Entre Nós

12 Capítulo 12


Notas iniciais
Não me xinguem!!!!Amo vcs :D

“Bianca”

Sinto-me muito pesada. Tento me mexer, mas não tenho muito sucesso. Abro os olhos, mas a luz me incomoda e fecho-os rápido. Minha cabeça dói e tento levar a mão até ela, mas noto que está amarrada atrás de mim. Sinto um cheiro horrendo. Meu estômago dói. Tento mais uma vez abrir os olhos devagar. Parece que estou acordando de um coma.

– Ei, cadela. Que bom que está acordando. – É uma voz macia, como a de uma avó. Mas percebo certo cinismo no tom. Meu cabelo é puxado brutalmente para trás pelo coque e vejo seu rosto. É Carmem.

– Não vai me dizer bom dia, querida? É muita fala de educação com os mais velhos. – Ela me solta e seu sorriso me causa arrepios. Aos poucos vou reativando a memória. O banheiro, a Madú – oh meu Deus, como ela está?

Tento me sentar, mas me sinto muito fraca. Percebo que estou em cima de um colchonete muito sujo e fedido. Olho em volta e parece um porão. Tem pouca luz. Começo a espirrar.

– Ah, não! A vadiazinha tem alergia? Vai morrer asfixiada meu bem? – Olho e vejo José. – Eu disse que você iria se arrepender.

– Posso saber o por que de tudo isso? – Tento soar brava, mas estou muito fraca e acaba saindo somente um sussurro.

– Como se você não soubesse! Ele nos deve! Nós o criamos e ele acabou com nossos planos e não nos deu nada em troca. ELE NOS DEVE! E vai pagar em troca de você, queridinha. – O tom de voz de José era raivoso.

– Vocês são monstros. Odiosos. – Minha voz era muito baixa e cheia de raiva. Carmem veio até mim e deu um chute das costelas. Perdi o ar e me curvei. Senti alguém me pegar pelo corpete do vestido e dar um chacoalhão seguido por uma pancada com a minha cabeça no chão. Tudo ficou escuro de novo.

“Cadú”

Estou deitado no tapete da sala. Todo meu corpo treme. Eu já não choro mais. Esgotei todas as lágrimas durante essa noite. O local está cheio de gente. Sei mais ou menos quem me cerca, mas tudo é um imenso borrão. Meu peito dói tanto que não consigo me mexer. Meu coração vai explodir. Sinto uma mão em meu braço e olho para o lado.

– Eduardo, meu amor. Você precisa reagir. – Encontrei o rosto nervoso de Carina. Sem poder falar, apenas gesticulei que “não” com a cabeça. Mas eu queria gritar “Não! Eu não vou reagir! Não vou conversar! Não vou me mexer até ver minha garota!”.

– Eu nem imagino a dor que está sentido querido. Mas Bianca precisa de você. Ela confia em você e confia que vai encontrá-la. Como vai fazer isso largado nesse chão? – Fechei os olhos buscando forças.

– Ela confiou em mim e eu falhei... – As últimas palavras saíram sufocadas. Carina levantou e colocou as mãos na cintura.

– Ah, tá, big boy! E por isso agora você vai desistir e deixar ela morrer? – Ela gritou com toda a força e deu certo. Eu não posso ficar aqui e deixar minha menina morrer. Sentei no chão e abracei as pernas da minha prima, sentindo novas lágrimas caírem pelo meu rosto. – Obrigado Cat. – Ela beijou o topo da minha cabeça e me ajudou a levantar. Quer dizer, apenas tentou me ajudar já que é do tamanho de um Oompa–Loompa.

Caminhei até a cozinha e peguei uma enorme e gelada Coca-cola. Cafeína vai ajudar. Olhei meu apartamento e me dei conta de todos que estão aqui. Num canto da sala, estão meus amigos Henrique e Armando ligando para detetives particulares para ajudar no caso. Avisamos a polícia ontem, mas o sistema todo é muito lento. No sofá, meu sogro e minha sogra estão abraçados e totalmente arrasados. Não consegui olhá-los por mais que um segundo. Carina estava servindo alguns petiscos, café, e outras coisas. A Juliana a ajudava, muito provavelmente tentando não pensar demais. Logo me veio a imagem de Maria Eduarda caída no banheiro e fui até os meninos obter alguma notícia.

– Rapazes, onde está Maria Eduarda?

