Entre Nós

15 Capítulo 15


Notas iniciais
Hum... Um Anjo Negro na vida de Bianca.

“Bianca”

Alguns minutos depois, Leonardo voltou para o porão com uma bandeja.

– Venha dama. Você precisa comer e se hidratar. – Ele colocou a bandeja na mesa. Nela havia um prato de refeição completo, laranja e uma imensa jarra de água.

–Eu não quero comer. Quero saber por que está os ajudando. – Eu disse, com tom de criança birrenta.

– Ei, eu já falei que é melhor ficar de fora disso. E você vai comer sim!

– Não, eu não vou Leonardo! E se você envenenou a comida?!

Ele pegou o garfo, com um pouquinho de cada coisa e comeu.

– Agora você vai comer ou não?

O cheiro estava maravilhoso e percebi que estava morrendo de fome mesmo.

– Quem fez essa comida? Aquela velha nojenta?

– Não, minha dama. Eu fiz. Não deixarei eles chegarem perto de você mais. Estão passando dos limites.

– Você jura? – Falei levantando uma sobrancelha.

– Juro.

Arrumei-me na cadeira e peguei o garfo. É muito ruim fazer isso com as mãos amarradas. Olhei para ele com cara feia e ele tirou a corda dos meus pulsos.

– Olhe, Bianca. Eu não quero te amarrar mais, mas você tem que prometer não fazer besteira. Não tenho como me responsabilizar por eles. Não estarei aqui o tempo todo.

– Eu prometo me comportar.

– Ok. Fique aí que vou buscar algumas coisas pra você.

Alguns minutos depois ele desceu as escadas com outro colchão novo, com lençóis limpos, travesseiro, um edredom, uma mala com shampoo e condicionador para cabelos cacheados, um creme para pentear, um pente novo, escova e pasta de dentes, um conjunto de moletom rosa, calcinha, sutiã, duas camisetas justas de algodão brancas, um desodorante e palavras cruzadas. Conforme ele ia dispondo tudo em cima do colchão, eu fui ficando cada vez mais de boca aberta e olhos arregalados.

– O que foi? – Ele perguntou divertido quando viu minha expressão.

– Eu sou uma garota raptada. Não deveria estar me tratando bem.

– Não estou. Você está trancada em um porão, baby.

– Mas agora vou poder ficar num bom colchão, com roupas de cama limpas e banho tomado.

Ele riu e caminhou até mim. Seu olhar pegava fogo. Ele segurou meu queixo e falou olhando fixo com seus olhos cor de ônix.

– Eu realmente acho você uma delícia nesse vestido de noiva, que mais a faz parecer uma dama sexy da realeza. Mas ele está imundo e tenho certeza que ficará mais confortável com as roupas que eu trouxe.

Minhas entranhas deram um nó. Todo meu corpo se lembrou do quão sexy esse moreno é. Mas meu cérebro perspicaz percebeu a oportunidade e agarrou. Segurei seu rosto com ambas as mãos e fiz o olhar mais triste de menina que consegui.

– Por favor... Leo... Me explica por que você está metido nisso? Você é bom. Eu sinto. – Ao acabar de falar, percebi que eu realmente acredito no que estou dizendo para ele. Eu não sinto medo dele. Nenhum. Sinto segurança. Proteção.

Ele saiu das minhas mãos e balançou a cabeça em negativa.

– Você é terrível, menina! Aproveite seu tempo. Coma, tome um banho. Mais tarde eu volto e conversaremos, pode ser?

– Desde que você leve essa porcaria de palavras cruzadas embora e me traga um baralho, pode ser.

Ele caiu na gargalhada.

– Você é linda. Até mais tarde minha dama.

E foi isso que fiz. Comi calmamente, apreciando todos os sabores. Arroz, feijão, salada, bife empanado, vários legumes. Esse moreno cozinha bem. Peguei as coisas e fui para o banho. Enquanto a água escorria, senti falta do meu sol. O que será que ele está fazendo? O que acha que aconteceu? O banho serviu para relaxar meu corpo e junto toda a dor dos espancamentos vieram à tona. Quando saí do banheiro, mal podia andar. Toda a área das minhas costelas dói absurdamente. Respirar dói. Meus braços estão com hematomas e meus joelhos estão bem ralados. Meu rosto está inchado e tenho um galo na parte de trás da cabeça. Minha boca está ligeiramente cortada. O banho foi como um choque de realidade. Arrastei-me para o colchão. Logo, ouvi o barulho, agora conhecido, de botas nas escadas.

– Você está bem?

– Não muito. – Minha voz estava fraca. – Estou com muita dor. Em todos os lados. O quanto eles me bateram? Eu não me lembro de tudo, eu acho...

– Eu não sei, minha dama. Eu não estava aqui. Só a vi hoje. – Ele veio até mim e sentou no colchão. Colocou a mão na minha testa. – Onde dói? Preciso saber para ajudá-la.

– Bom, minha cabeça tem um galo do tamanho do Pão de Açúcar. Eu estou toda roxa, com os joelhos ralados e as costelas doendo muito. – Conforme ia citando em voz alta, fui lembrando uma a uma as agressões. Sendo arrastada e ralando os joelhos no banheiro. Os tapas, pontapés e murros. Muitos nas costelas.

– Certo. Eu trouxe algumas coisas. – Ele foi até a mesa e voltou com remédios e água. – Tome isto. Vai ajudar na dor. – Peguei da sua mão e tomei.

– Agora fique deitada e quieta que vou ver seus joelhos. – Ele foi para o fim do colchão e começou a enrolar a boca larga da calça de moletom. Sua expressão ficou retorcida quando ele viu o estrago. Estava muito feito, com parte sem pele, em carne viva. Ele pegou um kit de primeiros socorros e fez curativos. Quando ele acabou, cerca de 20 minutos depois, o remédio já havia feito uma boa ação no meu corpo.

