atravessar esse gelo. Eu me apaixonei por você duas vezes, Jessy. Uma pela sua alma nas mensagens, e outra pela mulher incrível que gritou comigo naquele escritório e me mostrou o quanto eu era pequeno.

​Jessy sorriu com tristeza, mas estendeu a mão, tocando levemente o rosto dele.

— O Lupus sempre dizia que eu era o diamante dele. Mas diamantes só brilham sob pressão, Marcos. Talvez a gente precisasse de toda essa pressão para finalmente nos vermos de verdade.

​Marcos cobriu a mão dela com a sua, inclinando o rosto contra a palma da mão de Jessy. O contato físico, agora que as máscaras haviam caído, era avassalador.

​— Eu te perdi como funcionária, e quase enlouqueci perdendo a Morena. Eu não posso te perder de novo — ele sussurrou, aproximando seu rosto do dela. — Agora que eu sei que a minha estrela tem nome e olhos castanhos... você me perdoa por ter sido cego por tanto tempo?

​— Só se o Lupus prometer que vai deixar o Marcos ser humano de vez em quando — ela respondeu, a voz falhando enquanto ele encurtava a distância final.

​— Eu prometo — ele disse, antes de selar o destino de ambos com o primeiro beijo que não era feito de pixels, mas de uma realidade que superava qualquer fantasia virtual.