Entre Mundos

11 CAP 11 De volta a Solveig


O dia começava com tons alaranjados que davam um ar alegre ao céu e ao mar. A brisa fresca da manhã refrescava o rosto aquecido do rapaz e desarrumava seus cabelos negros. Ele registrava o espetáculo celestial que a natureza proporcionava todas as manhãs e que, nesta ilha, parecia ainda mais belo e encantador. Tirava as fotografias, sem querer deixar escapar nenhum detalhe. O mar, ao bater na areia, deixava uma espuma branca e suave. Apontava a câmera para todos os lugares.

Pela lente, avistou uma figura delicada caminhando pela parte mais afastada da praia, onde o acesso era difícil. A maré estava alta; não conseguiria chegar até ali. E mesmo que pudesse, não sabia como ela reagiria a tamanha intromissão. Queria vê-la, conversar com ela novamente, ter certeza de que era real e não apenas um sonho. Pensou em voltar à pousada e trazer Kelly consigo — assim teria um motivo para se aproximar — mas a amiga estava tão triste pela perda dos pais que não quis usá-la dessa forma.

Então pegou suas lentes de maior alcance e preferiu registrar aquela que parecia uma fada, ali ao alvorecer, colhendo conchas. Era hipnótico observá-la; continuou clicando uma foto após a outra, até que parou para olhar as imagens uma a uma. Sentiu que estava sendo invasivo e hesitou por um instante. Olhou novamente para ela, alheia a tudo, e apagou quase todas as fotos — exceto uma: Margha sorrindo, fugindo de uma onda que teimava em alcançá-la. Aquela ele não conseguiu apagar.

Respirou fundo o ar salgado, olhou o horizonte e guardou seu equipamento. Enquanto arrumava tudo, viu também dois homens altos e fortes acompanhando a jovem. Sentiu uma pontada de ciúme e preocupação; um deles não se afastava dela um só instante. Como vou me aproximar se ele está sempre ali? E agora não é apenas um, mas dois guarda-costas? Pensou isso e seguiu de volta à pousada, um tanto desanimado. O café da manhã já devia estar sendo servido.



A pousada estava movimentada; era comum aquela agitação pela manhã. Todos iam ali pelo alimento preparado com carinho por Dona Laura e também para saber das novidades da ilha — era a rotina daquele vilarejo tranquilo.

Karl entrou e olhou ao redor, procurando a neta da proprietária. Deixou sua bolsa pesada no balcão e sorriu:

— Bom dia, Dona Laura!

— Pode me chamar apenas de Laura — sorriu ela. — Vou preparar seu café agora!

Ele sorriu de volta e assentiu.

— Vá se sentando. Minha neta leva tudo até você.

— Obrigado, Laura! — Caminhou até uma mesa no canto, perto da janela, com vista para a praça. Gostava daquele lugar: tranquilo e com uma boa visão.

Kelly estava triste e cansada, mas sabia que precisava ser forte. Sua avó chamou-a:

— Anda, menina. Leve o café para seu amigo. Ele acabou de chegar.

Ela conhecia suas preferências. Preparou a bandeja e aproximou-se com um sorriso um tanto forçado:

— Bom dia, Karl!

— Bom dia! — Ele sorriu para ela. Ela colocou tudo sobre a mesa e notou seu humor animado.

— Por que tanta alegria de repente?

— Vai achar que sou intrometido…

Ela estava impaciente; não estava com disposição para brincadeiras.

— Diga logo, Karl. O que aconteceu?

Ele avaliou seu semblante e pediu que se sentasse. Então contou:

— Fui fotografar cedo na praia, do alto daquele morro. E vi alguém na parte afastada da praia. Três pessoas, na verdade.

Os olhos dela brilharam:

— Margha voltou! — Mal podia acreditar. Queria correr até lá, abraçar a amiga e contar tudo o que havia acontecido.

— Você quer muito vê-la, não é? — perguntou ele, sorrindo. Ela assentiu animada.

— Podemos ir agora? Quando a maré baixa?

— A tarde, quando o mar recuar, será o melhor momento para atravessar.

— Então vamos!

— E Porthos também, claro — disse ele, tentando disfarçar o desconforto.

— Claro, ele também! — respondeu ela, alegre.



Porthos observava tudo ao redor, atento e protetor. Malcon caminhava pela areia, admirando tudo. Sentia o sol quente e o vento suave no rosto; tudo era novo e maravilhoso para ele. Fechou os olhos, respirou fundo e sorriu:

— É um paraíso aqui!

