Entre Pixels e Perfumes
3 Cupido com Wi-Fi
Notas iniciais
Jessy girou a chave da porta de seu apartamento com a sensação de que seu cérebro tinha passado por um processador de alimentos. O perfume de Marcos — ou melhor, de Lupus — ainda parecia impregnado em seus sentidos.
— Chegou a sobrevivente! — Uma voz grave e animada ecoou da cozinha.
Luccas Walle, o irmão mais velho de Jessy, apareceu na sala secando o cabelo com uma toalha. Aos 30 anos, Luccas era o oposto da discrição: um "homão" de 1,90m, com músculos que claramente passavam mais tempo na academia do que em reuniões, e um sorriso de quem sabia exatamente o efeito que causava.
— Oi, Luccas. O que está fazendo aqui? Achei que tinha um encontro hoje — Jessy disse, jogando a bolsa no sofá e se jogando ao lado.
— Eu tinha. "Tinha" no pretérito imperfeito, maninha. A gata queria "conectar as almas" antes do primeiro drink. Eu sou um homem de ação, não um roteirista de novela — Luccas riu, sentando-se na poltrona e exibindo os braços tatuados. — Mas e você? Por que essa cara de quem viu o servidor da empresa explodir?
Jessy suspirou, olhando para o celular.
— Descobri uma coisa, Lu. Uma coisa impossível.
Luccas arqueou uma sobrancelha, o instinto protetor (e fofoqueiro) ativado.
— O que foi? O seu namorado de Taubaté, o tal do "Lupus", acabou sendo um robô chinês?
— Não! Ele é real. Muito real. — Ela baixou a voz, como se as paredes pudessem ouvir. — Ele é o meu chefe, Luccas. O Marcos Delavga. O cara que me dá bronca se eu uso a fonte errada no e-mail.
O silêncio reinou por três segundos antes de Luccas explodir em uma gargalhada que quase estremeceu os quadros na parede.
— Não... Não pode ser! — Luccas limpava as lágrimas de riso. — O ogro de terno que você xinga toda semana é o mesmo cara que te manda "bom dia, minha estrela"? Jessy, o roteirista da sua vida bebeu demais!
— Não tem graça! — ela jogou uma almofada nele. — Eu estou namorando virtualmente um homem que me apavora fisicamente. Ele é doce no chat e um iceberg na vida real. E ele não sabe que sou eu!
Luccas parou de rir, mas o brilho divertido continuava lá. Ele se inclinou para frente, cruzando os braços imensos.
— Maninha, escuta aqui o mestre. Eu saio com três mulheres diferentes por semana, olho no olho, sinto o perfume, vejo se o sorriso é falso... e você aí, há quatro anos, apaixonada por um código de barras que, por acaso, é o dono da empresa.
— Não é um código de barras, Luccas! A gente tem conexão.
— Conexão quem tem é o roteador, Jessy! — ele rebateu, rindo. — Na vida real, o cara é um carrasco. Como é que você vai beijar o Lupus se, toda vez que ele abrir a boca, você vai achar que ele vai te pedir um relatório de custos?
— Esse é o problema! — Jessy escondeu o rosto nas mãos. — Amanhã tem um evento e ele quer que eu vá com ele. O motorista dele vai vir me buscar.
Luccas deu um assobio longo.
— O "Boy Magia Digital" vai vir buscar a "Morena do Design" para um "date de negócios"? Isso vai ser melhor que final de campeonato.
Ele se levantou, caminhando até a geladeira, mas parou e olhou para ela com um tom mais sério, embora ainda provocador.
— Só um conselho de quem entende de caça, maninha: se o Lupus é o Marcos, e o Marcos é o Lupus... uma hora as duas versões vão bater de frente. E quando isso acontecer, espero que você esteja de salto alto e pronta para o impacto. Porque esse cara, se descobrir que você sabia e não contou, ou ele te demite, ou ele te pede em casamento no meio do escritório.
— Você não ajuda nada, Luccas! — Jessy gritou enquanto ele entrava na cozinha rindo.
Ela pegou o celular. Uma nova mensagem de Lupus.
Lupus: Pensando em você antes de dormir. Queria que o mundo fosse mais simples para a gente se encontrar.
Jessy olhou para a porta da cozinha, onde o irmão bombado cantava uma música alta, e depois para a tela.
— Se você soubesse o quanto o mundo ficou complicado hoje, Marcos... — sussurrou para si mesma.
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