Entre Linhas

8 Uma Coroa de Mentira


O nome ainda ecoava no ar entre nós quando o sorriso do Rei se alargou, revelando dentes que me surpreenderam por serem tão brancos para aquela época.

"Íris... como as flores mais resistentes do meu jardim," ele murmurou, os dedos tamborilando no braço do trono. Seus olhos escuros me devoravam, tentando decifrar cada microexpressão. "Ouvi tantas histórias sobre você... mas a realidade supera os rumores."

Por um momento hipnótico, quase caí no charme perigoso que emanava de cada movimento calculado — até que a voz firme da Princesa Dahlia cortou o feitiço:

"Sua Majestade, temos um acordo?"

O Rei se recostou, seu manto de arminho sussurrando contra o ébano do trono. "Sim, mandarei as ervas para salvar seu pai... mas não apenas você ficará conosco." Seu dedo ossudo apontou para mim como um juiz pronunciando sentença. "A princesa primogênita é agora um tesouro de Orion. Está escrito no tratado — ela jamais deixará estas terras."

O silêncio que se seguiu foi cortante. Dahlia engoliu seco, seus olhos faiscando entre resignação e fúria contida, antes de curvar levemente a cabeça em concordância.

Nos Corredores do Destino

Os passos ecoavam nos corredores gelados do castelo quando Dahlia finalmente rompeu o silêncio:

"Perdoe-me," sussurrou, seus dedos frios envolvendo meu pulso. "Nunca imaginei que... que isso aconteceria." Seus olhos refletiam o luar que entrava pelas frestas das janelas góticas. "Juro que te tirarei daqui."

"Não se preocupe comigo," respondi, minha mão indo inconscientemente ao volume escondido sob minhas vestes — o livro maldito que começara tudo. "Mas me conte... essa lenda da princesa fantasma?"

Dahlia olhou nos dois sentidos do corredor antes de me puxar para um nicho escondido atrás de uma tapeçaria. O cheiro de mofo e velas enceradas nos envolveu quando ela começou, sua voz um fio de som:

"Meu pai criou o rumor um pouco antes da guerra começar quando ainda havia dias de paz, quando os espiões de Orion começaram a se multiplicar como ratos em nosso palácio." Seus dedos traçaram padrões na poeira do parapeito. "Ele preparou um quarto sempre trancado, roupas de tamanho variado, até registros falsos de nascimento... Até mesmo ditado popular entre o povo: No silêncio da noite, a princesa persistirá nas sombras trocando sua liberdade por um véu de escuridão. Tudo para proteger o verdadeiro herdeiro."

O luar iluminou seu perfil anguloso quando virou para mim. "O povo a chamam de Nyx — a princesa da noite, que nunca vira a luz do dia. Hades gastou rios de ouro tentando encontrá-la..."

Seu olhar pesou sobre mim, misto de culpa e admiração.

"E agora," sussurrei, o peso da situação finalmente me atingindo, "você materializou o fantasma."

Fora da janela, um vento súbito agitou os jardins, fazendo as íris azuis dançarem como espectros sob a luz prateada da lua — tão belas, tão presas em seu canteiro real.