Entre Nós
18 Capítulo 18
Notas iniciais
“Cadú”
Havia muito barulho. Acordei num salto e corri para a sala. A cena era toda estranha. Leonel estava posicionado a frente de um cara grande que nunca vi. O cara estava com a cabeça baixa e seu rosto parecia desconsolado. Mas meu cunhado Júnior estava sendo segurado pelo meu sogro, Henrique e Armando. Júnior está descontrolado, tentando matar o desconhecido. Madú está aqui com Jú, Flora e Cat e todas estão com cara de horrorizadas.
– O que está havendo?
– ESSE FILHO DA PUTA SEQUESTROU A MANA, MEU!!! – Júnior gritava e tentava ainda mais sair dos braços dos meninos.
– Como assim? – Eu senti a raiva ferver em meu corpo e dei alguns passos no sentido do homem. Ele ergueu o olhar e vi que estava chorando.
– E por que está chorando então seu escroto? – As palavras saíam como grunhidos de raiva e entre dentes de mim.
– Carlos, ele não sequestrou ninguém, mas ele pode ajudar. Só que esse louco precisa parar de tentar bater nele! – Disse Leonel apontando Júnior.
– Júnior! – Eu gritei. Ele olhou para mim. – Cala a boca e senta no sofá. – Eu disse frio e apontando o sofá. Ele fez o que mandei.
Olhei em direção ao estranho, agora que Leonel saiu de sua frente. Ele estava realmente chorando silenciosamente. Seu rosto parece cheio de dor. Seu ombro está enfaixado. Ele olha no fundo dos meus olhos.
– Você é o homem dela, não é? – Ele perguntou.
– Sim, eu sou. E você precisa começar a falar agora.
– Olhem, o Leonardo disse que... – Começou Leonel, mas eu o interrompi, ainda olhando firme nos olhos do homem.
– Ele quem vai falar Leonel. Quero ouvir da boca dele. Leonardo, certo?
Ele fez sinal de sim com a cabeça e respirou fundo.
– Eu não vim antes até vocês por que minha vida também está em jogo. Eu sou filho biológico de Carmem e José. Eles me abandonaram muito cedo e nunca tive contato com eles. Até que me descobriram e começaram a tentar se aproximar. Viram que eu tinha dinheiro. Diziam que eu os devia. Eu me neguei, é claro. Não sei como, mas eles descobriram meu trabalho secreto e começaram a chantagear-me. Eu cedi e dava aos poucos dinheiro para eles. E estava tudo bem, até que eles vieram com um papo de sequestrar uma garota para tirar o dinheiro de você. Eles me ameaçaram e eu disse que faria. Não deixamos nada combinado, mas eu apenas disse que pegaria a garota e a levaria onde eles queriam. Mas na despedida de solteira de Bianca ela foi justamente para o clube onde eu danço para ter um álibi no meu trabalho. Eles a seguiram, e quando viram que ela entrou lá, me ligaram e disseram para agir. – Ele passou as mãos no rosto, tentando se acalmar. – Eu achei que seria fácil. Eles me passaram a descrição e disseram que seria uma despedida. As mesas nesses casos são reservadas e diferentes. Era só saber quem era ela e agir. Mas quando eu subi no palco e a vi, meu mundo desmoronou. Foi como uma pancada. Eu a puxei para dançar comigo, era parte do trabalho, mas ela entrou na minha pele. Eu não fiz nada e disse a eles que não faria. Eles me ameaçaram, mas isso já não importava mais. Eles perceberam que eu havia me decidido e disseram que iam continuar com o plano e que se eu fizesse algo, tinha alguém contratado só para matá-la. Eu fiquei louco. Não sabia o que fazer. Pedi que eles a escondessem na minha casa então, para que eu tivesse o controle do que eles estavam fazendo e depois, quando você pagasse o que queriam, eu mesmo a traria de volta. Mas eles são uns vadios! – Ele está vermelho de raiva agora e tremendo. Ele ergueu o olhar para mim, olhando na minha alma. – Eles a machucaram cara. Muito. Quando cheguei fiquei apavorado. Eles disseram que ficariam o dia todo fora e comprei tudo o que podia para ajudá-la. Fiz curativos. Cuidei dela. – Havia adoração em suas palavras e eu não consegui sentir raiva daquele homem. – Ela é tão doce. Mas eu não podia sumir com ela assim. Comecei a arquitetar um plano para tirá-la dali e avisá-lo quando ela estivesse longe e em segurança. Vocês teriam que sumir. Não sei quem eles contrataram e precisava descobrir. Depois de cuidada, eu a deixei para comprar algumas coisas para sua fuga, e quando voltei estava tudo muito pior. Eles voltaram antes. Eles haviam a batido muito mais. Ela estava quase inconsciente. Desfigurada. Eu a ajudei e decidi que ia tirar ela dali naquele momento. Eles então voltaram e eu discuti com eles. Entramos numa briga e José atirou em mim. Quando caí no chão de joelhos, Carmem me deu uma pancada na cabeça e fiquei desacordado. Acordei com este cara me ajudando e me levando para o hospital. – Ele apontou Leonel.
