Entre Nós
14 Capítulo 14
Notas iniciais
“Bianca”
Não sei quanto tempo passou. Fico entre cochilos, tapas, humilhações, cochilos. Algumas vezes trouxeram algo parecido com arroz e um pouco de água. Eu já não sinto fome. Sinto frio. Muito frio. Nunca tive tanta vontade de tomar um banho. Olhei em volta e não havia ninguém. Depois de dias, eu estou com vontade de ir ao banheiro. Tentei levantar e caí de novo, fazendo um barulho enorme. Logo ouvi passos na escada. Meu estômago torceu na expectativa de xingamentos e agressões de novo. Baixei a cabeça e esperei. Grandes botas pretas e uma calça cargo caqui apareceram na minha visão. Ergui o olhar e vi um rosto de índio apache conhecido retorcido e um pouco triste. Ele fechou os olhos e inspirou profundamente. A noite da despedida de solteira preencheu a minha mente. É ele... Foi tudo uma armação. Sem forças, abaixei a cabeça e lágrimas escorreram.
– Você precisa de algo, minha dama? – Não notei sarcasmo, brincadeira ou qualquer coisa ruim no seu tom de voz.
–E-eu preciso ir ao banheiro... – Falei ainda de cabeça baixa. Não consigo olhar mais para ele. Ele abaixou e me ajudou a levantar. Mas eu estou fraca e meus joelhos cederam. Ele pegou-me no colo e levou-me ao fundo onde há um banheiro com chuveiro e tudo mais. Com cuidado, ajudou a erguer meu vestido e tirar minha calcinha. Sentou-me e saiu. – Vou esperar na porta. Quando acabar, te levo de volta.
Fiz o que precisava, mas fiquei ali, tentando entender. Ele me seguiu para o bar naquela noite. O que ele queria? O que ele ia fazer comigo? E por que não o fez? Eram muitas perguntas. Lembrei-me do beijo e me senti enjoada, humilhada, usada. Passei minhas mãos por baixo das pernas, de forma a ficarem amarradas na frente do corpo. Limpei-me e levantei. Parei na frente do espelho e lavei as mãos, o rosto, o pescoço. Minha imagem está horrível. Meu cabelo que estava preso, está todo embaraçado. Meu rosto tem restos de maquiagem por todos os lados. Minha bochecha direita está inchada e roxa pelos tapas. Comecei a tentar tirar os grampos do cabelo quando ele entrou no banheiro e parou atrás de mim. Com carinho, baixou minhas mãos e encarou-me pelo espelho.
– Deixa que eu faço isso. – Ele começou a tirar grampo por grampo do meu cabelo. Com todo cuidado. Vez ou outra nossos olhos se encontravam e eu via que ele agia comigo diferente de Carmem e José.
– O que você está fazendo aqui? Quem é você?
Ele parou por um segundo, pensando no que dizer. Um pequeno sorriso surgiu em seus lábios, mas não atingiu os olhos.
– Eu sou o cara que devia ter te sequestrado e não foi capaz.
– No bar?
– Sim.
– Mas qual sua ligação com Carmem e José? Por que está aqui?
– Você está na minha casa meu bem. Este é meu porão.
– Quem é você?
– Meu nome é Leonardo.
– Eu não quero saber seu nome. – Ele olhou para mim e inspirou de novo. Parece cansado. Meu cabelo já está todo solto. Ele pega uma escova numa gaveta e começa a escovar meus cabelos. Fecho os olhos. É reconfortante. Quando ele acaba, coloca meu cabelo de lado e dá um suave beijo na curva entre meu pescoço e ombro. Uma raiva me inunda e de uma vez eu me viro e dou um tapa na sua cara. Esperei a fúria dele, mas não foi isso que aconteceu. Ele fechou os olhos e passou a mão no rosto.
– Eu mereci isso. – Ele abriu os olhos e me encarou. – Eu mereço que faça pior que isso comigo. Venha, vou te levar de volta.