– Eu não consigo entender o por que me trata assim Leonardo.

Ele sorriu mais para si mesmo e mudou de assunto.

– Ei, eu trouxe o seu baralho. Vai querer brincar de Rouba-Monte baby?

– Eu não sou criança seu besta! Achei que poderia me fazer companhia em algumas rodadas de caxeta, truco ou tranca... é muito chato ficar aqui sem fazer nada. – No fundo eu tenho a esperança de ganhar a confiança dele e sair daqui.

– Hum... que tal jogarmos Buraco?

– Fechado! Me ajuda a levantar Leo.

Começamos o jogo e falamos amenidades. Logo eu já estava com pontuação bem maior que a dele.

– Acho que o brutamonte achou que a menininha aqui não sabia jogar.

– É. Subestimei você mesmo. Mas na próxima você tá frita!

– Que tal apostarmos?

– E o que você quer apostar?

– Se eu ganhar, você responde minhas perguntas.

– E se eu ganhar?

– Eu nunca mais faço perguntas. – Minha cara era de menina levada. Ele pareceu encantado.

– Eu aceito, mas só se jogarmos caxeta. – Ele estava com um ar selvagem. Eu tenho que admitir. Ele é realmente um espetáculo.

– Fechado!

Jogamos e é claro, eu ganhei. Recolhi o baralho e o puxei para sentar no colchão.

– Venha. Estou muito dolorida e preciso deitar. – Empurrei o colchão para a parede. Deitei e ele sentou, escorando as costas.

– Tudo bem, pergunte e eu respondo. – O rosto dele está bem mais entristecido agora.

– Qual a sua ligação com Carmem e José?

– Eles são meus pais. – Oh meu Deus!

– Você também é adotado?

– Não. Sou o filho biológico abandonado.

– Como assim?

– Eles me abandonaram com minha avó no Paraná quando eu tinha meses. Isso porque minha avó implorou para cuidar de mim. Eles iam me vender.

– Mas se eles são assim, por que está trabalhando com eles?

– Eles sabem meu segredo de vida. Forçaram-me a entrar nisso.

– Você ia me sequestrar? Estava tudo armado?

– Na verdade não havia nenhum plano ainda. Eles estavam te seguindo e sabiam que eu dançava na casa noturna para ter um álibi no trabalho. Quando eles viram você chegando ao clube, me ligaram e mandaram que eu te sequestrasse. Eu não sabia quem era você e eles me passaram a descrição. Eu sou um cara frio Bianca. Não me envolvo. Por isso gostam de mim no clube. Não me excito à toa. Eu pensei que seria tudo fácil. Era só saber para onde você iria depois dali e te raptar. Mas quando entrei no palco e a vi naquela mesa... – Ele olhava para as mãos que estavam no colo. – Uma confusão de cachos, uma energia sexy. Eu fiquei encantado. Quando fomos para os bastidores eu avisei a todos que sua mesa era minha. Eu esqueci qualquer plano de sequestro e tudo mais. Quando você se entregou e dançou comigo daquele jeito, eu só queria você. Eu pedi para a garçonete descobrir aonde você ia, mas já não era mais nada sobre rapto. Era sobre você. Eu queria você. – Ele olhou direto nos meus olhos. – Quando te vi dançando no bar, todo meu autocontrole foi por água abaixo. Aquele beijo me perturba todas as noites. Você invadiu a minha alma num simples beijo Bianca. Eu nunca conheci uma mulher tão selvagem de alma. – Seu olhar está quente como o inferno. Ele está inclinado sobre mim.

– Então por que você me mantém aqui? – Minha voz já está rouca.

Ele recuou e respirou fundo, tentando encontrar o equilíbrio.

– Carmem e José são horríveis. Sabem algo da minha vida que não pode ser revelado. Depois do bar eu me neguei a ajudá-los. Como eles mantiveram o plano, fiquei com medo do que fariam e exigi que a trouxessem para cá, para que eu pudesse ficar de olho. Quando a vi naquele estado quase me descontrolei. Eles não chegarão mais perto de você. Eles vão exigir seu resgate hoje. Tenho certeza que seu homem pagará o que for preciso e eu mesmo vou te levar para ele. Eu prometo.

Eu não respondi por alguns minutos. É muita informação. Ele realmente mexeu comigo naquele dia. Mexeu com algo escuro da minha alma. Algo rebelde. Selvagem, como ele diz.

– E qual é seu segredo Leo? – Perguntei colocando-me sentada, face a face.

– Você quer mesmo saber?

Acenei que sim com a cabeça.

– Eu... Eu sou assassino de aluguel Bianca. Eu nunca me apeguei a ninguém, somente minha avó. Eu não sei... – Ele parou e deslizou o indicador pela minha bochecha. – Eu não sabia o que era sentir algo por alguém, e isso tornou a profissão muito fácil para mim.

Sem saber muito bem o por que, eu peguei seu rosto entre as mãos e coloquei minha testa na sua. Ele me envolveu nos braços e me deitou com cuidado de volta no colchão, ficando de frente para mim, mexendo nos meus cachos espalhados pelo travesseiro.

– Você tem que descansar minha dama. Está muito machucada. – Ele fechou os olhos. – Você deve ter nojo de mim...

Eu realmente deveria sentir asco deste homem, mas eu não sinto. Nem um pouco. Afundei meu rosto em seu peito e abracei sua cintura.

– Não, Leonardo. Eu não sinto nojo de você, e eu não sei o porque.

Ali eu adormeci pela primeira vez em dias.