Entre Mundos
4 Capítulo 4
Notas iniciais
Eram sete horas da manhã e eu passei completamente sonolenta pelo portão da escola. Tinha demorado a dormir, revirando na cama graças à conversa que tivera com Daniel. Estava andando tão distraída que quase caí em cima da pessoa que surgiu na minha frente.
Daniel sorriu e eu não fiz nada além de suspirar, dando alguns passos para trás.
–O que você quer? Não te falei que não ia responder mais nada? – eu admito, fui mais grossa do que deveria.
Ele pareceu não se importar. O sorriso permanecia intacto em seu rosto.
–Eu sei. Eu sei. – Daniel levantou os braços em sinal de rendição. Em resposta, cruzei os meus para ele. – Só queria falar com você.
–A aula já vai começar. – respondi, começando a andar.
Daniel segurou meu braço.
–Alice, a aula só começa em vinte minutos. – parei, esperando que ele continuasse. – Você está livre esse fim de semana?
Olhei em seus olhos, embasbacada.
–O quê?
–Bem, depois de ontem, percebi que a gente não teve a oportunidade de se conhecer direito. A situação não era muito propícia. Então, achei que seria legal a gente sair.
–Tipo um encontro? – soltei.
Daniel ergueu uma das sobrancelhas e voltou a sorrir para mim.
–É. Tipo um encontro.
Me senti inquieta, porque sabia o que eu queria dizer. Engoli em seco antes de responder.
–Estou livre no domingo.
–Ótimo. Cinema?
Agora foi a minha vez de sorrir.
–Cinema parece perfeito.
Levei cerca de quinze minutos para decidir se deveria usar um vestido ou não. Acabei escolhendo um vestido verde quadriculado. Não vivia sendo convidada para encontros. Não sabia realmente como agir.
Quando contei a minha mãe que um garoto havia me chamado para sair, ela pirou. Apesar de ter ficado ainda mais super protetora após meu acidente, tudo o que minha mãe queria era que eu levasse uma vida normal.
Depois de se certificar que Daniel era um bom rapaz, informação que eu confirmei mesmo sem conhecê-lo direito, minha mãe disse para eu ir me divertir.
As 14h em ponto nós dois nos encontramos no shopping. Em silêncio, caminhamos até o cinema. Paramos em frente aos telões onde estavam os filmes em cartaz e os seus horários.
–Você pode escolher o filme. Eu topo qualquer um. – Daniel se inclinou para mim, falando no meu ouvido. Senti um gostoso arrepio.
Reprimi um sorriso. Sabia que ele achava que eu escolheria um romance. Passei os olhos pela lista de filmes, escolhendo um gênero que iria surpreendê-lo. Terror.
Compramos o ingresso e nos dirigimos direto para a sala, combinando de lanchar só depois. Nos sentamos e alguns minutos depois as luzes se apagaram. Trailers interessantes passaram antes de o filme começar. Quando as primeiras cenas rodaram na tela, a sala se encheu de uma tensão palpável. Como se todos se preparassem para os sustos que estavam por vir.
Sei que minhas experiências deveriam fazer os filmes de terror parecer brincadeira de criança. Mas, muito pelo contrário, só os tornava piores. Resisti o quanto pude, me recusando a gritar como as outras pessoas da sala. Finalmente virei o rosto, me escondendo no ombro de Daniel. Ele ao menos teve a decência de tentar não rir, permitindo que eu esmagasse seu braço durante o resto do filme.
Quando saímos da sala, dei graças aos céus. Daniel pacientemente me seguiu por algumas lojas, enquanto eu avaliava roupas e DVDs que não iria comprar. No caminho, conversamos sobre nossos gostos musicais e de leitura. Tínhamos alguns cantores em comum. E, para minha completa surpresa, Daniel revelou sua paixão pela literatura policial.
Chegamos à praça de alimentação e ele insistiu que deveria pagar o meu lanche, uma vez que eu já havia pagado o ingresso.
