Notas iniciais
O Capítulo 13 traz o momento em que as ondas de rádio finalmente conectam o que as mensagens construíram por anos. A tensão é palpável.



​Marcos estava parado no meio de sua sala, encarando o celular como se ele fosse um artefato alienígena. A notificação de desbloqueio não veio, mas a mensagem sim. Aquelas palavras... o código deles.

​Lupus: Eu não consigo acreditar. É você? É você mesma? Eu passei cada um desses 730 dias esperando esse sinal.

​No apartamento dela, Jessy sorria, sentada no tapete da sala com o celular contra o peito.

​Morena: Sou eu. Algumas coisas precisam de tempo para se curar, Lupus. Mas Orion nunca para de brilhar, mesmo quando as nuvens cobrem o céu.

​Eles continuaram trocando mensagens por quase uma hora. O tom era uma mistura de saudade profunda e uma curiosidade elétrica. Marcos perguntava onde ela esteve, e Jessy respondia com enigmas, saboreando o fato de que, fisicamente, ela estivera ao lado dele há poucos minutos.

​Lupus: Chega de letras, Morena. Meu coração não aguenta mais ler. Eu preciso de algo real. Posso te ligar? Só uma vez. Se você não gostar, eu nunca mais peço.

​Jessy sentiu um frio na barriga que quase a fez derrubar o aparelho. O momento da verdade. Ela olhou para o espelho, viu a mulher que Marcos acabara de elogiar no carro, e respirou fundo.

​Morena: Ligue.

​O celular começou a vibrar instantaneamente. O nome LUPUS brilhava na tela. Jessy deslizou o dedo para aceitar a chamada e colocou o aparelho no ouvido, em silêncio.

​Do outro lado, o silêncio também era denso. Até que ele suspirou.

​— Morena? — A voz de Marcos veio baixa, rouca, carregada de uma emoção que ele nunca mostrava no escritório. — É... é estranho finalmente ter um som para o meu pensamento favorito.

​Jessy fechou os olhos. Ouvir aquela voz — a mesma que dava ordens, mas agora falando com uma doçura infinita — era como sentir um choque elétrico.

​— Oi, Lupus — ela sussurrou, a voz levemente trêmula.

​Marcos ficou mudo por alguns segundos.

— Você tem voz de sorriso. Eu sempre imaginei que você teria uma voz assim... suave, mas com uma força escondida. Por que você me deixou naquela noite? Eu morri um pouco quando aquele traço não ficou azul.

​— Eu vi algo que me machucou, Lupus. Achei que você fosse como todos os outros. Mas o tempo me mostrou que talvez eu tenha julgado rápido demais — ela respondeu, sendo o mais honesta possível sem revelar sua identidade.

​— Eu nunca mais vou deixar você ir — ele prometeu, e Jessy conseguia imaginar os olhos dele brilhando na escuridão de seu quarto. — Eu não sei quem você é, onde você mora ou como é o seu rosto... mas eu sinto que te conheço mais do que qualquer pessoa que eu já toquei.

​Eles conversaram por horas. Falaram sobre a vida, sobre os sonhos e, ironicamente, sobre o jantar de noivado. Marcos contou a ela, sem citar nomes, que reencontrara uma antiga funcionária e que se sentira atraído por ela de uma forma inexplicável.

​— É loucura, eu sei — Marcos disse, rindo baixinho no telefone. — Eu falo com você e sinto que te amo. Mas hoje, olhei para uma mulher e senti o meu coração bater igual. Eu estou ficando louco, Morena?

​— Talvez não, Lupus — Jessy sorriu, as lágrimas escorrendo pelo rosto. — Talvez o seu coração esteja apenas começando a reconhecer o que os seus olhos ainda não conseguem ver.

​Quando finalmente desligaram, Jessy ficou olhando para o teto. Ela sabia que o encontro físico entre "Morena" e "Lupus" era inevitável agora. E, pela primeira vez, ela não tinha medo da reação dele. Ela só queria que ele a visse, por inteiro, como a designer, a funcionária, a irmã do Luccas e, finalmente, a dona do seu coração virtual.