Entre Linhas

7 A Princesa das Sombras


Notas iniciais
sepulcral (Cavo; rouco; surdo; cavernoso; sombrio; triste; medonho) ébano (designativo comum às árvores do gênero. Diospyros, da fam. das ebenáceas, com madeira nobre ou de qualidade, geralmente muito escura) melífluo (1. que tem a doçura do mel. 2. que corre como mel ou que deita mel; muito doce.)

O salão do trono ficou imerso em um silêncio sepulcral, quebrado apenas pelo som abafado das lágrimas da Princesa Dahlia caindo no mármore polido. Seus soluços ecoavam entre as colunas de pedra como um lamento fantasmagórico, enquanto todos aguardavam, tensos, que ela se recompusesse.

"Ele... ele não resistirá muito mais tempo", Dahlia finalmente articulou, sua voz um frágil fio de som que parecia prestes a se romper. Ergueu o rosto banhado em lágrimas, revelando olhos vermelhos de tanto chorar. "É por isso que vim, Majestade. Peço pela planta sagrada que só vosso reino possui. Em troca..." Ela engoliu seco, os dedos crispados no tecido do vestido. "Em troca, ficarei aqui, como o tratado sempre exigiu. Sei que não sou a primogênita, mas ainda sou sangue real de Sirius."

O Rei de Orion se inclinou para frente em seu trono de ébano, os dedos ossudos entrelaçados sob o queixo. Seus olhos, frios como gelo no inverno, estudaram Dahlia com intensidade quase palpável. "Curioso", murmurou, a voz carregada de veneno melífluo. "Mandei meus homens para capturá-la em busca de informações sobre seu irmão desaparecido... mas essa oferta é inesperadamente melhor." Seu olhar então desviou para mim, e senti um calafrio percorrer minha espinha. "E esta? Quem seria essa acompanhante tão... peculiar?"

O coração acelerou em meu peito. Antes que pudesse articular qualquer resposta, Dahlia interveio com uma firmeza que me surpreendeu:

"Minha irmã."

A declaração ressoou pelo salão como um tiro de canhão. Até os guardas mais endurecidos trocaram olhares surpresos. Eu mesma mal conseguia acreditar na audácia da princesa — mentir tão descaradamente para um monarca, sob seu próprio teto!

O Rei arqueou uma sobrancelha, seus lábios finos se curvando em um sorriso que não alcançou os olhos. "Ah, sim... a lendária princesa fantasma de Sirius." Ele se ergueu do trono, suas vestes pesadas se arrastando no chão enquanto caminhava em nossa direção. "Quartos sempre trancados... aparições noturnas... rumores de uma primogênita escondida." Cada palavra era uma punhalada calculada. "Dizem que seus pais a mantêm escondida, mimada com regalias para compensar a falta de liberdade. Tudo para que eu não descubra a verdade — que o príncipe Leopold nunca foi o verdadeiro herdeiro."

O mundo parecia girar ao meu redor. Dahlia ficou rígida ao meu lado, mas eu podia ver o pulso acelerado em seu pescoço, a tensão em seus ombros. O Rei agora estava perto demais, seu hálito pesado de vinho enevoando meu rosto quando sussurrou:

"'No silêncio da noite, a princesa persistirá nas sombras...' Todos em Sirius pensam ser sobre Dahlia, não é mesmo?" Seus olhos escuros brilharam com perversa satisfação. "Mas nós sabemos a verdade."

Através da janela alta do salão, um raio de sol poente iluminou os jardins reais, onde flores dançavam ao vento. Meus olhos foram atraídos por um canteiro de íris azuis, suas pétalas resistentes e vibrantes contra o verde escuro das folhagens.

"Então, Princesa...", o Rei provocou, sua voz cortante como uma lâmina. "Qual seria seu nome?"

O silêncio que se seguiu foi tão denso que podia-se ouvir o bater de asas de um pássaro do lado de fora. Minha mente trabalhou freneticamente, buscando na memória qualquer nome que pudesse me salvar. E então, como um presente dos deuses, minha visão se voltou para aquelas flores azuis, tão livres e belas...

"Íris", respondi, minha voz mais firme do que esperava. "Meu nome é Íris, Vossa Majestade."

O sorriso do Rei se alargou, revelando dentes surpreendentemente brancos. "Bem-vinda à corte, Princesa Íris." Seus olhos brilharam com cálculo frio. "Parece que hoje ganhei duas peças valiosas para meu tabuleiro."

Quando as portas maciças do salão se fecharam atrás de nós com um baque final, Dahlia agarrou meu pulso com força quase dolorosa. Seus olhos, ainda vermelhos de tanto chorar, agora transbordavam de um aviso silencioso — estávamos irremediavelmente presas em um jogo de tronos muito maior do que qualquer uma de nós poderia imaginar.

E eu, a falsa princesa, havia acabado de me tornar a peça mais valiosa nesse jogo mortal.