Entre Mundos

10 CAP 10 Um pedido de ajuda


A noite estava avançada e o inverno era rigoroso. A neve caía como plumas sobre as árvores e cobria tudo ao redor, dando a impressão de um manto branco. O vento assobiava, parecendo almas lamentando pelo vale. Na lareira do quarto de Margha, as chamas trepidação dançavam de forma selvagem e hipnótica; ela observava aquela luminosidade vibrante. No castelo inteiro não se ouvia som algum, apenas o estalar da madeira sendo consumida pelo fogo. O cheiro de parafina e gordura animal preenchia o ambiente, misturado ao aroma suave de incenso de rosas vermelhas que adocicava o ar.

Quando Porthos atiçou o fogo e olhou para os dois, viu que ambos permaneciam imersos naquela luz, como que despertando de um encanto. Ele observou os dois e pensou que, mesmo não tendo sido criados juntos, tinham muito em comum e reações muito semelhantes. Então perguntou:

— À quoi tu penses?*

Os gêmeos olharam para ele ao mesmo tempo, como que despertando de um sonho. Depois voltaram a olhar para as chamas, mas ela virou o rosto e disse:

— Ela está sofrendo muito. Precisa de mim!

— Eu senti isso tão vividamente, Margha — confirmou o rapaz.

Passaram-se muitos dias longe de Solveig. Ela sentia uma saudade imensa de Bô, do seu jeito carinhoso e do seu chá sempre quente e sábio; de Kelly e suas travessuras; da ilha, da brisa salgada e de caminhar pela praia. Até mesmo seu avô ranzinza fazia falta. Queria voltar para casa, mas não queria se separar do irmão — essa necessidade crescia a cada momento.

Porthos percebia o conflito da amiga e isso o preocupava profundamente. Queria poder ajudá-la, mas ele também sentia saudades da ilha, pois ali já havia morado por muitos anos e considerava aquele lugar seu lar. Sentia que pertencia àquela terra e àquelas pessoas; não desejava estar em nenhum outro lugar a não ser ao lado de sua amiga. Então perguntou:

— Ma chérie, o que pensa fazer?

— Na verdade, não sei — respondeu ela, com uma tristeza na voz que partiu o coração dos dois homens que estavam ali. Olhou para ambos com os olhos marejados e continuou: — Gostaria tanto de ter uma resposta.

— Não precisa ter todas as respostas agora, chérie — disse ele, beijando-lhe o topo da cabeça. — Durma e descanse. Amanhã sua mente estará mais tranquila e você conseguirá ver com mais clareza.

Malcon acenou com a cabeça em concordância. Os dois saíram do quarto; o irmão beijou-lhe a face e se retirou.



O sol brilhava alto no céu e aquecia a pele da garota deitada na areia macia e dourada. O som das ondas batendo suavemente na praia a relaxava; tudo parecia em perfeita harmonia. Mas a calma foi interrompida quando ouviu, ao longe, uma voz conhecida soluçar baixinho. Margha aproximou-se e viu Kelly apoiada no ombro de Karl, ali mesmo na praia de Solveig. Sentiu a dor da amiga como se fosse sua própria e ouviu seu lamento:

— Sinto tanta falta dos meus pais… se ao menos Margha estivesse aqui… — Não conseguiu terminar e voltou a chorar.

Karl abraçou-a com carinho e perguntou:

— Não seria possível chamá-la para voltar mais cedo?

Kelly enxugou as lágrimas e sorriu com fraqueza:

— Obrigada por estar comigo. Mas não precisa ficar aqui por mim. Vou aprender que este não é mais apenas um lugar de férias. Agora é o meu lar. — E voltou a chorar.

Ele abraçou-a novamente com fraternidade:

— Não me importo de ficar mais um pouco. Você tem sido uma amiga desde que cheguei, e é o mínimo que posso fazer por você.

Ficaram ali abraçados. Margha observava tudo e sentia uma saudade imensa. Sabia que era hora de voltar. A imagem dos dois foi se desfocando diante de seus olhos; uma brisa suave pareceu levá-la para longe, subindo acima da praia, acima da ilha, e sentiu o calor do sol aquecer-lhe as mãos estendidas.

Despertou de repente, como se tivesse tocado as chamas da lareira. Estava de volta ao castelo de Theophrastus, em outro tempo, longe de todos. Mas também sentiu uma vontade nova e suave de estar perto de Karl, da sua gentileza — um sentimento que a fez corar ao pensar nele.

Caminhou até a cama quando ouviu batidas à porta — rápidas e urgentes. Perguntou:

— Quem é?

— Sou eu, Margha. Abre, por favor! — Era a voz de Malcon, aflita.

Ela abriu a porta e ele entrou, dizendo de uma só vez:

— Sua amiga está sofrendo muito e precisa de você. Vi e senti tudo através do seu sonho. Temos que ir para a ilha agora!

Margha olhou confusa:

— Não vou a lugar nenhum sem Porthos.

