Entre Outros Milhares
2 Capítulo 2
Sou acordado pelo barulho do despertador (maldito objeto), então me lembro que é segunda e preciso ir à escola.
O que vou falar é clichê, mas clichês são verdades. L.A High School é o inferno. Quando morrer, provavelmente é para lá que irei.
Estou no segundo ano do Ensino Médio, garanto-lhes que já vivênciei situações extremamente desconfortáveis em uma quantidade que te deixaria paranóico.
Sério, como mantenho minha mente sã? Ou meu cérebro está ficando tão insano que ainda não fui capaz de perceber?
Não tomo café. Howard está cozinhando seu café típicamente britânico (ah, ele é galês, esqueci de falar) e odeia quando alguém sequer abre a geladeira para pegar qualquer coisa.
Além disso, minha mãe está fazendo sua yoga matinal ouvindo música budista (ela é católica, e das fervorosas), e sério, um chiclete é capaz de incomodá-la.
Chego na escola e abro meu armário, tirando os livros.
Inglês, química, espanhol e matemática. Isso tudo antes do almoço.
No meu caminho para a sala, acontece a cena mais típica de bullying de todas. Alguém derruba meus livros no chão, e sem precisar levantar a cabeça, sei quem é.
Bradley Thomas é como Flash Thompson da vida real. Se você não entendeu a piada, quer dizer que nunca assistiu nenhum filme do Homem Aranha. E se você nunca fez isso, peço educadamente que feche o que está lendo isso, acesse Netflix (ou qualquer site online) e veja qualquer um dos filmes. Mas recomendo começar pela trilogia do Tobey Maguire.
— Bom dia, Bradley.- digo, recolhendo meus livros. — Como foi seu fim de semana?
— Melhor que o seu, suponho.- ele diz, escarniando da minha cara. Mas sim, ele está certo.
Me levanto, mas ele bloqueia minha saída.
— Vamos dar uma passadinha no banheiro antes.
Em um piscar de olhos, estou com minha cara enfiada na privada e sinto várias mãos pressionando minha cabeça.
Pelo cabelo, alguém me puxa. Tusso, mas antes que recupere o ar, tenho minha cara jogada de volta na privada.
Mas dessa vez, alguém dá descarga.
Tento me levantar, me defender ou fazer qualquer tipo de coisa. Mas as mãos são tão fortes que sinto meu pescoço fraquejar. Preciso de ar.
É a primeira vez que isso acontece comigo. Já roubaram minhas roupas no vestiário, me enfiaram dentro do armário (Flash Thompson) e me bateram no trocador (de leve, não machuquei). Mas nunca isso
Então, uma voz familiar chega.
Não identifico o que diz, pois estou embaixo d'água e não dá para ouvir as coisas direito aqui embaixo.
As mãos continuam. Estou aqui faz três minutos, e começo a me sentir meio tonto. As mãos ganham mais força, assim como minha necessidade de respirar e a tontura.
Finalmente, as mãos me soltam. Mas não antes de dar mais uma descarga na minha cara.
Desesperadamente, tiro minha cabeça daquele buraco onde as pessoas colocam a bunda. Tusso bastante, o que só me faz ficar ainda mais sem ar.
— Se continuar a tossir de jeito tão violento, só vai sufocar mais rápido.
Quando me acalmo, abro os olhos e vejo que era um cara do meu ano. Matteo alguma coisa. Italiano. Ele deve ter dito para Bradley e os outros me soltarem.
— Obrigado.- agradeço. Ele não diz nada. Nem me ajuda a levantar. Faço isso sozinho.
Bradley e sua trupe de babacas já tinham saído do banheiro, inclusive Matteo Riggaro (ou seria Rigazza? Ah, sei lá!).
Quando saio, vejo que todos olham para mim. É quando percebo que estou encharcado e fedendo a cocô.
É a primeira vez que me sinto humilhado de verdade. Quero que uma cratera se abra e me engula. E que de preferência não me devolva.
Não vou ficar para a próxima aula.
O sinal toca, e ando pelo corredor, com todos me encarando e sussurando. Não vou para o laboratório. Saio pelos fundos da escola, pulo a cerca e corro até o único lugar em que posso ficar sozinho.
A praia de Santa Mônica é relativamente vazia nos dias de semana, principalmente de manhã.