Sentamos em uma mesa para dois, com bancos um tanto altos para a minha baixa estatura. Olhei para Daniel com seu combo de fritas e refrigerante e me senti culpada. Eu tinha pedido um cheeseburguer com um delicioso e maravilhoso milk-shake de morango.
–Você só vai comer isso aí?
Ele deu de ombros.
–Não gosto de hambúrguer. – quase caí da cadeira.
–É sério? Isso é humanamente possível?
–Ei, nem todo mundo precisa ser um viciado em milk-shake.
–É a melhor bebida do mundo. – respondi totalmente na defensiva.
No ponto de ônibus, a conversa já tinha chegado aos planos do futuro.
–Qual carreira você quer seguir? – Daniel perguntou.
–Eu vou fazer História.
–Sério? Eu podia jurar que você ia responder Medicina.
Fiz uma careta.
–Abrir pessoas e observar seus órgãos? Não, obrigada. Prefiro mil vezes estudar o que já passou. Combina comigo. E você, o que pretende fazer? Não vai dizer que é Medicina.
–Engenharia Química. – balancei a cabeça. A área de exatas nunca faria sentido para mim.
Daniel me acompanhou até em casa. Eu disse que não precisava. Mas ele falou que não morava longe, não seria problema nenhum. Paramos no portão da minha casa. Virei-me para ele.
–Isso foi divertido. De verdade.
Ele remexeu no cabelo, bagunçando os cachinhos.
–A gente se vê na escola amanhã?
Não respondi. Minhas mãos foram parar em seus ombros, fazendo ele se aproximar. Iniciei o beijo. Não tinha mais como esperar.
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Eu estava atrasada. Tinha demorado muito no banho e tomado café devagar demais. Se não saísse logo de casa, iria perder a primeira aula. Corri para o portão, trombando com um rapaz poucos anos mais velho.
–Me desculpe. – falei aturdida.
O rapaz recuperou o equilíbrio e depois esticou a camisa. Segurava um buquê de rosas nas mãos.
–Alice? – perguntou, checando um bloco de notas.
–Eu? – o que ele queria comigo? Eu nem o conhecia.
–Para você. – respondeu, entregando-me as flores. Recebi o buquê, receosa. – Pode assinar aqui, por favor?
Escrevi meu nome na linha pontilhada e o rapaz foi embora, desejando-me um bom dia. Voltei para dentro de casa. Definitivamente eu ia perder a primeira aula.
Encontrei um vaso entre as cerâmicas da minha mãe e o levei para o quarto. Esvaziei meu criado mudo e coloquei o vaso sobre ele, enchendo-o até a metade com água. Coloquei as rosas dentro e retirei o bilhete que estava entre elas.
As flores eram de Daniel. Onde ele havia conseguido uma floricultura que entregava às 7h da manhã?
O bilhete era escrito a mão e tinha poucas palavras.
“Só agora me dei conta. Você salvou a minha vida e eu nunca te agradeci. Obrigado, Alice.”
Guardei o bilhete dentro de uma caixa de joias no fundo da gaveta. Para que ninguém pudesse encontra-lo.
Durante o intervalo, Daniel veio falar comigo. Eu estava recostada na parede do corredor, esperando minhas amigas voltar do banheiro. Não sabia como falar com ele. A gente tinha se beijado. Mas eu não sabia se isso significava alguma coisa.
Daniel parou na minha frente, se inclinando para plantar um leve beijo em meus lábios.
–Oi.
–Oi. – puxei uma mecha de cabelo para detrás da orelha. – Recebi suas flores.
–Você gostou?
Confirmei com a cabeça.
–Elas são lindas.
–Eu queria fazer uma surpresa. Espero que você não tenha adivinhado sobre elas.
Notei um leve tom de ironia em sua voz.
–Muito engraçado. Mas você sabe que eu não posso adivinhar nada. É por isso que eu estudo para as provas.
A essa altura, minha mão esquerda segurava a direita dele. E sua mão esquerda segurava a minha cintura. Nos beijamos de novo.
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Já faz cinco meses que eu e Daniel namoramos. É oficial. Ele é meu amuleto da sorte. Nunca tive tanta paz e tranquilidade na vida. Durante todo esse tempo, nenhum outro caso que precisasse da minha ajuda apareceu no hospital.