Ignorando a ajuda, dei a volta nele e caminhei pelo porão. Vi que no centro tem uma mesa de madeira velha, com quatro cadeiras. Vi o colchão em que tenho dormido e tive vontade de vomitar. Sentei na cadeira soltando gemidos de dor. Ele correu até mim.
– É melhor você ficar deitada, minha dama. Está muito machucada. Aqueles vadios... – Senti a raiva em suas palavras.
– Por que você está os ajudando nisso? – Sei que meu olhar foi de desespero e cheio de lágrimas, pois é exatamente o que estou sentindo: desespero e medo.
– É melhor você não saber mais do que já sabe, minha dama. Vai por mim. – Assim, com a dúvida plantada no ar, ele saiu do porão.
“Cadú”
Hoje já é terça-feira. Faz quase três dias que minha garota foi sequestrada. A todo momento o medo tenta tomar conta de mim, mas luto contra ele com atitudes. Não trabalho, não durmo, só ajo. Estamos um pouco avançados nas buscas. A Carina conseguiu descobrir a placa da van que compraram recentemente e usaram no rapto. Ela descobriu também o Maicon. Ele é um hacker muito bom e está usando tudo o que tem para buscar informações. Com a placa do carro, descobriu números de documentos e agora está fazendo buscar na vida bancária deles. Estamos torcendo para que estejam usando seus cartões. Meu cunhado, Júnior, está a mil por hora como eu. Já está completamente ligado ao Capitão Oliveira e todos da polícia. Estamos todos andando com seguranças. Ele veio morar comigo na casa nova. É como se um fosse o centro do outro, lutando para ficarmos em pé. Minha sogra tem ficado muito aqui também, fazendo comida e lanches para todos em nossas reuniões. Meu sogro tem lidado bastante com o detetive particular, Leonel, e correndo para comprar tudo o que vamos precisando de equipamentos e instalando-os. Henrique está com total acesso ao meu patrimônio e está o utilizando da melhor forma para conseguir novas informações e apoio. Armando está com a Madú. Hoje cedo ela saiu do coma. Seu lado direito está um pouco danificado, mas está conversando, comendo e sorrindo de 05 em 05 minutos para o meu amigo. Ela também não pode ajudar com muito, pois foi atingida antes de poder ver o raptor. Eu estou no meio de tudo isso, com o cérebro fervendo e o coração dilacerado.
Todos começam a chegar para o encontro diário das 15h. Mudamos o horário que antes era 19h, pois o detetive Leonel precisa usar mais tempo da noite para averiguações.
– Por que eles não ligam? Eu não consigo entender o que eles querem! – Agarro a esperança com unhas e dentes, pois agora ela já está querendo fugir de mim.
– Rapaz, eu não posso enganá-lo. – Disse o Cap. Oliveira. – Realmente o normal seria eles já terem feito um contato pedindo resgate.
– Mas eles não são superbandidos! Eles estão perdidos, sem saber como fazer. – Disse Cat.
– Oompa-Loompa mais espertinha essa! – Riu Jr. Eu sinceramente acho que meu cunhado está se apaixonando por ela. Essa troca de alfinetadas... – Eu acho que tem razão. E é assim que vamos pegá-los.
Carina saiu da sala brava e foi para a varanda. Júnior olhou para mim, chateado com o que tinha falado. Antes que eu abrisse a boca, minha Sogra Flora entrou na sala com uma bandeja de biscoitos e falou para ele:
– Olha Júnior, essa coisa de alfinetar quem a gente gosta é coisa de criança de 4ª série.
– Mas mãe! Eu...
– Nada de eu moleque! Vá lá falar com ela.
Ele abaixou a cabeça e foi obediente. Ah, coitado...
– Novidades pessoal? – Era a voz da Jú. Ela estava sumida desde sábado. Olhou para mim e deu um sorriso de desculpas. Levantei e a puxei para a roda. Ela agradeceu no olhar.