Era muita coisa para entender. Ela está viva, mas está espancada. Oh Meu Deus, minha garota. E esse cara a ama. Só quem ama pode fazer tudo isso. Mas não a ama mais do que eu. E agora eu quero matá-lo por sair de perto dela quando prometeu a proteger. Eu sento e coloco o rosto nas mãos.
– Então, — Disse Leonel – eu estava vigiando do lado de fora quando vi o casal de velhos sair correndo com a caminhonete e desconfiei. Dois policiais estavam disfarçados comigo e seguiram o carro enquanto eu entrava na casa. Chamei a ambulância e levei esse rapaz. Ele acordou no caminho e pediu para eu esperar, que precisava de ajuda. Foi o que eu fiz. No hospital tiraram a bala dele e ele tem um pequeno traumatismo, mas não quis se tratar. Disse que precisava falar com você Carlos.
– E os policiais? – Perguntou Henrique.
– José os fechou e eles capotaram o carro. Estão hospitalizados. Porém eles conseguiram atirar um rastreador no carro e sabemos onde ela está. Eu estava vindo para cá para avisá-los da ação. – Disse Cap. Oliveira.
– Então vamos logo com isso! – Eu gritei.
– Não podem. – Disse Leonardo. – Precisamos ser espertos e usar a oportunidade para descobrir quem está de tocaia para eles, ou ela vai morrer... – Sua voz saiu apenas em sussurro.
– Ele tem razão. – Disse o Capitão. – E o que você faz Leonardo? Não gosto de trabalhar com quem eu não conheço.
Sem hesitar, ele respondeu:
– Sou assassino de aluguel. – Todos os olhos viraram para ele. O Capitão rio.
– Você foi do exército filho? – Perguntou o Capitão.
– Sim, Capitão. – Um pequeno sorriso dançou em seu rosto.
– E, só por um acaso, seu apelido é Leão? – Olhei o Capitão e vi que ele estava um pouco contente demais.
– Oh, droga. – Murmurou Leonardo, balançando a cabeça em negativa e o Capitão caiu na gargalhada.
– Seu merda! Eu achei que você havia morrido! Eu sabia que tinha virado algo do tipo quando foi expulso do quartel. Vamos precisar de você. Acha que pode atirar com esse braço?
– Como assim? Você vai levar esse salafrário junto? – Júnior não se conteve e ficou em pé gritando.
– Vou. Ele é só o melhor atirar de elite que o exército teve nos últimos dez anos filho. Ele vai ficar de tocaia.
– Atirador de elite? – Perguntei. Ele fez que sim com a cabeça.
– E por que foi expulso?
– Ele espancou o general por tentar lhe fazer usar um simples revólver 38.
– Não é verdade. – Interveio Leonardo. – Mas nunca ninguém quis me escutar. Aquele filho da mãe estava tentando me matar há dias por eu ter descoberto sua armação com um traficante de drogas.
Todos arregalaram os olhos.
– Olhe, eu não sou um cara legal. Não me apego, nem tenho dó das pessoas. A única que invadiu minha alma foi Bianca e é por isso que estou aqui. – Ele olhou pra mim. – Eu não quero tirá-la de você nem nada cara. Só a quero viva e feliz.
Fui até ele e demos as mãos, selando um acordo silencioso, mas de uma força enorme. Ambos amamos aquela mulher.
As próximas horas foram todas planejando a invasão. Leonardo pode usar seus contatos e descobriu quem os velhos haviam contratado e ficou responsável por matá-lo. Toda a polícia estava envolvida e tudo foi pensado nos mínimos detalhes. Usaríamos o dinheiro para despistá-los e ganhar tempo, descobrindo se ela realmente está lá. O rastreador mostrou com precisão a localização. Tudo certo. Agora é só a ação.
Algumas horas depois...