Seria apenas mais uma semana perfeita, se eu conseguisse dormir. Daniel notou meu cansaço e ficou preocupado.
–O que foi Lizzie? – ele me chamou pelo apelido que tinha inventado. Tentei argumentar, dizendo que Lizzie era apelido para Elizabeth e não Alice. Mas Daniel continuava usando-o mesmo assim. E eu achava adorável.
–Não é nada. Só não consegui dormir. Tenho insônia de vez em quando.
–Por que você não consegue dormir? – descansei a cabeça em seu ombro.
–Pesadelos. – falei a verdade. Não adiantava mentir para ele.
Daniel passou um dos braços ao meu redor.
–Você pode me ligar se quiser. Quando não estiver conseguindo dormir.
Virei à cabeça para encará-lo.
–Mesmo se for de madrugada?
–Mesmo se for de madrugada.
–Jura?
–Eu juro.
Tem uma coisa que eu nunca contei a ele. Pode ser que tenha sido errado da minha parte. Mas eu juro, só queria proteger Daniel.
Quando estive em coma, fiquei sozinha o tempo todo. Não vi nada, nem ninguém. O mesmo não acontecia com as pessoas que eu ajudava. Elas sempre pareciam assustadas demais. E com o tempo, descobri o porquê disso.
Cada vez que saía do meu corpo, eu procurava a pessoa em coma. Para poder trazê-la de volta. E com isso, tinha que procurar por todo o hospital. Fui me dando conta de que havia outros espíritos ali. Pessoas que tinham morrido e por algum motivo, não tinham seguido adiante. Seja lá onde for o lugar para onde vamos depois que morremos.
Isso não me assustava. A essa altura, já havia me acostumado como acontecimentos sobrenaturais.
Eu vi muita gente morrer. O momento exato em que a vida deixava seus olhos. O último suspiro. Quando acontecia, geralmente o espírito da pessoa sumia lentamente. Desaparecendo. Havia certa beleza nisso. Como se ao deixar a vida, você ganhasse um último momento de paz.
Mas nem sempre era assim.
Ás vezes, quando alguém morria, outro coisa esperava que o espírito deixasse o corpo. E digo coisa porque aquilo não poderia ser denominado com o nome de nenhuma outra criatura. Tinha aspecto humano. Mas seu corpo era deformado. A carne parecia em estado avançado de putrefação. Eram cobertos de cicatrizes.
Eles ficavam ao lado do corpo, esperando a pessoa morrer. Não sei o que faziam ou para onde levavam o espírito capturado. E nem tenho vontade de descobrir. Um deles olhou para mim uma vez. Senti frio nos locais mais submersos do meu ser. Os olhos dele não mostravam o menor resquício de humanidade.
Sei exatamente o que eles são. E mesmo assim me recuso a acreditar. Me recuso até em pensar nisso.
À noite, os pesadelos não me deixam dormir. Não são tão frequentes, mas quando eles chegam, custam a ir embora. O mundo dos sonhos é um lugar do qual ninguém pode escapar.
Algumas vezes, os pesadelos são sobre as criaturas. Estou em um quarto mal iluminado. E eles estão lá. Obrigando-me a recuar até a parede. Me encurralando. Seus olhos mortos, me consumindo.
Outras vezes, estou de volta ao hospital. Vagando pelos corredores. Ninguém me vê. Ninguém me escuta. Posso sentir que não vou acordar. Posso sentir a morte se aproximando de mim. Talvez, se tivesse coragem de olhar para trás, eu pudesse vê-la.
Nada vai mudar. Sem nenhum milagre. Sem escapatória. Eu estarei para sempre presa entre dois mundos. Meus gritos são a única coisa capaz de romper o silêncio e a escuridão.
–Puta merda, Alice! – é assim que Daniel me recebe de manhã, ao notar minhas olheiras.
Sei que ele está preocupado comigo. Escondo-me em seus braços. Com o terrível pressentimento de que algo ruim está para acontecer.
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