Sei que não tenho culpa nenhuma no que aconteceu. Simplesmente aconteceu. Poderia ter acontecido comigo ou com qualquer outro garoto ou garota. Mas foi comigo.
Olhando para o horizonte e pensando na vida, sinto alguém se aproximar de mim.
— Não devia estar na escola?- viro a cabeça. É um cara alto de cabelo castanho claro.
— Não devia estar no trabalho?- retruco.
Ele senta ao meu lado.
— Cara, sem ofender nem nada, mas você tá fedendo.- rio forçadamente. Pois é, estou mesmo. — O que fizeram contigo? Jogaram no esgoto?
— Quase isso.- mas bem que, se tivesse tido essa chance, Bradley teria feito isso.
— Cabeça na privada?- ele chuta.
Afirmo com a cabeça.
— Já fizeram isso comigo. É um saco.
— O que? Cabeça na privada ou jogar no esgoto?
— Os dois.
Me impressiona como as pessoas podem ser estupidamente más, e se acharem incríveis.
— Como você se chama?- ele pergunta.
— Ethan.- respondo.
Ficamos meio em silêncio, olhando para o mar.
— Esses caras são inúteis. Nos infernizam até querermos tirar nossa própria vida.
Quase isso.
— Não sou suicida.
Ele me olha, sorrindo.
— Que bom. Como lida com os problemas?
Me cortando.
— Ah, sabe. Finjo que não existe.- minto. — E você?
— Huum, eu já meio que fui um.- ele responde, ligeiramente constrangido.
— Suicida?
— É. Mas eu meio que dei a volta por cima. Não é a solução. É bom que você sabe disso.
Talvez.
— Cara, não quer entrar no mar? Desculpe, mas tá fedido.
— Isso não é uma coisa muito gentil de se dizer.
— Foi mal.
— Mas você tá certo. Só que ao mesmo tempo tá errado. Certo, pois eu estou realmente fedendo, mas errado em falar isso a um estranho.
— Hã?
Viro para ele de soslaio.
— Esquece.- digo.
Ficamos um pouco em silêncio. É meio constrangedor.
— Cara, você sabia que tem um buraco negro no centro da Via Láctea?- ele diz, de repente.
Quê?
De onde veio essa merda?
— O que isso tem a ver?- indago.
Ele balança os ombros.
— A ver com o que?
— De onde isso veio?
— Um buraco negro? Da morte de uma estrela gigante.
— Não. Não estou nem aí para buracos negros. Por que você falou isso do nada?
— Sei lá. Acho uma informação interessante.
Voltamos ao silêncio.
— Sabe como se forma um buraco negro?- ele pergunta. Honestamente, sei. Sei, pois como um ávido leitor de ficção científica, fã de H.G Wells, Júlio Verne, Isaac Asimov e Guardiões da Galáxia, conheço um pouco de astrônomia. Ainda tenho esperança de que um dia, conseguiremos viajar no tempo.
— Sei.
— Como?
— Com a morte de uma estrela gigante. Seu colapso pode acabar causando um buraco negro.
— Quase isso. Bem, você já sabe que é com a morte de uma estrela gigante. Consequentemente, quando uma estrela morre, um fenômeno chamado supernova acontece. Na morte de uma estrela cuja massa é três vezes maior do que a massa solar, a supernova pode formar um "caroço" dentro. Agora, se esse "caroço" se formar, ele cai sobre si mesmo, e se transforma em um buraco negro.
Ok, disso eu não sabia.
— Você é astrônomo ou o que, afinal?
Ele estala a língua e encolhe os ombros.
— Sou apenas um cara qualquer que lê revistas de astrônomia e guarda essas informações na cabeça.
É minha vez de tentar parecer inteligente.
— Sabe quem inventou o garfo?
— Não.
— Uma princesa do Império Bizantino.
— Ah.
Conversa interessante.
É, eu realmente não consigo parecer inteligente.
Mas lá vai outra tentativa:
— Sabia que Napoleão inventou a margarina?
— Agora eu sei.
Sinto então uma sensação ardente no estômago. Fome.
Me levanto, e decido ir para casa.
— Quer carona?- o cara pergunta.
— Mal te conheço. E se você for um assassino?
Ele ri.
— Posso te garantir que se for, você não seria minha vítima.
Topo. Ele parece ser legal.
— Qual seu nome?- pergunto.
— Pode me chamar de Reeves.
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