Estou parado em frente ao casebre. A caminhonete está na garagem. Faço uma oração silenciosa pela minha garota. Sei que a polícia está esperando a espreita e que Leonardo já localizou o outro atirador. Foi mais fácil do que imaginávamos. Ele estava apostos e era bem inexperiente. Leonardo não teve piedade.
Agora ele está do meu lado no carro e decidiu entrar comigo.
– Vamos homem. – Ele disse. – Não sei quanto tempo ela ainda vai aguentar.
Batemos na porta e ele se esconde. José a abre e me puxa com força para dentro.
– O que está fazendo aqui bastardo! Eu disse que ligaria! Como me achou?
– Não importa. Seu dinheiro está aqui. – Joguei a mala no chão a seus pés. – Eu quero a Bianca AGORA!
Carmem apareceu e correu até a mala. Abriu e confirmou o dinheiro.
– Eu sabia que no fim você nos entenderia meu filho.
– Onde ela está?
– No quarto, meu querido. – Disse a velha. – Descansando confortavelmente.
Tentei ir para o quarto, mas José me bloqueou apontando uma arma.
– Acha que sou idiota filho? Se você está aqui, a polícia também está. Todos nós entraremos no carro e você vai pedir para não nos seguirem entendeu?
– Não! Eu vou pegá-la agora! – Eu comecei a ir em direção ao quarto.
José abaixou a arma e atirou na minha perna e caí no chão. Logo ouvi um barulho enorme e vi Leonardo na minha frente com uma arma apontada para José.
– Sou profissional José. Da última vez eu estava desarmado.
– Calma filho. – José disse colocando as mãos para cima. Mas Carmem apareceu, apontando uma arma para minha cabeça.
– Dê um passo em falso e mato seu irmão, meu filho. – O rosto de Leonardo se contorceu e ele largou a arma. Nesse mesmo instante começamos a ouvir barulhos e gritos abafados. Todos os meu pelos se eriçaram. José foi até Carmem e pegou sua arma, mantendo uma arma apontada para mim e outra para Leonardo.
– Querida, vá e traga a garota para eles verem antes de matarmos os três.
Ele virou para nós.
– Leonardo, ajude seu irmão Carlos a ficar em pé e fiquem encostados na parede. – Leonardo fez o que ele pediu e demos passos para trás até sentirmos a parede em nossas costas. Então todo o sangue do meu rosto sumiu e senti Leonardo endurecer ao meu lado. Carmem entrou com um caixão na sala. Quando o abriu, eu achei que ia morrer. Minha garota está lá. Toda ensanguentada, com o rosto desfigurado por vários inchaços e hematomas. Sua roupa estava rasgada. Ela ergueu o rosto e olhou para mim e sorriu. Depois olhou para Leonardo e fechou os olhos, parecendo aliviada. Carmem agarrou seus cabelos e a jogou de volta no caixão.
Leonardo me soltou e gritou.
– Vocês são loucos! Deixem-na ir! Somos nós que vocês querem e estamos aqui!
– Não meu filho. Queremos o dinheiro de vocês e isso eu ainda não tenho.
Íamos falar mais, mas o som de sirenes e megafones invadiu a casa.
– Seus imbecis! Eu sabia! Vocês vão pagar! – Ele virou as armas para Bianca. No mesmo instante Leonardo correu e se jogou na frente. As balas o atingiram no peito e ele caiu sobre ela no caixão. Eu me joguei para frente e atingi José. Ele caiu e soltou as armas. Carmem tenteou as pegar, mas consegui ser mais rápido. Em uma grande confusão, a polícia entrou e levou os dois. Arrastei-me para perto de Leonardo e pude ouvir.
– Leo, eu estava tão feliz que está vivo... por que fez isso? – Disse Bia com a voz sofrida.
– Eu a amo menina. Eu não estou triste de morrer. Eu fiz muitas coisas ruins. Prometa-me que vai deixar seu homem cuidar de você. Meu irmão é bom. Eu confio nele. – Leo tossiu e desmaiou.
Os paramédicos chegaram e fizeram seu trabalho rápido. Disseram que ele ainda estava vivo e correram. Em outra ambulância colocaram minha garota. Depois, vieram até mim.
No caminho para o hospital repassei tudo, e o que mais me preocupava era se meu irmão estaria vivo e se minha garota teria alguma sequela. Meu irmão? Isso soa tão estranho... Não tenho raiva. Minha garota é apaixonante. Eu sorri com o pensamento e apaguei.
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