Algumas semanas passaram-se e a organização do casamento entrou aos poucos na minha rotina. Carina deixava tudo tão leve que não percebi quando me envolvi em assuntos como qual a cor do guardanapo na mesa, ou qual o tipo de queijo seria servido na mesa de petiscos.

Tirando-me de meus devaneios de casamento, meu telefone toca.

– Hey, gatinha, almoça comigo hoje?

– Hum, que convite tentador amor! Mas fiquei de ver a Carina. Mas você pode se juntar a nós.

– Não vou atrapalhar? Estou sentindo sua falta.

– Claro que não! Passe aqui me pegar ao 12h.

– Ok.

Eu já não estava ficando muito com meu noivo e agora com todos os preparativos para o casamento, nós estávamos nos vendo menos ainda. Mas dessa vez ele não reclamou de verdade nenhuma vez. Eu podia ver o brilho de euforia em seus olhos a cada nova decisão que eu tomava sobre o casamento.

Chegamos ao restaurante e nossa baixinha adorada já nos aguardava.

– Olá casal! É bom ter você aqui desta vez primo.

– Olha, hoje eu sou bem vindo ao Clube das Luluzinhas!

– Na verdade, nós precisamos decidir algumas coisas meio chatas e acho que pode ajudar. Quando será o jantar de noivado?

– É bom que esteja aqui Carina. A Bia não entende como é nossa família. Acho que ela não está preparada para enfrentá-los. – Seu rosto mostrava tristeza e preocupação. Eu já havia ouvido histórias sobre os pais de Cadú, mas nunca os conheci.

– Esclareçam-me algumas coisas. Primeiro, o problema deles é com todos ou só comigo? Ou diretamente com você, Cadú? Segundo, vocês preferem cancelar o jantar? Terceiro, como será no casamento? Eles irão?

– Primo, acho melhor você responder a todas estas perguntas. Na verdade, eu vou embora. Acho que vocês deveriam ir pra casa e conversar.

– Acho que essa conversa não será muito boa. — Disse, sentindo o clima pesar. — Cadú, você pode ir para casa comigo?

– Dou um jeito. Adiei esta conversa por tempo demais. – Suas palavras arrepiaram os pelos da minha nuca. Seu tom tinha algo de estranho. Senti medo do que ia ficar sabendo. Será que eles me odeiam? Mas por que?

Passei na empresa pegar meu carro e fomos para casa. Ele pegou comida para nós, e quando cheguei já estava servindo.

– Não vamos conversar Carlos?

– Não queremos uma indigestão amor. Vamos almoçar primeiro.

Todo o almoço foi em silêncio. Em alguns momentos, apertei sua mão para tranquilizá-lo. O problema era não saber o que estava atormentando-o.

Ele retirou a mesa e fomos para o tapete da sala. Pegamos um vinho e tentamos ficar mais a vontade para a conversa.

– Bianca, você deve ter percebido que eu nunca procuro meus pais. Outras partes da família, como a Carina, eu sou bem próximo. Mais as pessoas por parte de minha mãe. A família do meu pai é muito austera.

– Cadú, isso não justifica seu afastamento. Você sempre foi distante deles assim ou só depois que me conheceu?

– Sempre fui amor. Quando minha mãe biológica me teve, ela morreu devido a uma hemorragia. A história que me contaram foi que fiquei alguns meses num orfanato até um casal me procurar e me adotar. Meus primeiros 15 anos de vida foram maravilhosos. Meus pais eram ótimos. Mas quando completei 16 anos, eles me disseram que haviam descoberto meus pais biológicos e que eles eram muito ricos. Convenceram-me que meu pai biológico era um monstro e que eu deveria reivindicar o que era meu. Os próximos 5 anos foram um verdadeiro inferno. Uma guerra entre meu pai biológico e meus pais adotivos. Quando completei 21 anos, meu pai biológico meio que me sequestrou. Na verdade ele fez isso para poder conversar comigo e contar sua versão dos fatos. Ele disse que quando minha mãe morreu eu fui roubado do berçário por uma enfermeira. Ele ficou desesperado. Perdeu a mulher e o filho de uma vez! Procurou por muitos anos, mas não conseguiu me encontrar. Quando eu reapareci adotado, ele ficou em choque e voltou a investigar meu sumiço. Ele descobriu que a mulher que me batizou como madrinha era a enfermeira de plantão no berçário em que nasci, e que meus pais já tinham a ficha suja por estelionato. Eles me roubaram já pensando em roubar o dinheiro do meu pai quando eu chegasse a idade adequada. Depois de tudo isso eu nunca mais falei com meus pais adotivos e retirei seu sobrenome do meu nome. Aproximei-me do meu pai biológico, mas ele faleceu há 01 ano por problemas cardíacos. Eu ainda mantenho meus primos e alguns tios por parte de meus pais adotivos mais próximos, mas o restante da família me condena pelos anos de criação e acham que eu deveria sustentar meus pais adotivos.

Bum! Bomba! Muita informação. Fiquei alguns minutos processando tudo.

– Meu sol, quanto sofrimento. Eu nunca imaginei nada disso. Sempre achei que você fosse bem de vida pelo trabalho que exerce. Nunca sou nada disso de herdeiro e tudo mais.

– Eu sei minha garota. Eu trabalho por que gosto e ocupa minha mente. Todo patrimônio do meu pai ficou para mim, mas nunca tive coragem de tentar tocá-lo. Abri as ações de sua empresa, vendi para a diretoria e continuei apenas como majoritário.

– Entendi. Bom, vamos canelar o jantar. Vamos fazer um almoço de domingo para as pessoas queridas da sua e da minha família, o que acha?

– Acho que me sinto melhor. Sei que eles irão querer ir ao casamento e fazer parte do altar, mas eu não queria. Não consigo ignorá-los simplesmente. Tem algo em mim que diz que eles me amaram pelo menos um pouco. Mas também não aceito seus motivos, e não quero eles fazendo parte de nossa vida.

– Claro que sim amor. Que tal deixar seus pais comigo?

– Você faria isso por mim?

– Claro meu sol! Eu amo você. – Peguei seu rosto entre as mãos e vi ali um menino ferido. Meu menino.