– Tenho novidades sim. – Disse Leonel. – Descobri que eles têm outro filho, mas esse é biológico. Foi criado pela avó do Paraná e veio para Campinas de volta há cerca de 01 ano.
– Um filho? Eu nunca soube de nada... – Eu nunca soube de ter um irmão.
– Pois é. Ele é cerca de 02 anos mais velho que você Carlos. Acho que ele pode estar envolvido. Desde que voltou, não se reaproximou sentimentalmente dos pais, mas estes extorquiam dinheiro dele o tempo todo. Até onde sei, ele não é nada correto. Trabalha com algo misterioso que não consegui saber exatamente o que, mas sei que seu rendimento é bastante alto.
– Tráfico de drogas? – Perguntou o Capitão.
– Não acho. O tráfico deixa muitos vestígios. Ele viaja muito, e não deixa rastros. É algo mais detalhado e profissional.
– E como você descobriu tudo isso? – A voz de Cat invadiu a conversa e sua cara estava mais relaxada. Júnior não conseguia conter o desconforto.
– Eu descobri uma ex-namorada dele. São as melhores informantes, principalmente se levou um pé na bunda ou foi traída. E essa foi os dois.
– Que maravilha! Uma rejeitada dando informação. – Era Júnior falando.
Todos olhamos para ele sem entender de onde vinha a irritação.
– Bom, até agora foi o melhor que tivemos. Sei onde ele mora e vou rondar a área essa noite. – Disse Leonel.
– Estou monitorando o cartão de crédito deles e eles têm utilizado em um mercadinho em Campinas no centro. – Disse Maicon.
– Hum, isso é bom, pois esse rapaz mora lá.
Meu coração encheu de esperança.
– Vamos invadir o local, porra!!
– Não é assim Cadú. – Disse Henrique. – Precisamos ter certeza e agir com cautela. Uma invasão pode irritá-los e eles podem matar a Bianca.
– Eu não aguento mais não fazer nada.
– Ninguém aguenta mano. Mas prefiro sofrer do que fazer uma besteira. Pense nisso. – Depois de falar, Júnior foi para a cozinha com os pais. Ele está visivelmente irritado. Olhei para Carina e ela o seguia com o olhar entristecido. O que será que conversaram?
No fim de toda a conversa, ficou acertado que Leonel começaria a vigiar a casa hoje à noite e amanhã tentaria falar com o rapaz.
Mais uma noite de espera... Eu acho que vou explodir.
Todos foram embora, e ficamos apenas eu e Júnior.
– Cara, vem tomar uma bebida. – Eu o chamei, percebendo que ele não estava bem, e sei que a culpa é da minha amada e nanica prima.
– Eu aceito mano.
– Como foi a conversa com a Oompa-Loompa na varanda?
– Mano, pelo amor de Deus! Eu nunca mais vou tirar sarro da altura dela!
– Ela te xingou por isso?
– Foi, mano! Eu fui e pedi desculpas pelo apelido e ela disse que eu era um idiota. Que nunca mais iria me referir a ela de outra forma que não fosse seu nome. – Ele passou a mão no rosto e depois tomou um gole no uísque que eu havia servido pra nós. – Eu só estava brincando cara. Foi sem maldade.
– Júnior... Vocês estão se apaixonando.
Ele arregalou os olhos para mim como um personagem de desenho japonês.
– Eu... Ela... Não...
– Cara, eu a chamo de Ommpa-Loompa, pintora de rodapé, nanica e baixinha há anos! Ela também implica comigo, mas nunca a atingiu. Tudo o que você fala a atinge porque É VOCÊ! Simples assim.
– Será? Ela é um mini-tornado. – Ele sorria com o pensamento e me vi refletido ali, pensando na minha linda e rebelde leoa.
– Tenho certeza. Relaxe, vá com calma e a ignore um pouco. Deixe ela sentir falta. Eu conheço a nanica, ela vai vir te questionar.
– Assim espero cara.
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