Margha sorriu e deitou-se ao lado dele. Porthos aproximou-se, com um leve sorriso:

— Rentrons à la maison!¹

Margha riu; conhecia bem aquele sinal de fome. Malcon olhou confuso, mas se levantou e limpou a areia de suas roupas.

— Viens!² — chamou ela, acenando. Porthos sorriu, alisou a barriga satisfeito e seguiu os dois. O almoço de Dona Mae era sempre delicioso.



A mesa estava farta e todos comiam com alegria. Porthos, especialmente, parecia muito satisfeito:

— Délicieux!³

Todos riram e agradeceram pela refeição. Porthos, com a boca cheia, hesitou por um instante e Margha riu dele. Mae limpou a garganta, fingindo seriedade:

— Comam devagar, ou vão se engasgar.

O ambiente estava perfeito, mas aquela calma toda deixava Mae um tanto preocupada. Margha levantou-se de repente:

— Preciso ver a Kelly. Ela precisa de mim.

— Sente-se, ma chère!⁴ Termine de comer — pediu Mae. — A maré está alta agora. Mais tarde iremos até lá.

— E eu vou com você! — disse Malcon, entusiasmado. — Quero conhecer a amiga de quem tanto ouvi falar.

— Com certeza, você vai adorá-la! — sorriu Margha.

Mae olhou para Porthos com seriedade:

— Kelly não virá sozinha. Há um forasteiro hospedado na pousada que tem andado pela propriedade e tirado muitas fotos.

Margha e Porthos trocaram um olhar cúmplice. Ela engoliu em seco; sabia quem era. Porthos franziu o cenho.

— Preciso ir à biblioteca primeiro — pediu ela. Mae assentiu e os três foram juntos. Ela precisava explicar tudo antes que surgissem mais perguntas.



Margha andava de um lado para o outro, enquanto Porthos cruzava os braços, claramente preocupado. Malcon observava tudo confuso:

— O que está acontecendo? Por que essa tensão toda?

Porthos disse com firmeza:

— Nous avons un problème!⁵

— Que problema? — perguntou Malcon.

— Le problème ?! — exclamou Porthos.

— Não é bem um problema — interrompeu Margha, acalmando o amigo. — Deixe-me explicar.

Porthos suspirou:

— Não confio nesse rapaz. Vocês confiam demais nele, e isso me preocupa. L'optimisme n'est pas bon.⁷

Margha sorriu e beijou-lhe a face:

— Confie em mim. Deixe-me contar como o conhecemos.

E então contou a Malcon sobre sua viagem a Londres, o encontro no pub, e como Karl havia vindo até a ilha. Enquanto falava, percebeu que sabia muito pouco sobre ele — mas que seu coração batia mais forte só de pensar em vê-lo novamente.



A tarde chegou com um lindo pôr do sol. O som das ondas era relaxante, mas o coração de Margha batia acelerado. Ao longe, Malcon apontou: estavam chegando. Porthos bufou, mas lembrou-se de que precisava ser educado. Todos se aproximaram e, em vez de tensão, Kelly e Margha simplesmente se abraçaram, rindo e chorando de alegria.

— Quanto tempo!

— Tenho tanto para te contar! — disseram ao mesmo tempo e riram.

Malcon sorriu e apresentou-se:

— Sou Malcon, irmão de Margha. — Beijou gentilmente o dorso da mão de Kelly.

— Prazer, sou Kelly — sorriu ela, um pouco corada. Apresentou então o rapaz ao seu lado: — E este é Karl. Vocês se lembram dele?

Margha sorriu e estendeu a mão. Karl beijou-lhe a mão com gentileza. Porthos observava cada movimento, mas quando Karl estendeu a mão para ele também, o mosqueteiro aceitou com um sorriso contido:

— C'est mon plaisir !⁸

Todos suspiraram aliviados. A conversa fluiu naturalmente, como se fossem velhos conhecidos. Ao longe, Dona Mae observava com atenção, ao lado de uma figura familiar e antiga: Theophrastus. Sua voz soou suave mas séria:

— Tenham cuidado. É essa calmaria que me preocupa mais de tudo.

Sua imagem foi se desvanecendo, deixando-a com um pressentimento silencioso.



Notas:

¹ Rentrons à la maison! — Vamos embora para casa!

² Viens! — Vamos!

³ Délicieux! — Que delicioso!

⁴ ma chère! — Minha querida!

⁵ Nous avons un problème! — Temos um problema!

⁶ croire beaucoup — acreditam demais

⁷ L'optimisme n'est pas bon — O otimismo pode ser perigoso/não é prudente

⁸ C'est mon plaisir! — O prazer é meu!

Notas finais
Desculpa qualquer errinho que eventualmente passou Beijocas!