Entre Linhas
1 O Livro e o Buraco no Tempo
O sol que filtrava entre as folhas pintava o chão do parque com manchas douradas enquanto eu caminhava, procurando um lugar tranquilo. Foi então que meu pé se enroscou em algo sólido e oculto sob as folhas secas — uma raiz retorcida, emergindo da terra como pedra. No centro dela, um buraco escuro e irregular, como uma boca sussurrante.
A curiosidade ardeu em mim, mais forte que a razão. Me ajoelhei, afastei os galhos e olhei para dentro daquela fenda. Lá estava, envolto em sombras e umidade, havia um livro. Seu couro estava gasto, as bordas das páginas desfiadas pelo tempo, como se tivesse esperado séculos por mim.
Ao tocá-lo, um arrepio percorreu minha espinha. Quem o teria escondido ali? Por quê?
Sem resistir, abri-o. Na primeira página, letras desbotadas anunciavam:
"Guia para Viajar Através do Tempo"
— Professor W.A.
O texto que se seguia era um pouco de loucura e genialidade:
"Aos céticos e aos sonhadores, àqueles que riram de minhas teorias e aos poucos que creram... Finalmente, após décadas de estudo, comprovei o impossível. Este livro é minha herança — e minha maldição.
Querido leitor, que ele te leve a lugares além da imaginação. Mas lembre-se: a coragem abre portas, a imprudência as tranca para sempre. O tempo flui em uma só direção... até que alguém o force a retroceder."
Havia instruções vagas, quase enigmáticas:
"1. Pense em um momento. (Os resultados podem variar.)"
E então, no final da página, um aviso em letras tremidas, como se escrito às pressas:
"Atenção: Este livro só permite viagens ao passado. E uma vez lá, você pode nunca mais voltar. Escolha com sabedoria."
Sorri, desdenhosa. Que bobagem. Virei as páginas, me deixando levar pela prosa excêntrica do tal professor, até que o cansaço venceu minha descrença. Meus olhos pesaram, e o livro escorregou sobre meu peito, ainda aberto.
Não vi a última linha, escondida no recuo do segundo capítulo:
"Nunca adormeça segurando este livro..."
Um clarão explodiu atrás das minhas pálpebras. Uma força invisível arrancou-me do chão, do ar, da própria realidade. Tentei gritar, mas minha voz se dissolveu. Meus pensamentos despedaçaram-se, meus sentidos me traíram.
E então — apenas escuridão.
E o passado, faminto, me engoliu inteira.
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