– Carlos, ela está internada em estado muito grave. Levou uma grande pancada na cabeça que causou um traumatismo e formou um coágulo. Está inconsciente. – Armando falava e balançava a cabeça em negativa. – Tão linda... – Ele fechou os olhos. Algo na forma como ele falou me chamou a atenção por um minuto. Henrique pegou meus ombros e olhou em meus olhos.

– Cara, temos muito a fazer. Você está preparado? Precisamos de você. – Era o que eu precisava: Força. Como um sinal, meu corpo todo se aqueceu e o rosto da minha menina, com cabelos rebeldes quando a vi pela primeira vez veio até mim, enchendo minha mente. Eu preciso buscá-la nem que seja no inferno.

– Eu estou contigo, cara. Vamos precisar de toda a ajuda. Sei que Armando está conosco, mas sei mais alguém que pode nos ajudar. – Olhei pela sala procurando um homem que idolatrava minha menina tanto quanto eu, mas de forma diferente. O encontrei em um canto. Sentado no chão. Encostado na parede, braços em cima dos joelhos dobrados e a cabeça curvada entre eles. Eu senti o que ele sentia. Caminhei devagar e sentei ao seu lado. Ele levantou o olhar e vi que tinha chorado muito, mas assim como eu, suas lágrimas haviam secado. Dor foi o que eu vi no lugar. Fazendo muita força, ele falou comigo.

– O que vamos fazer cara? – Sua voz estava rouca e dolorida.

– Eu preciso de você Júnior.

–Eu estou morrendo de medo, cara. – Seus olhos encheram de lágrimas. Ele disse o que eu tentava negar para mim mesmo.

– Eu também cunhado. Eu sinto que vou morrer a qualquer momento. Precisamos buscá-la, nem que seja no inferno.

O rosto dele se iluminou e sei que dei a ele a força que recebi de Henrique. Júnior ama a irmã intensamente. O relacionamento dos dois é sem explicação. É como se ele fosse sua verdadeira alma-gêmea, alma-irmã. São atrelados em níveis que só eles entendem. Eu sei que sou o amor da vida dela, seu homem, seu protetor. Mas ele é sua verdadeira metade. Levantei e estiquei a mão a ele. Ele levantou e me abraçou.

– Vamos nessa cara.

Fui até meus sogros e ajoelhei na frente deles. Minha sogra abraçou minha cabeça e afagou meu cabelo. Meu sogro abraçou meu ombro, num aperto de conforto.

– Eu... Eu vou trazê-la de volta. Eu prometo — Tentei dizer calmo, mas saiu completamente abafado pela dor.

– Nós sabemos, meu filho. – Minha sogra beijava minha cabeça e senti-me reconfortado como nunca antes.

– Você agora é nosso filho também Carlos. Somos uma família. Vamos trazê-la juntos. — Disse meu sogro, olhando em meus olhos.

Uma imensa calma tomou conta do meu coração. Agora eu tenho uma família. Meu cunhado sentou ao meu lado e juntou-se ao abraço. Ficamos assim por alguns minutos e senti minhas energias revigoradas.

– Já que são meus pais, preciso fazer um pedido. Vão para casa, tomem um banho e descansem. Vou precisar de vocês muito em breve e terão que estar fortes. – Minha voz era forte e consistente. Levantei e os puxei comigo. Não precisei falar mais nada. Eles me abraçaram e foram embora. Júnior ficou e eu esperava por isso. Chamei os meninos e as meninas para a cozinha.

– Precisamos nos unir. Não vamos esperar a polícia, vamos ajudá-los e mantê-los atualizados. Eles têm recursos que não temos e vice-versa. — Eu disse tentando raciocinar.

– Eu concordo primo. — Disse Carina. — Mas pense. Quem poderia fazer isso? Você tem alguém que queira prejudicá-lo? Algum inimigo? – Ela virou para Henrique e Armando. – Vocês trabalharam com ela. Ela fez inimigos? – Virou para o Júnior. – E você, bonitão? Tem alguém que poderia fazer isso?

Olhei para Júnior e vi que estava corado. Olhei para Carina e ela tinha um pequeno sorriso dançando nos lábios. Hum.

– Não. – Henrique se pronunciou. – Trabalho com Bia há anos e ela é ótima! Todos a adoram. Até os concorrentes... – Ele sorria com a lembrança, eu acho.

– Todos a adoramos. Por onde ela passa só deixa amigos. – Armando falou, ainda muito triste. Tem algo errado com ele...

– Ei, Oompa–Loompa. – Júnior falou e agora sorria descaradamente para minha prima. Eu sorri com o apelido que eu mesmo usava com ela e ela odiava. Ela olhou muito feio para ele.

