Entre Linhas e Sombras
4 A Voz que Nunca Calou
O som metálico do projetor antigo rodando quebrava o silêncio na sala da delegacia. Grissom e Sara estavam sentados diante de uma gravação recuperada do pen drive deixado na casa da Pine Street. O vídeo, em preto e branco, parecia de um interrogatório — mas não de um criminoso. Era uma mulher.
Ela estava sentada com as mãos sobre o colo, visivelmente cansada. O nome no canto da tela fez o estômago de Sara revirar: Lina Maddux. A irmã da última vítima do caso de 2005. Supostamente desaparecida. Supostamente morta.
— Eu tentei avisar — dizia a mulher no vídeo, olhando direto para a câmera. — Ninguém quis ouvir. Ele me escolheu porque sabia que eu lembrava dela. Mas eu não era como minha irmã. Eu… resisti.
A gravação pulou, como se estivesse danificada, e reapareceu com Lina gritando:
— Não era suicídio! Ele os preparava! Ele ensaiava cada morte como se fosse um espetáculo. E ela — apontando para fora da tela — ela é o próximo espelho!
Sara se enrijeceu.
— Ela... me viu? Como um alvo?
Grissom pausou o vídeo. Olhou para Sara com seriedade contida.
— Não só viu. Ela entendeu que ele precisava de uma contraparte. Uma antagonista viva.
— Um dueto macabro. Eu sou a voz que ele não conseguiu calar — disse Sara, quase para si mesma.
Do outro lado da cidade – Noite
Um carro escuro estacionou diante de um galpão abandonado. O motorista, encapuzado, desceu e empurrou um portão lateral com a calma de quem fazia aquilo há anos.
Lá dentro, dezenas de fotos impressas cobriam as paredes: Sara no tribunal, Sara em conferências, Sara caminhando ao lado de Grissom em cenas antigas.
No centro do espaço, uma cadeira de madeira. E sobre ela, uma fita cassete, marcada com uma única palavra escrita à mão:
“OUÇA.”
Quarto de hotel – Amanhecer
Sara acordou com um leve estremecer. Grissom já estava vestido, sentado à janela com o olhar distante.
— Você dormiu? — perguntou ela.
— Um pouco. Mas fiquei pensando naquela mulher. Lina. O que ela viu, o que ela sabia... E por que foi apagada.
— Ele não apagou Lina. Ele a transformou numa mensagem. E agora ele quer terminar o ciclo.
Ela se levantou e caminhou até ele. Ficaram frente a frente por um instante. Não havia máscaras. Nem escudos. Apenas dois sobreviventes tentando juntar os pedaços do que o tempo e a escuridão haviam quebrado.
— Grissom... se isso piorar, se ele estiver nos seguindo de perto, eu preciso saber que você vai sair disso comigo. Até o fim.
— Não importa o fim, Sara. Desde que ele me encontre contigo.
Ela se inclinou e o beijou, num gesto que não era apenas amor. Era aliança.
Mais tarde – No laboratório móvel da polícia federal
A fita cassete foi decodificada com cuidado. O conteúdo era inquietante: uma narração teatralizada, com voz masculina distorcida, citando cenas de crimes antigos e encenando as mortes como se fossem atos de uma peça inacabada.
Ao final, a gravação dizia:
“Ela achou que poderia encerrar a história. Mas não se encerra o que nunca foi verdadeiramente entendido. O palco está armado. E falta o último ato.”
Grissom e Sara se entreolharam. Um agente entrou na sala, pálido.
— Acabamos de receber um alerta da unidade de monitoramento. O sistema de vigilância do hotel de vocês foi invadido. E uma imagem extraída mostra algo… estranho.
Ele entregou a foto impressa.
Na imagem, a porta do quarto de Sara — com um bilhete colado do lado de fora.
“Última chance para encenar o final. Ou eu escreverei outro corpo.”
Sara olhou para Grissom, o rosto endurecido.
— Ele esteve a metros de mim. Talvez... horas atrás.
Grissom pegou o bilhete com delicadeza.
— E ele quer que você saiba disso. Está encenando com você. Como uma atriz principal.
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