Entre Pixels e Perfumes
4 O Diamante de Vidro
Notas iniciais
O dia seguinte na Delavga Group parecia carregado de eletricidade. Jessy mal conseguia focar nas curvas vetoriais de seu monitor. Seu celular, vibrando sobre a mesa, era uma granada prestes a explodir.
Ela hesitou, mas abriu a mensagem.
Lupus: Minha manhã está um caos, mas olhei para o lado e lembrei de você. Sabe por quê? Porque você é rara como um diamante. Café para aguentar o tranco.
Abaixo do texto, uma foto. Uma imagem simples da mesa de carvalho escuro, papéis timbrados e, no centro, uma caneca preta fosca com um diamante minimalista desenhado em dourado.
O estômago de Jessy despencou. Ela conhecia aquela mesa. Ela conhecia aquele padrão de madeira.
— Não pode ser... — sussurrou.
Como uma sonâmbula, ela se levantou. Precisava ver com os próprios olhos. Inventou uma desculpa mental sobre "ajustes finais na paleta de cores" e caminhou até a ala da presidência. O coração batia tão forte que ela sentia as têmporas pulsarem.
A secretária de Marcos não estava na mesa. A porta da sala dele estava entreaberta. Jessy deslizou para dentro silenciosamente, como se estivesse cometendo um crime.
Lá estava.
Exatamente como na foto. Ao lado do notebook de última geração, a caneca preta com o diamante dourado repousava sobre um descanso de couro. O café ainda fumegava. Era a prova incontestável. Seu Lupus, o homem que lhe escrevia poesias de madrugada, era o dono daquela cadeira de couro legítimo.
— O que exatamente a senhorita está fazendo na minha mesa, Srta. Walle?
A voz de Marcos chicoteou o ar, fria e cortante. Jessy deu um pulo, quase derrubando a caneca. Marcos estava parado à porta, com uma pasta na mão e uma expressão de poucos amigos.
— Eu... eu... — Jessy começou, sentindo o rosto queimar. — Eu vim trazer... quer dizer, eu vim perguntar se o senhor... sobre a saturação do dourado! É, o dourado do frasco!
Ela gesticulou freneticamente, esbarrando em um porta-canetas, que deslizou pela mesa. Ao tentar segurá-lo, ela acabou batendo o cotovelo na caneca de diamante, que balançou perigosamente.
— Cuidado! — Marcos deu dois passos largos, segurando a caneca antes que o café derramasse nos seus documentos. Ele respirou fundo, visivelmente irritado. — Você está agindo como uma estagiária no primeiro dia, Jessy. O que há com você?
— Eu só me desequilibrei, Sr. Delavga! O carpete é... felpudo demais — ela mentiu, tropeçando nos próprios pés enquanto tentava recuar.
Marcos colocou a caneca no lugar com uma força desnecessária, fazendo um estalo seco. Ele a encarou com um desprezo que doeu mais que qualquer bronca profissional.
— Eu não tenho tempo para o seu amadorismo hoje. Já não basta o estresse dessa apresentação, agora tenho que lidar com você entrando na minha sala sem ser chamada e quase destruindo meu material? — Ele apontou para a porta, a voz subindo de tom. — Saia. Agora. E só apareça na minha frente se for para ser uma profissional, e não uma menina estabanada.
— Mas senhor, eu só...
— Saia! — ele vociferou, voltando sua atenção para os papéis como se ela não passasse de um estorvo.
Jessy saiu da sala quase correndo, sentindo as lágrimas arderem nos olhos. Ao chegar em sua estação de trabalho, ela se trancou no silêncio dos seus fones de ouvido.
Ela olhou para a foto da caneca no celular. O "diamante" de Lupus.
— Que idiota eu sou — murmurou para si mesma, sentindo um nó na garganta. — O Lupus não existe. O Lupus é uma mentira que ele conta para se sentir humano.
A ficha caiu com amargura. Ela nunca teria seu Lupus, porque, na vida real, o homem por trás daquelas mensagens era um egocêntrico grosso que não suportava um erro mínimo. A doçura do chat era apenas uma máscara para esconder o gelo que ele tinha no lugar do coração.
Naquela noite, ela teria que ir ao evento com ele. Mas, para Jessy, o encanto tinha acabado. Marcos Delavga era apenas o chefe que ela agora, oficialmente, detestava.
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