Entre Pixels e Perfumes

14 O Encontro das Almas


Notas iniciais
O Capítulo 14 traz o ápice do suspense. No cenário onde tudo começou, o véu entre o virtual e o real está prestes a cair sob a luz do luar.



​O casamento de Luccas e Maira era o evento do ano. A mansão Delavga estava transformada: milhares de flores brancas, luzes de fada entrelaçadas nas árvores e uma orquestra que tocava suavemente ao fundo. Jessy estava deslumbrante em um vestido de madrinha em tom azul-sereno, que contrastava perfeitamente com sua pele.

​Ao lado dela, no altar, Marcos era o padrinho. Ele estava impecável em um fraque cinza, mas parecia distante. Durante toda a cerimônia, os dois mal trocaram palavras, limitando-se a cumprimentos formais e olhares rápidos que desviavam assim que se cruzavam. Para quem olhasse de fora, eram apenas dois ex-colegas de trabalho mantendo as aparências.

​Após a festa começar, Jessy sentiu necessidade de ar fresco. Ela caminhou pelos jardins que conhecia tão bem, parando perto de uma fonte de mármore, longe do barulho da pista de dança.

​O silêncio do jardim foi quebrado pela vibração em sua bolsa. O visor brilhava: Lupus.

​Ela atendeu, o coração saltando no peito.

— Oi, Lupus — sussurrou ela, sentindo a brisa da noite.

​— Morena... — A voz dele veio com uma intensidade avassaladora. — Eu não aguento mais essa festa. Minha irmã está feliz, meu cunhado é um cara incrível, mas eu me sinto o homem mais sozinho do mundo cercado de mil pessoas. Eu só queria que você estivesse aqui.

​Jessy olhou para trás, em direção à mansão iluminada. Na varanda do andar superior, afastado dos convidados, ela viu a silhueta alta e solitária de Marcos. Ele estava de costas para a festa, com o celular no ouvido e a outra mão apoiada no parapeito, olhando para o horizonte.

​Um sorriso doce e vitorioso surgiu nos lábios de Jessy. Ela o observou de longe, vendo o homem que ela amou por quatro anos em sua forma mais crua e honesta.

​— E se eu te dissesse que os seus desejos têm força, Lupus? — ela disse, a voz suave carregada de mistério.

​Marcos se empertigou na varanda, a voz ficando tensa.

— O que você quer dizer com isso?

​— Olhe para baixo, para o jardim das estátuas — Jessy instruiu, sentindo a adrenalina correr. — Eu estou mais perto do que você imagina. Na verdade, eu nunca estive tão perto.

​Ela viu Marcos congelar na varanda. Ele girou o corpo lentamente, o celular ainda colado ao ouvido. Seus olhos varreram a escuridão do jardim até pararem na figura azul sob a luz do luar.

​— Jessy? — A voz dele saiu pelo celular e, ao mesmo tempo, ecoou pelo ar, carregada de um choque que o fez perder o fôlego.

​— Olhe bem para mim, Marcos — ela disse, ainda ao telefone, começando a caminhar lentamente em direção à escadaria da varanda, saindo das sombras para a luz. — Ou prefere que eu te chame de Lupus?

​O celular de Marcos escorregou de sua mão, caindo sobre o tapete da varanda. Ele ficou paralisado, vendo a mulher que ele tratou com frieza, a funcionária que ele perdeu, e a Morena que ele amou, fundirem-se em uma única e perfeita realidade diante de seus olhos. O segredo havia acabado.