Notas iniciais
Espero que gostem.

Enquanto Howard aumenta a velocidade do carro, eu aumento o volume da música do meu celular. Não presto muita atenção nela, mas sei que é alguma do Blink-182. Mas não sei qual.

Encosto minha cabeça na janela quando o carro finalmente para, em frente de uma casa marrom e verde (duas cores que definitivamente não combinam). Desço do carro e encaro a casa. Mesmo tendo cores horríveis, ela ainda é mais bonita que a minha.

Howard toca a campainha, e um homem alto de cabelo preto atende.

— Vocês devem ser os Harris. Entrem.- diz ele. — Podem me chamar de Doutor Hillmann.

Vamos até uma sala com um sofá e uma cadeira. Já sei onde devo me sentar.

Depois de todos se acomodarem, minha mãe começa:

— Doutor, primeiramente, agradeço a sua boa vontade de atender meu filho. Deus reconhece essa gratidão.

Reviro os olhos, pensando no sacrifício que deve ser olhar para a minha cara. Quer dizer, ele é terapeuta, então ouvir as pessoas é a obrigação dele.

— Obrigado, senhora Harris.- ele diz, sorrindo. — Então, Ethan, por que não me fala um pouco de você?

— Não tenho nada para falar.- respondo. Howard olha para mim de jeito "diga algo ou vai apanhar em casa", então falo coisas básicas sobre mim, do tipo, jogo videogame.

— Doutor, eu quis trazê-lo aqui pois ele mal sai do quarto. Nem para comer. Tenho medo que ele esteja com depressão.- diz minha mãe.

Não digo nada a minha defesa. A primeira parte é verdade. A segunda nem tanto.

— Além de ser muito respondão. Acredito que isso ele deve ter puxado do pai.- diz Howard. Como posso puxar algo do meu pai se não vejo ele desde os dez anos?

— Já eu acho que é falta de Deus no coração. Levei ele para falar com o pastor, mas não mudou nada. Ele também tem uma teimosia em ir à Igreja, principalmente em cantar lá.

Me defendo:

— Aquilo que a Igreja faz não é cantar. É berrar e deixar os outros surdos.

Howard dá um tapa na minha nuca.

— Já falei que é coisa do pai, ou do videogame. Se ele passasse mais tempo conosco, não seria tão malcriado.

— Howard, o pai não tem nada a ver com isso.- minha mãe diz, com pena explícita nos olhos.

— Claro, você só o encontrou transando com outra mulher no carro!- ele grita. Começo a me sentir constrangido, e sinto vontade de sair. Mas por amor próprio, não o faço.

— Howard, cale-se! O menino não pode ouvir essas coisas!- minha mãe exclama, apontando o dedo para mim. Começo a olhar para baixo.

— Ele deve fazer coisas piores no quarto! Aquele vagabundo deve ter o ensinado.

Novamente, minha mãe abre a boca.

— Não fale assim dele! Com certeza, o problema está na falta de Deus. Se ele começar a ir para a Igreja, tudo estará resolvido. Ele pode comprar indulgências do Padre.- ela sugere. A este ponto, não estou mais olhando para baixo, mas sim para cima, esperando tudo a acabar.

— Aquele Padre também é um vagabundo! Aproveitador do dinheiro dos outros! A propósito, com que dinheiro você vai pagá-lo? Com o meu que não! Já o uso para sustentar esse insolente!

Minha mãe abre a boca, mas antes disso, Hillmann fala:

— Ethan, tem algo a dizer sobre isso?

Sim, tenho muito a dizer.

— Desculpe, por não ser mais uma pessoa. Eu sou um problema.- digo. Não acredito muito nisso, mas eu sinto que eles querem que eu me sinta assim.

Minha mãe soluça e começa a chorar. Tenho que admitir. Fazer os outros tristes me deixa triste. E isso é o que faço melhor.

— Finalmente ele percebeu!- diz Howard.

Hillmann pede a eles que saiam e ficamos sozinhos na sala, eu encarando a parede.

— Ethan, pode me falar um pouco sobre isso? Você ser um problema?

Não.

— Eu faço os outros tristes. Faço eles brigarem. Faço eles me odiarem. Acho que isso é ser um problema, não?

Ok, talvez eu seja um problema. Talvez eu acredite que sou um problema.

— Não, Ethan. Isso não é ser um problema. Você não provoca isso tudo.- ele tenta me confortar.

Ele passa uma hora falando sobre eu amar a eu mesmo e essa balela toda de "se aceite e não ligue para o que os outros falam de você". Sério, como se você acordasse e falasse, "huum, acho que hoje vou me amar e não ligar para o que os outros falam.

Então ele me pede algo.

— Ethan, posso ver seus pulsos?

Minha mãe falou sobre isso também?!

Erguo as mangas to meu casaco e mostro os pulsos.

— Esses cortes são antigos. Eu não faço mais isso.- me defendo, enquanto ele analisa.

— Quando foi a última vez que se cortou?- ele pergunta.

— Sei lá, há uns dois meses.- isso é verdade.

— E por que faz isso?

Acho que ele está querendo informação demais.

— Eu preciso mesmo responder isso?

— Não, se não quiser.

— Ótimo.

O tempo acaba, e eu saio da sala dele do mesmo jeito que entrei. Vazio e sem respostas. A diferença é que agora eu sei que talvez tenho sido um problema.

Volto a ouvir minha música no carro. Minha próxima consulta está marcada. Devo escrever um diário sobre como eu me sinto (sério?!).

Chego em casa e deito na minha cama, também conhecida como amor da minha vida.

Olho para os meus pulsos, e penso: por que faço isso?

Sabe, uma coisa que muitos pensam sobre a automutilação é que todos que se cortam são suicidas. Não são. Nem todos. Sou a prova disso.

Para mim, as coisas funcionam assim. Viver dói. Dói pra caralho. E cada um têm suas maneiras de lidar cóm os problemas da vida. Alguns são escrotos, outros jogam videogame o dia inteiro, outros alguns tomam café e alguns outros se cortam.

E cara, eu te garanto que não é bonito ou legal ou sinal de força se cortar, por mais que as séries e filmes e músicas tentem fazer isso parecer bonito.

Eu sei que não estou deprimido. Estar deprimido não é se sentir triste, é se sentir vazio. E não é assim que me sinto.

Sinto-me constantemente triste e para baixo. Angustiado, sozinho. E nem faço muita questão de esconder isso.

Apesar disso, de certa forma, eu ainda tenho esperança. Eu ainda gosto de fazer várias coisas. Tipo ler gibis ou ver filmes.

Eu ainda acredito que posso ser feliz. Não sei como ou quando, mas acredito que, um dia as coisas ainda vão melhorar.

E uma pessoa com depressão simplesmente não sente isto. Não têm esperanças.

E, se em algum momento eu me sentir vazio, vou saber que estou pior do que agora. Porquê melhor sentir dor do que não sentir nada

Notas finais
E aí, o que acharam?