Entre Irmãos

6 Capítulo 6: A Fragilidade das Muralhas



​O vento lá fora soprava com a força de um prenúncio, mas dentro da casa, o silêncio era diferente. Quando Elijah estacionou o carro e cruzou a porta, não foi recebido pelo habitual som de Loren organizando a cozinha ou pelo perfume do jantar.

​Leo e Mia estavam sentados no tapete da sala, dividindo um pacote de biscoitos, com os olhos fixos na televisão ligada em um volume baixo. A cozinha estava um caos: pratos do café da manhã ainda na pia, uma jarra de suco pela metade e uma quietude que gritava que algo estava errado.

​— Ei, onde está a mãe de vocês? — Elijah perguntou, deixando as chaves sobre o balcão.

​— Ela disse que a cabeça estava doendo e foi deitar, Tio Eli — Leo respondeu, sem desviar os olhos do desenho. — Ela não desceu mais.

​Um frio repentino percorreu a espinha de Elijah. Ele subiu as escadas em passos largos e silenciosos. Ao abrir a porta do quarto de Loren, o cheiro de hortelã e febre o atingiu. O quarto estava na penumbra. Loren estava encolhida sob as cobertas, tremendo, apesar do suor que grudava os fios loiros à sua testa.

​— Loren? — Ele se aproximou, sentando-se na beira da cama.

​Ao tocar a testa dela, ele quase recuou. Ela estava queimando.

​— James... — ela murmurou, os olhos entreabertos e nublados pela febre.

​— Não, Loren. Sou eu. É o Elijah.

​Ele não perdeu tempo. Desceu, preparou uma bacia com água fresca, pegou toalhas limpas e remédios. Durante as horas seguintes, Elijah foi uma presença constante e firme. Ele trocou as compressas frias em sua testa com uma delicadeza que Loren, em seu estado semiconsciente, mal conseguia processar.

​Quando a febre começou a ceder, ela abriu os olhos e o viu. Ele tinha tirado o casaco pesado, ficando apenas com uma regata preta que revelava os músculos tensos dos braços e os ombros largos, marcados pelo esforço de anos de serviço. Sob a luz fraca do abajur, ele parecia esculpido em sombras. Loren o observou enquanto ele umedecia uma toalha pequena para limpar o suco do rosto dela. Ele era bonito — de uma forma mais rústica e perigosa que James — e a atenção absoluta que ele dedicava a ela era quase hipnótica.

​— Você precisa beber um pouco de água — ele sussurrou, passando o braço por trás do pescoço dela para ajudá-la a subir.

​A proximidade fez o coração de Loren falhar. O cheiro dele — uma mistura de sabão, terra e algo puramente masculino — a envolveu. Por um segundo, ela esqueceu a dor. Mas, logo em seguida, a culpa a atingiu como um soco. Estar nos braços do irmão do marido, sentindo aquele calor, era uma traição que ela não sabia como nomear.

​— Vá descansar... — ela conseguiu dizer, a voz falha. — As crianças... a cozinha...

​— Já cuidei de tudo, Loren. A cozinha está limpa, as crianças já jantaram e estão prontas para dormir. Só descanse.

​Ele cumpriu a promessa. Elijah desceu, colocou os sobrinhos na cama com a paciência de um pai e terminou de organizar o que restava. Quando voltou ao quarto de Loren para uma última checagem, a viu dormindo profundamente. Exausto, ele se sentou na poltrona ao lado, mas o cansaço venceu. Sem perceber, acabou se acomodando na beirada da cama, ao lado dela, caindo em um sono pesado.

​A luz da manhã entrou timidamente pelas frestas da persiana. Loren acordou sentindo-se mais leve, a febre finalmente fora embora. Ela se virou e congelou.

​Elijah estava ali. Ele dormia de lado, de frente para ela. Sem a armadura de seriedade que usava durante o dia, seu rosto parecia mais jovem, quase vulnerável. Os cílios escuros descansavam sobre as maçãs do rosto fortes, e a barba por fazer dava a ele um ar desalinhado e sexy que Loren tentou, em vão, ignorar.

​Involuntariamente, como se sua mão tivesse vontade própria, ela estendeu os dedos. Ela queria saber se ele era real, ou se era apenas uma projeção de sua necessidade de ser cuidada. Suas pontas dos dedos tocaram levemente o maxilar dele, subindo para alisar o rosto quente.

​Elijah reagiu ao toque. Seus olhos se abriram devagar, encontrando os dela de imediato. Por um segundo infinito, nenhum dos dois se moveu. O ar no quarto pareceu desaparecer.

​Loren puxou a mão de volta como se tivesse se queimado, sentando-se bruscamente e puxando o lençol para o peito.

​— Eu... eu estava vendo se a sua febre também tinha subido — ela mentiu descaradamente, desviando o olhar para qualquer ponto da parede. — Você não deveria ter dormido aqui.

​Elijah sentou-se, passando a mão pelo cabelo bagunçado, um sorriso de lado quase imperceptível surgindo em seus lábios. Ele sabia que ela estava mentindo, mas não a pressionou.

​— Bom dia para você também, Loren. Fico feliz que esteja melhor.

​Ele se levantou, a presença física dele dominando o ambiente instantaneamente.

​— Vou preparar o café. As crianças vão gostar de ver que você está de pé.

​Ele saiu do quarto com passos firmes, deixando Loren sozinha com o eco do seu próprio batimento cardíaco. Ela olhou para a própria mão, a sensação da pele dele ainda formigando em seus dedos. A culpa ainda estava lá, mas agora, havia algo novo e assustador crescendo ao lado dela: o desejo de que ele não tivesse acordado tão cedo.

​Na cozinha, o som das crianças rindo com Elijah começou novamente. Loren respirou fundo, tentando recompor sua máscara de indiferença, mas sabia que, depois daquela noite, nada voltaria a ser exatamente como antes.