Entre Linhas
2 O Jardim e a Fugitiva
As magnólias pintavam o rosto da mulher adormecida entre as roseiras. Seus cabelos se espalhavam como asas quebradas sobre a relva, e seu vestido esvoaçante — um vermelho tão intenso quanto as pétalas ao seu redor — parecia ter sido costurado com a própria noite.
— Oh, desculpe-me. Não pretendia perturbá-la.
A voz suave veio de uma jovem senhorita de trajes claros, que segurava uma cesta de vime com flores recém-colhidas. Ela hesitou, se inclinando ligeiramente para observar o sono inquieto da desconhecida.
— Ela parece tão tranquila... — murmurou, quase com inveja. Talvez eu deva deixá-la descansar em paz.
Por um momento, ficou ali parada, como se esperasse que a mulher acordasse e contasse sua história. Mas quando apenas um suspiro escapou dos lábios da adormecida, a jovem senhorita se afastou, desaparecendo entre os arbustos perfumados.
Quando abri os olhos, o mundo cheirava a orvalho e terra molhada.
Meu corpo doía como se tivesse caído de uma grande altura, mas não havia feridas — apenas uma estranha leveza nos membros, como se meu sangue tivesse sido substituído por névoa. O jardim ao meu redor era uma explosão de cores: rosas vermelhas como o meu vestido na noite passada (onde estou agora?), amarelas como moedas de ouro, brancas como as nuvens do céu.
Isto não é um sonho, pensei, beliscando o próprio braço. Mas então, o que era?
O murmúrio de vozes cortou o ar. Dois guardas patrulhavam os caminhos de pedra, suas armaduras rangendo a cada passo.
— Você viu a invasora pelo castelo ou pelo jardim? — perguntou o primeiro, observando os arbustos com olhos desconfiados. Estamos procurando por ela o dia todo, mas parece que ela desapareceu no ar.
— Não, não a vi. Como ela é?
— Ninguém parece saber. Tudo o que temos são relatos de uma mulher com um vestido longo e esvoaçante...
Meu coração gelou. Eles estão falando de mim.
Agarrei as dobras do meu vestido (sim, ainda era vermelho, mas agora rasgado e sujo de terra) e me curvei entre as roseiras, respirando fundo.
— Será que ela é uma espiã? — indagou o segundo guarda.
— É isso que o Rei Maximus pensa. Ele nos ordenou que fiquemos de olho em qualquer pessoa que pareça suspeita.
O nome do rei ecoou em minha mente como um sino. Maximus. Por que soava familiar?
Não esperei para descobrir. Enquanto os guardas se distraíam, rastejei para trás de uma estátua de mármore e depois para uma cerca baixa. Minhas mãos tremiam, mas meu corpo se movia com uma agonia surpreendente, como se soubesse exatamente como escapar.
— Certamente estão falando de mim. Agora eu realmente devo fugir daqui. — sussurrei para mim mesma, mordendo o lábio até sangrar.
Saltei a cerca e rolei pelo gramado abaixo, minhas pernas doeram com o esforço. Tropecei em uma raiz, mas não parei — não podia parar.
E então, lá estava: a cidade se estendia abaixo do penhasco do castelo, suas luzes começando a cintilar no crepúsculo. Sem pensar, dobrei os joelhos e pulei.
O vento assobiou em meus ouvidos. Por um segundo, tive certeza de que morreria.
Mas então — baque — aterrissei em um monte de feno em uma viela escura, a respiração presa em meus pulmões.
— Consegui.
Ri baixo, o som quase histérico. Escapei.
Mas então a realidade caiu sobre mim como um balde de água gelada:
Estava sozinha. Sem dinheiro. Sem rumo.
E a noite, implacável, começava a engolir as ruas.
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