Notas iniciais
No Capítulo 2, a tensão muda de lugar. Jessy agora carrega o peso do segredo, enquanto Marcos continua agindo como o carrasco profissional de sempre, sem saber que sua "Morena" está sofrendo um pane sistêmico bem na sua frente.



​O corredor da Delavga Group nunca pareceu tão longo. Jessy caminhava em direção à sua mesa no setor de criação, mas seus pés pareciam não tocar o chão. A imagem daquela notificação no celular de Marcos estava queimada em sua retina.

​Lupus é Marcos Delavga.

​A frase se repetia em sua mente como um erro de sistema. Como o homem que a chamava de "luz da minha vida" à meia-noite podia ser o mesmo que, às nove da manhã, reclamava que a tonalidade do dourado na embalagem estava "0,5% fora do padrão"?

​Ao chegar em sua mesa, ela desabou na cadeira e abriu o notebook. Seus dedos tremiam. Ela precisava ter certeza. Ela precisava de um teste.

​Com o coração na boca, ela abriu o aplicativo de mensagens sob o brilho da tela, escondida atrás de uma pasta de arquivos.

​Morena: Acabei de sair da reunião... Foi mais difícil do que eu pensei. Queria muito um abraço seu agora.

​Ela enviou. Dois minutos depois, o elevador executivo no final do corredor se abriu. Marcos Delavga saiu de lá, caminhando em direção ao escritório da irmã, Maira. Ele estava com o celular na mão. Jessy o observou pelo reflexo do monitor.

​Ele parou no meio do caminho. Olhou para a tela do aparelho. Seus ombros, sempre tão tensos e rígidos, relaxaram por um segundo. Ele digitou algo rapidamente, com uma expressão quase melancólica, e guardou o telefone antes de entrar na sala de Maira.

​O celular de Jessy vibrou.

​Lupus: Eu daria tudo para te dar esse abraço. Não deixe que ninguém apague o seu brilho hoje. Você é maior que qualquer problema nesse escritório.

​Jessy sufocou um soluço com a mão. Era ele. Não havia mais dúvidas.

​— Jessy? Você está bem? — A voz de Maira a sobressaltou. A vice-presidente estava parada na frente da sua mesa, com uma expressão preocupada. — Você saiu da reunião parecendo que tinha visto um fantasma.

​— Eu... eu só estou com uma enxaqueca terrível, Maira — mentiu Jessy, fechando a aba do chat com uma velocidade sobre-humana. — O projeto do Éter me consumiu muito.

​Maira sorriu e se sentou na ponta da mesa.

— Meu irmão pode ser um trator quando quer um resultado, eu sei. Mas ele ficou impressionado, sabia? Ele não elogia ninguém, mas me disse que seu trabalho é "cirúrgico". Vindo do Marcos, isso é o equivalente a um Oscar.

​Jessy forçou um sorriso, sentindo o estômago dar voltas.

— Ele é... uma pessoa difícil de ler.

​— Ele é uma fortaleza de gelo, Jessy. Desde que nossa família passou por uns problemas anos atrás, ele se fechou para o mundo. Às vezes acho que ele só vive para essa empresa. — Maira suspirou. — Queria que ele encontrasse alguém que o fizesse baixar a guarda. Mas ele não sai, não conhece ninguém... é um mistério.

​Ele conheceu alguém, Maira, pensou Jessy. Ele conheceu a mim. Mas ele não sabe que sou eu.

​Naquele momento, a porta da sala de Maira se abriu e Marcos saiu de lá. Seus olhos percorreram o escritório até encontrarem Jessy. O olhar de Lupus não estava lá; era apenas o olhar frio do CEO.

​— Srta. Walle — ele chamou, a voz autoritária cortando o ambiente. — Esqueci de mencionar. Preciso que você me acompanhe no coquetel de lançamento dos investidores amanhã à noite. Quero que você apresente a interface pessoalmente no tablet para os acionistas majoritários.

​Jessy sentiu o sangue subir para o rosto. Um evento social. Com ele.

— Amanhã à noite, senhor? Eu... eu tinha planos.

​Marcos deu um passo à frente, cruzando os braços. O terno perfeitamente cortado acentuava sua postura dominante.

— Planos podem ser remarcados. A carreira é prioridade. Esteja pronta às 20h. O motorista passará na sua casa.

​Ele deu meia volta e saiu sem esperar uma resposta.

​Jessy olhou para o celular. Havia uma nova mensagem de Lupus.

​Lupus: Desculpe, pequena. Surgiu um compromisso de trabalho amanhã à noite e não vou conseguir ficar no chat com você. Prometo compensar no fim de semana?

​Jessy sentiu um arrepio. Ela ia a um encontro com o seu namorado virtual, mas ele seria seu chefe, e o encontro seria uma reunião de negócios. O jogo de máscaras estava apenas começando.