– Oompa-Loompa é sua avó, seu imbecil!

– Ok, baixinha. – Ele colocou as mãos ao lado do rosto em rendição. Não pudemos deixar de sorrir. – Só queria dizer que a mana não tem inimigos. Ela é simples e humilde. Brava muitas vezes, mas nunca desrespeitosa. Não imagino quem tenha feito isso. – Seu rosto se escureceu na dor novamente.

– É... – Eu disse relembrando. – Ela pode ser muito brava. A última vez que a vi assim, ela... – Então tudo se iluminou na minha mente, junto com a memória. – É isso! Desgraçados. – As palavras saíram com raiva e entre dentes.

– Calma, cara. Explique. – Henrique colocou a mão em meu ombro.

– Meus pais de criação, cara. Foram eles. Aqueles ordinários! – Eu estava de punhos fechados sobre o balcão.

– Como assim primo? – Disse Cat. – Como seus pais adotivos teriam feito algo assim com ela? Sei que são detestáveis, mas daí a sequestrá-la?

– ADOTIVOS O CARALHO! – Eu gritei, sem conter o ódio. – Você é minha prima adotiva, porque me ama de verdade e cuida de mim Carina. Aqueles desgraçados são meros pais de criação. Uma farsa. Não merecem o título de pais adotivos. Eles vieram aqui na semana passada cobrando sua presença no casamento. Nós discutíamos e ela chegou. Eu já havia pedido para ela me ajudar a lidar com eles, e contei tudo. Quando ela os viu, ela fez o que pedi. Ela foi tão firme e tão brava. Os enxotou daqui. O João disse que ela iria se arrepender, mas eu não tinha ideia... – E desabei no chão de novo, encostado no balcão, mãos no rosto. É tudo culpa minha. Logo estavam todos à minha volta. – Se eles querem meu dinheiro, eu dou tudo! Tudo!

– Calma, irmão. — Interveio Júnior. — Nós vamos recuperá-la. O detetive já está em ação e nós vamos entrar também. – Ele virou para Cat. – Oh Oom... Carina. Poderia averiguar com sua família se sabem onde eles estão morando? Onde trabalham e tudo mais? Eles não são sequestradores natos. Vão cometer falhas.

– Ok, gigante imbecil. Eu posso fazer isso. – Ela agachou no meio das minhas pernas. Percebi então que ainda estávamos todos vestidos para festa. – Ei, mané. Eu te amo! E já aprendi a amar a Bia. Vou fazer o meu melhor. – Ela envolveu os braços no meu pescoço dizendo adeus. Levantou e falou com todos. – Vejo vocês aqui, hoje, as 21h para atualização do caso, certo? – Antes de ouvir a resposta, saiu pela porta. Nós levantamos e fomos para a sala.

– Deus, ela sabe ser um furação mesmo com esse tamanho! – Júnior falava com espanto e admiração ao mesmo tempo.

– Você não viu nada rapaz. – Disse Henrique. – Eu e Armando vamos também. Tomar um banho, tirar um cochilo e vou pedir para o detetive vir também hoje à noite. – Ele veio até mim e colocou a mão no meu ombro. – Força cara.

Armando veio também e apertou meus ombros.

– O que você tem cara? – Eu perguntei. Mas ele abaixou a cabeça e fez sinal de que não queria falar. Fiz que sim o acalmando e ele foi embora.

– Vamos mano. Você precisa de um banho e depois, eu também. – Júnior me arrastou para o quarto.

– Eu queria entender o que se passa com Armando. – Eu disse mais para mim mesmo, mas Júnior ouviu e respondeu.

– Acho que foi amor à primeira vista, mas numa hora muito ruim.

Olhei para ele sem entender.

– Na festa ele estava totalmente encantado com Maria Eduarda. Eu também nunca a tinha visto sorrir tanto. Quando tudo aconteceu, fomos eu e ele que chegamos até você quando gritou. A cena era horrível cara. A Maria largada no chão com todo aquele sangue. Você de joelhos com a tiara nas mãos. Foram apenas dois segundos para entendermos e menos de dois para agirmos. Eu peguei você que começava a desfalecer e tirei de lá. Ele correu para ela e ficou todo o tempo junto. Foi para o hospital junto com os pais dela e tudo mais.

Pensei na minha garota e entendi completamente Armando. Eu me apaixonei por ela no instante em que a vi, mesmo entendendo isso só depois.

Tentei esvaziar a minha mente e tomei um banho bom e rápido. Sentei na cama e me envolvi em pensamentos.