Entre Irmãos
7 Capítulo 7: O Fantasma do Verão de 2020
Loren estava parada na cozinha, observando Elijah pelo vidro da janela enquanto ele carregava Leo nos ombros pelo jardim. O sol da tarde batia no rosto dele, e por um segundo, o tempo dobrou-se sobre si mesmo. O presente desapareceu, e ela foi sugada de volta para aquele domingo abafado de janeiro, seis anos atrás.
Era o dia da despedida.
A mesa do almoço na casa dos Mackenzie ainda estava cheia de pratos sujos e restos de torta de maçã. James estava na sala, rindo com o pai sobre algum jogo de beisebol, enquanto a mãe deles tentava, sem sucesso, disfarçar os olhos vermelhos de tanto chorar. Elijah havia anunciado, do nada, que se alistaria. Ninguém entendeu. Ele tinha um emprego promissor na cidade e a lealdade do irmão.
Loren, sentindo um incômodo que não conseguia explicar, saiu pelos fundos e caminhou até a garagem aberta. O cheiro de óleo queimado e metal era forte. Elijah estava sob o capô de um Mustang 67 velho, as mãos cobertas de graxa negra, o rosto tenso em uma concentração quase agressiva.
— Elijah? — ela chamou, parando na entrada.
Ele não se virou. O som da chave de fenda batendo no metal foi a única resposta.
— Estão todos lá dentro esperando para dar tchau — Loren continuou, aproximando-se com cautela. — Sua mãe está arrasada. James não entende por que você está fazendo isso agora, logo quando estamos planejando a reforma da casa…
— James não precisa entender nada, Loren — Elijah cortou a frase, a voz gélida. Ele finalmente se ergueu, limpando as mãos em um pano imundo, sem olhar nos olhos dela. A indiferença dele era como uma barreira física.
— Mas por que, Elijah? — ela deu mais um passo, a voz carregada de uma urgência que nem ela compreendia. — Por que ir embora assim? Para a guerra? Para o perigo? Você tem tudo aqui.
Elijah soltou uma risada curta, desprovida de qualquer humor. Ele finalmente fixou os olhos nela, e Loren sentiu um calafrio. Havia uma chama de ressentimento e algo mais profundo, algo que ela não sabia ler, queimando naquelas íris escuras.
— "Tudo aqui"? — ele repetiu, a voz carregada de sarcasmo. — Eu não fui feito para essa vida sem graça, Loren. Essa vidinha doméstica, de cercas brancas e jantares de domingo, que você e meu irmão estão construindo… isso é uma prisão para mim. Eu preciso de ar, e aqui eu estou sufocando.
— Você está sendo egoísta — Loren sussurrou, chocada com a dureza dele.
— Talvez — ele deu de ombros, jogando o pano sujo sobre o motor. — Mas é melhor eu ser egoísta bem longe daqui do que continuar assistindo a esse teatro.
Ele passou por ela sem um segundo olhar, o ombro esbarrando levemente no dela, deixando-a sozinha na garagem escura, falando com as sombras. O barulho do motor do carro dele roncando minutos depois foi o som final de uma porta se fechando.
A memória mudou, saltando para meses depois. O dia do casamento.
Loren nunca se sentira tão bonita quanto naquele vestido de renda, sob o arco de flores brancas. James era a imagem da felicidade pura, segurando suas mãos e prometendo o mundo. Durante a festa, entre um brinde e outro, Loren sentiu que estava sendo observada.
Ela olhou para além do círculo de convidados, para a entrada da propriedade, longe das luzes douradas e da música.
Lá estava ele. Elijah.
Ele não usava terno, mas uma farda que o fazia parecer um estranho naquela paisagem bucólica. Ele não se aproximou. Ficou parado sob a sombra de um carvalho antigo, os braços cruzados, observando a celebração como um espectador assistindo a uma peça de teatro da qual não fazia parte.
Loren congelou por um momento, o sorriso vacilando. James a puxou para uma dança, girando-a no centro do gramado. Enquanto Loren rodava, seus olhos buscaram Elijah novamente. Ela o viu olhar para os pais, que riam com os vizinhos, e depois o viu focar nela e em James.
No momento em que James a beijou sob os aplausos dos convidados, Elijah virou o rosto. Não houve aceno, não houve sorriso de volta. Ele simplesmente deu as costas à luz, caminhando em direção à escuridão da estrada. Ele foi embora sem se despedir, exatamente como fizera na garagem, deixando apenas o rastro de sua ausência no dia que deveria ser o mais feliz da vida dela.
O som de Mia rindo no jardim trouxe Loren de volta ao presente. Ela piscou, afastando as lágrimas que ameaçavam cair.
Lá estava ele, o mesmo homem que a desprezara seis anos atrás, agora cuidando dos filhos do irmão com uma dedicação que desafiava tudo o que ele dissera na garagem. "Não fui feito para essa vida", ele dissera.
"Então por que você voltou, Elijah?", Loren pensou, o peito apertado. "E por que dói tanto saber que, naquela época, você estava fugindo de mim?"
Ela se afastou da janela antes que ele pudesse notar que ela o observava. A verdade sobre aquele verão ainda estava enterrada, mas Loren começava a sentir que as raízes daquele segredo estavam rachando o chão sob seus pés.
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