Nesse instante, o amigo apareceu, respirando com calma mas pronto:

— Je suis prêt!*

Sentiu alívio ao ver que o irmão já havia avisado o espadachim. Precisavam partir imediatamente. Tinha tantas perguntas: como Malcon poderia ter visto seu sonho? Teria ela viajado em espírito novamente? Mas não havia tempo. Seguiram até o quarto dele, que era parecido com o seu, embora com cores e mobiliário um pouco diferentes.

Diante do espelho mágico, Theophrastus os esperava, trazendo consigo um livro de capa de couro — o livro de sua mãe. Entregou-o a Malcon, que o abraçou com emoção:

— Theo, venha conosco! Preciso de você!

— Vá, meu filho. Sua irmã precisará de você mais do que nunca agora. — Abraçou os dois diante do espelho e continuou: — Estão crescendo em poder, mas enfrentarão provações que não posso prever. Protejam-se. Estejam atentos ao aprendiz de Sören — ele está à procura de vocês!

Margha perguntou, antes que a névoa os envolvesse:

— Como o reconheceremos?

— Ele terá o mesmo símbolo que está na capa deste livro, em algum lugar do corpo ou em um amuleto. Fiquem atentos.

A névoa os envolveu e o espelho voltou a refletir apenas o velho mago, que murmurou para si mesmo:

— Sören está mais perto do que eles imaginam. Que Merlin os proteja.



O espelho começou a brilhar naquele quarto tão conhecido. Uma luz arroxeada tomou todo o ambiente e, aos poucos, três silhuetas surgiram do nevoeiro. Quando finalmente atravessaram, estavam de volta em casa.

Porthos soltou um suspiro de alívio:

— Je suis entier!* E agora… eu comeria um pernil inteiro! — Riram dele, tão aliviados e animados.

Malcon olhou ao redor com uma sensação de familiaridade. Tudo era parecido com o que conhecia, exceto pelos tons mais claros e alegres. Então viu uma mulher parada à porta, com lágrimas nos olhos. Margha correu para abraçá-la:

— Bô! Que saudade! De você e de tudo! — Abraçaram-se com força, e até Porthos teve que disfarçar uma lágrima.

Dona Mae sorriu, emocionada:

— Que bom que voltou! A casa tem estado tão silenciosa sem você. — Depois olhou para o jovem que acompanhava a neta e seus olhos encheram-se de lágrimas novamente. — Malcon! Rezei tanto para que estivesse seguro e bem. Que homem lindo e forte se tornou! — Abraçou-o com ternura. Ele sentiu, pela primeira vez, o calor de um lar e de uma mãe.

Porthos não conteve as lágrimas e todos se juntaram num grande abraço. Mae limpou os olhos e perguntou:

— Onde esteve todo esse tempo, meu filho?

— Com Theophrastus. Ele me criou e me ensinou a magia — respondeu ele, com saudade no coração.

— O velho mago ainda vive! Que notícia maravilhosa! — Sorriu para ele. — Não fique triste. Você voltará a vê-lo. Agora sinta-se em casa. Depois vou apresentá-lo ao seu avô. Ele é um pouco ranzinza, mas tem um bom coração.

Notou que os dois usavam as Pedras Sjarmere e sentiu sua vibração em sintonia. Theophrastus os havia ensinado bem. Mas também sabia que o perigo se aproximava e que precisariam estar preparados. Sorriu para todos:

— Vamos à cozinha. Tem um bolo de chocolate com avelãs esperando por vocês!

— Agora sim, Dona Mae! Isso é que é uma boa notícia! — exclamou Porthos, fazendo todos rirem.



Na cozinha, conversavam animadamente, contando tudo o que havia acontecido. Porthos cortava uma fatia generosa do bolo enquanto os irmãos se revezavam na narrativa. De repente, Malcon parou e olhou para a porta — alguém se aproximava. Entrou um senhor idoso, de semblante carregado, que os observou em silêncio. Os olhos dele pararam em Malcon e pareceu reviver uma dor antiga. Margha aproximou-se:

— Vovô, este é o Malcon. Meu irmão. Filho da tia Hécate.

O velho Holt arregalou os olhos:

— Ele não estava… morto?

Mae adiantou-se:

— Não, Doutor Holt. Ele foi protegido pelo pai de sua esposa. — E antes que pudesse processar, ela disse com firmeza mas doçura: — E eu sou a mãe de sua esposa. A mãe de Hécate.

O silêncio tomou a cozinha. O velho olhou para ela, sem conseguir falar — sempre tão jovem, sempre serena, ao longo de todos aqueles anos. Ela sorriu com sabedoria:

— Não precisam se assustar. Theophrastus e eu decidimos que eu mesma lhes contaria quando chegasse o momento certo. Minha filha, Hécate, escolheu viver entre os humanos, amou e foi amada por você. Sabia que não era como os outros, mas isso não era uma maldição. Era magia. Era quem ela era. E ela escolheu amar você acima de tudo.

Margha e Malcon sentiram que finalmente as peças se encaixavam. O passado fazia sentido agora. Não havia mais medo — havia força. Mas sabiam que o verdadeiro desafio ainda estava por vir.



Notas:

À quoi tu penses? — No que está pensando?

Je suis prêt! — Estou pronto!

Je suis entier! — Estou inteiro/são e salvo!

Notas finais
Notas: * O que tanto pensam? * Estou pronto!