Entre Pixels e Perfumes

12 O Reencontro e o Despertar de Órion


Notas iniciais
Este salto temporal de dois anos traz uma maturidade interessante para os personagens. Marcos agora convive com Luccas, o que humanizou seu comportamento, e Jessy está mais confiante e dona de si.




​Dois anos se passaram como um sopro, mas para Jessy, pareceram uma vida inteira. Ela se tornou uma designer freelancer de sucesso, trabalhando no conforto de sua casa, e o tempo na academia com Luccas moldou não apenas seu corpo, agora mais escultural e firme, mas também sua autoestima.

​O cenário para o noivado de Luccas e Maira não poderia ser outro: o mesmo restaurante luxuoso onde, há dois anos, o jogo de máscaras entre ela e Marcos quase implodiu.

​Marcos já estava à mesa. Ele parecia diferente. O terno ainda era impecável, mas a expressão estava menos rígida. Ele ria de algo que Luccas dizia; a convivência com o cunhado "ogro" e o amor da irmã haviam quebrado algumas de suas camadas de gelo.

​— Ela chegou — Luccas anunciou, com um brilho orgulhoso nos olhos.

​Marcos se virou e o ar lhe faltou. Jessy caminhava pelo salão em um vestido prata de seda que parecia líquido. A peça tinha alças finas, um decote generoso e uma fenda que subia até as coxas, revelando pernas torneadas. Ela não era mais a funcionária acuada; era uma visão de pura beleza e confiança.

​Marcos levantou-se num salto, movido por um instinto que há muito não sentia. Seu coração deu uma batida descompassada, um solavanco no peito que ele não conseguia controlar.

​— Jessy... — ele murmurou, a voz falhando. Ele deu a volta na mesa e, como um perfeito cavalheiro, puxou a cadeira para ela. — Você está... deslumbrante.

​— Obrigada, Marcos. Vejo que os anos te ensinaram alguns bons modos — ela provocou com um sorriso ladino, sentando-se.

​— E vejo que os anos te deixaram ainda mais afiada — ele rebateu, sentando-se ao lado dela, mas com um brilho divertido no olhar, sem a agressividade de antigamente.

​O jantar fluiu entre risadas de Luccas e Maira e algumas farpas trocadas entre os antigos patrão e empregada. Marcos não conseguia tirar os olhos dela. Ele buscava em Jessy algo que ainda o assombrava: a lembrança da Morena que ele nunca esqueceu.

​No fim da noite, Luccas e Maira saíram para comemorar sozinhos, e Marcos se ofereceu para levar Jessy. O trajeto foi silencioso, mas não era o silêncio cortante de dois anos atrás. Era algo novo, denso, cheio de palavras não ditas.

​Quando o carro parou em frente ao prédio de Jessy, Marcos não desligou o motor. Ele olhou para o volante, hesitante, antes de se virar para ela.

​— Sinto sua falta na empresa, Jessy — ele confessou, a voz baixa. — Ninguém conseguiu captar a alma dos projetos como você. Se quiser... o seu cargo ainda é seu. Com as suas condições.

​Jessy sorriu com ternura, mas balançou a cabeça.

— Obrigada, Marcos. Mas eu descobri que amo o silêncio do meu home office. Estou bem melhor assim.

​Marcos suspirou e se inclinou um pouco mais para ela. A luz amarela dos postes de rua iluminava o rosto dele, revelando uma vulnerabilidade que ela só conhecia através de mensagens de texto.

​— Eu fui um idiota com você no passado. Demorei dois anos e a distância para notar o quanto você é especial — ele disse, e sua voz mudou para um tom aveludado, o tom exato que Lupus usava nos áudios. — Você brilha mais que qualquer joia que eu já tentei vender. Há algo em você, Jessy... uma luz que eu sinto que conheço de algum lugar, mas que só agora meus olhos aprenderam a enxergar.

​O coração de Jessy disparou. Eram as palavras dele. A alma de Lupus estava ali, falando através da boca de Marcos Delavga. O choque foi tão grande que ela sentiu as mãos suarem.

​— Eu preciso ir, Marcos. O Luccas deve estar chegando — ela disse, desviando o olhar e saindo do carro rapidamente antes que se entregasse. — Boa noite.

​— Boa noite, Jessy — ele respondeu, observando-a subir com o olhar melancólico.

​Ao entrar no apartamento, Jessy nem acendeu as luzes. Ela caminhou até o sofá, jogou a bolsa de lado e pegou o celular. Com os dedos trêmulos, ela navegou até o contato que estava no fundo da lista de bloqueados.

​Lupus.

​Ela clicou em "Desbloquear". A foto de perfil dele apareceu instantaneamente: a mesma caneca de diamante, agora com um pouco mais de poeira. O histórico de quatro anos atrás ainda estava lá, congelado no tempo.

​Ela respirou fundo e digitou, sentindo uma adrenalina que não sentia há muito tempo:

​Morena: Boa noite, Lupus. Orion resolveu aparecer novamente.

​Ela enviou a mensagem e desligou a tela, o coração martelando contra as costelas. O jogo tinha recomeçado, mas desta vez, ela estava pronta para ver onde a realidade e o sonho se encontravam.