​O som dos saltos de Jessy Walle ecoava pelo mármore da Delavga Group. Aos 27 anos, ela era a designer gráfica chefe da empresa, e hoje era o dia mais importante de sua carreira. Ela conferiu o reflexo: os cabelos escuros estavam impecáveis e a pele morena clara brilhava sob a luz do saguão.

​Antes de entrar no elevador, ela sentiu o celular vibrar. Era ele. Lupus, seu namorado virtual há quatro anos. Alguém que ela nunca viu, mas que conhecia cada detalhe de sua alma.

​Lupus: Bom dia, pequena. Sei que hoje é um dia grande no trabalho. Feche os olhos, respire fundo e mostre a eles o talento que eu sei que você tem. Estarei aqui esperando você me contar como foi.

​Jessy sorriu, sentindo o nervosismo diminuir. Ela digitou rapidamente:

​Jessy: Obrigada por estar sempre aqui. Queria muito que você pudesse me ver hoje. Reze por mim!

​Ela guardou o aparelho e subiu para o trigésimo andar. A sala de reuniões estava tensa. Maira Delavga, a vice-presidente, analisava alguns papéis, enquanto seu irmão e dono da empresa, Marcos Delavga, mantinha os olhos fixos na vidraça, de costas para a porta. Marcos era um homem de 38 anos, imponente e conhecido por sua frieza absoluta.

​— Bom dia — Jessy disse, tentando manter a voz firme.

​Marcos se virou lentamente. O olhar dele era como gelo. — Srta. Walle. Espero que o projeto do perfume Éter esteja à altura do investimento que fizemos.

​— Está, Sr. Delavga — ela respondeu, conectando o notebook.

​Jessy começou a apresentação. Ela mostrou a interface do aplicativo, onde as cores do perfume se misturavam em animações fluidas e luxuosas. Maira sorria, satisfeita, mas Marcos permanecia em silêncio, observando Jessy com uma intensidade que a deixava desconfortável.

​— O design é intuitivo — explicou Jessy. — O usuário sente a sofisticação da marca antes mesmo de abrir o frasco.

​No meio da explicação, o celular de Marcos, que estava sobre a mesa, acendeu com uma notificação. Jessy, que estava de pé ao lado dele para apontar um detalhe na tela, olhou para baixo por puro instinto.

​Seu coração parou.

​Na tela de bloqueio do celular de Marcos, brilhava uma mensagem de um aplicativo de conversas criptografadas. O nome do remetente era "Morena" — o apelido que ela usava no mundo virtual.

​A mensagem escrita na tela era a que ela tinha acabado de enviar:

​"Obrigada por estar sempre aqui. Queria muito que você pudesse me ver hoje. Reze por mim!"

​O mundo de Jessy girou. Ela parou de falar no meio da frase. Aquele celular... aquela mensagem... era a sua mensagem. O homem frio, arrogante e exigente que a fazia trabalhar até tarde era o mesmo homem que, todas as noites, escrevia poesias e dizia que ela era a mulher da vida dele.

​— Srta. Walle? — a voz de Marcos a trouxe de volta. — Algum problema? Por que parou?

​Jessy sentiu o sangue sumir do rosto. Ela olhou para as mãos de Marcos — as mãos de Lupus. Ele pegou o celular, leu a mensagem rapidamente e, por um milésimo de segundo, a expressão de "tubarão dos negócios" suavizou-se em um sorriso terno, quase imperceptível. Ele guardou o aparelho no bolso, sem imaginar que a dona daquelas palavras estava ali, a poucos centímetros dele, em choque.

​— Eu... eu só me perdi no pensamento, Sr. Delavga — ela gaguejou, o coração martelando no peito. — Como eu dizia... a interface... ela é... única.

​Marcos arqueou uma sobrancelha. — Tudo bem. Maira, finalize os detalhes com ela. Tenho outra reunião.

​Ele se levantou e saiu da sala com sua postura inabalável. Jessy ficou encarando a porta fechada, sentindo que sua vida acabara de se tornar o maior segredo daquela empresa. Ela sabia quem ele era. Mas ele? Para ele, Jessy Walle ainda era apenas uma funcionária eficiente, e a "Morena" do celular era uma fantasia que ele ainda não tinha coragem de encontrar.