Entre Mundos

3 Capítulo 3


Notas iniciais
Oi pessoal! Mais um capítulo para vocês entenderem a Alice e o Daniel. Aproveitem a leitura.

Fiquei esperando do lado de fora da sala. A aula de espanhol tinha acabado de terminar. Exatos 13 segundos depois, Daniel saiu de supetão pela porta. Estava tão apressado em me encontrar que quase não me viu.

–Resolveu parar de se esconder? – ele estava meio irritado. Quase me arrependi sobre decidir falar com ele. Mas, para ser justa, eu havia tentado, e conseguido evita-lo a semana toda.

–Tudo bem, vamos conversar. – eu disse. – Mas só hoje. Depois eu não vou responder mais nada.

Daniel apertou os olhos para mim e eu soube que era a sua maneira de concordar.

–Onde?

–Tem uma lanchonete a duas quadras daqui. Estou morrendo de fome.

Comecei a andar e Daniel me seguiu.

Meu almoço iria se resumir a um sanduíche de frango com ricota e um copo de suco. Daniel me observou comer, mas não tocou em sua comida. Isso era meio desagradável.

–Você pode ficar a vontade. Não vou fugir nem nada. Além do mais, conversar de estômago vazio seria péssimo.

Ele deu uma mordida no sanduíche enquanto eu tomava meu suco. Tínhamos pegado uma das mesinhas ao ar livre, escapando do sol graças ao enorme guarda-sol sobre as nossas cabeças.

Surpreendentemente a lanchonete estava vazia. A pouca distância, três amigas se espremiam em um banco. Uma delas tocava violão e eu pude ouvir o pequeno coro cantando o refrão de Tempo Perdido, Legião Urbana. Por alguma razão, ouvir aquela música me acalmou.

–Por que você decidiu falar comigo? – Daniel inquiriu curioso.

Dei de ombros. Sem ter nenhuma resposta específica. Parte de mim achava que eu devia algo a ele. Já a outra parte, só queria dividir um segredo com alguém.

–Você disse que se lembrava de mim.

Daniel riu.

–Se eu falasse a alguém o que aconteceu, achariam que eu estou louco.

Ri também.

–Talvez nós dois estejamos loucos.

–Alice, o que aconteceu com você?

Essa me pegou de surpresa. Eu não esperava que essa fosse a sua primeira pergunta.

–Foi um acidente. Já faz um ano e meio. Eu tinha quinze anos na época. – suspirei. – Eu estava passando o fim de semana na casa de uma amiga. Minha mãe estava viajando. Minha amiga e eu estávamos na piscina. E eu acabei batendo a cabeça.

Afastei o cabelo para mostrar a cicatriz que desaparecia no meu lado esquerdo. Daniel pareceu chocado.

–Como você, eu entrei em coma. Acordei uma semana depois. A partir daí, não sei. Eu simplesmente sabia quais pessoas acordariam. E como eu podia fazê-las acordar.

Daniel apoiou os cotovelos sobre a mesa.

–Então, você é tipo médium?

Franzi o cenho. Eu odiava aquela palavra. Fazia parecer que eu estava em uma série de TV.

–Hum... Alice... Mais alguém sabe sobre isso? Porque quando eu perguntei a enfermeira sobre você, ela pareceu muito estranha.

Quase caí da cadeira.

–Enfermeira? Que enfermeira?

–A de cabelo loiro.

Ele tinha falado com Iara?!

–Ela não sabe. – esclareci. – Apenas desconfia. Na maioria das vezes, quando eu estou por perto, uma pessoa acorda.

–Quer dizer que nem todo mundo acorda?

–Não.

–E você sabia que eu ia acordar?

–Sabia.

O silêncio se instalou depois disso. Devia ser a conversa mais estranha da vida dele.

–Por que você faz isso? Por que ajuda as pessoas?

Desviei o olhar por um momento.

–É pela minha mãe. Se você visse como ela ficou por minha causa. Não gosto de imaginar a mãe de alguém sofrendo assim.

Daniel balançou a cabeça, como se entendesse tudo o que eu dizia.

–É muita generosidade sua.

Ele sorriu e eu não soube o que dizer. Mas gostei do sorriso dele.

–E você fica bem com tudo isso? Quer dizer... É uma situação bem estranha.

–Fui obrigada a frequentar uma psicóloga por meses. Claro que eu não disse nada. Eu menti sobre estar bem até ela acreditar. Ainda inventei uma história sobre visitar pessoas no hospital e ler para elas. Tudo para superar o meu “trauma”. – fiz aspas no ar.

As perguntas dele pareciam ter chegado ao fim. O que trazia a conversa ao ponto que eu precisava.

–Daniel, do que você se lembra, exatamente?

Eu precisava desesperadamente saber. Ele ficou sério.

–Você estava lá. No quarto. E disse que podia me levar para casa. E aí você segurou a minha mão.

–Você é o primeiro a se lembrar. – sussurrei.

Os olhos dele se encheram de surpresa.

–Como é? Alice, espera aí!

Eu já tinha me levantando da cadeira.

–Eu tenho que ir para casa.

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Daniel não estava no quarto. Quer dizer, seu corpo estava. Mas seu espírito não. Deixei meu próprio corpo adormecido na cadeira e segui em direção ao corredor.

Encontrei-o recostado a parede da frente. Como se vigiasse a porta. Suas sobrancelhas ergueram-se ao me ver. Ele estava extremamente aturdido.

–Com você fez isso? Seu corpo está lá. – disse apontando pelas venezianas. – E você está aqui.

–Calma. – falei, erguendo as mãos. – Sei que você deve estar assustado com o que viu pelo hospital, mas...

Daniel me interrompeu.

–Assustado com o que vi? Você está falando dos enfermeiros e dos médicos?

Agora a confusa era eu.

–Você não viu nada fora do comum? Nenhuma outra pessoa?

Ele balançou a cabeça, negando. Como isso era possível?

–Ei, me lembro de você. – os olhos dele se iluminaram. – Estudamos na mesma escola.

Revirei os olhos para o óbvio.

–Vamos. – falei apontando para o quarto.

Daniel não entendeu.

–Eu posso ajudar você.

–Mas... Eu achei... Eu estou morrendo. – a voz dele se encheu de dúvida.

–Não está não. Você só está dormindo.

Estendi a mão para ele, esperando por seu voto de confiança.

–Daniel, me escute. Não podemos demorar muito. Eu posso te levar para casa.

Um passo dele em minha direção. Era tudo o que eu precisava.

–Pode mesmo?

Não falei mais nada. Nossos olhares se cruzaram. Apenas segurei sua mão.

Notas finais
Então, o que vocês acham?