Entre Irmãos
4 Capítulo 4: O Peso do Orgulho e a Tempestade
A manhã de segunda-feira trouxe consigo a rotina implacável que Loren tanto temia. O barulho do ônibus escolar se afastando deixou a casa em um silêncio que, desta vez, não era pacífico, mas carregado de eletricidade estática. Loren estava sentada à mesa da cozinha, cercada por envelopes de papel pardo e notificações com tarjas vermelhas. A matemática não batia. O seguro de vida de James estava travado em burocracias, e as economias minguavam a cada ida ao supermercado.
Ela sentiu a presença dele antes de ouvi-lo. Elijah entrou na cozinha com o cabelo ainda úmido do banho, vestindo uma camiseta preta simples que acentuava sua postura rígida. Ele serviu uma caneca de café e, por um longo momento, apenas observou a pilha de papéis diante de Loren.
— Quanto é o total? — A pergunta dele foi direta, desprovida de qualquer preâmbulo.
Loren nem sequer levantou a cabeça. Suas mãos tremiam levemente enquanto ela organizava os boletos por ordem de urgência.
— Não é da sua conta, Elijah. Volte para o seu café.
— Loren, eu vi os avisos de corte. Não seja ridícula. Me dê essas contas, eu vou à cidade e resolvo tudo hoje mesmo.
Desta vez, ela ergueu os olhos. A fúria em seu olhar era tão cortante quanto o gelo.
— Eu já disse que não preciso do seu dinheiro. Eu não quero nada que venha de você. Prefiro ficar no escuro a ter que me sentir em dívida com um homem que passou anos fugindo de suas responsabilidades. Acha que pode comprar o perdão da nossa família com alguns cheques?
Elijah colocou a caneca sobre o balcão com um estalo seco. O limite da sua paciência, que ele vinha cultivando desde que chegara, finalmente se rompeu. Ele não recuou; pelo contrário, inclinou-se sobre a mesa, invadindo o espaço pessoal de Loren.
— Já chega! — Ele rugiu, fazendo Loren sobressaltar-se. — Deixe de ser tão cabeça dura e idiota! Isso não é sobre mim, nem sobre o seu orgulho ferido ou o quanto você me odeia. Isso é sobre o Leo e a Mia! Você prefere que eles fiquem sem luz e sem comida só para manter esse seu altar de mártir intocado? James está morto, Loren! Ele não vai voltar para pagar essas contas, e eu estou aqui. Sou eu quem está aqui!
— Saia da minha casa! — Ela gritou, levantando-se, as lágrimas de humilhação começando a arder em seus olhos.
— Eu vou sair. Mas não porque você mandou — ele rebateu, pegando as chaves do carro no balcão. — Vou sair para fazer o que um homem da família Mackenzie faz: cuidar dos seus.
Ele saiu batendo a porta com tanta força que os quadros na parede vibraram. Loren desabou na cadeira, enterrando o rosto nas mãos, sentindo o peso do mundo esmagá-la.
O dia passou como um borrão cinzento. Loren tentou trabalhar em seus próprios projetos, mas a voz de Elijah chamando-a de "cabeça dura" ecoava em sua mente. Ela sentia uma mistura tóxica de gratidão involuntária e um ódio profundo pela forma como ele a confrontara.
Quando a noite caiu, o som do motor do carro de Elijah anunciou seu retorno. Ele entrou na casa carregando várias sacolas de supermercado de luxo, caixas de brinquedos coloridos e sacos de doces que fariam qualquer criança delirar. Ele não disse uma palavra. Passou por ela na sala e começou a descarregar tudo sobre a mesa da cozinha.
Por último, ele tirou um maço de papéis do bolso e os jogou sobre a mesa, bem em cima da pilha de dívidas de Loren. Eram os comprovantes de pagamento. Todos eles. Quitados.
Loren olhou para os papéis e depois para ele, a garganta seca. Ela queria gritar, queria jogar tudo no chão, mas a visão das crianças correndo para a cozinha, atraídas pelo barulho das sacolas de doces, a impediu.
— Olha, mamãe! — Leo gritou, puxando um conjunto de Lego gigante de uma das sacolas. — O Tio Eli trouxe o castelo!
— E chocolate! — Mia exclamou, já tentando abrir um pacote de guloseimas.
Loren sentiu o ar faltar. Sem dizer uma palavra, ela se virou e caminhou em direção às escadas. Ela entrou em seu quarto, bateu a porta com violência e trancou-a, afundando-se na cama enquanto abafava um soluço no travesseiro. Ela odiava Elijah por ser tão necessário.
Lá embaixo, Elijah soltou um longo suspiro e olhou para os sobrinhos.
— Tudo bem, pessoal. Vamos guardar essas compras primeiro, e depois... bem, depois temos um castelo para construir.
Durante as próximas três horas, o som que subia pelas frestas do assoalho era o de risadas e o de peças de plástico se encaixando. Elijah cozinhou para eles, ajudou-os a guardar cada item na despensa e, pacientemente, sentou-se no tapete da sala para brincar de cavaleiros e dragões.
Loren ouvia tudo. Ela ouvia o tom suave da voz de Elijah contando histórias, o modo como ele fazia vozes diferentes para os personagens e como Mia ria até soluçar. Aquilo era uma tortura refinada. Ele estava preenchendo os buracos daquela casa com uma eficiência assustadora.
Por volta das nove da noite, o barulho diminuiu. Loren saiu do quarto silenciosamente e espiou pelo corrimão da escada. Elijah estava levando Mia no colo, já adormecida, em direção ao quarto da menina. Leo vinha logo atrás, segurando a mão do tio, bocejando profundamente.
Ela observou, escondida nas sombras, enquanto Elijah ajeitava as cobertas de cada um, depositava um beijo na testa de Leo e sussurrava algo que ela não conseguiu entender. Quando ele finalmente apagou a luz do corredor e se dirigiu ao seu exílio no quarto de hóspedes, Loren voltou para a segurança de seu próprio quarto.
Ela se deitou, mas o sono não veio. As contas estavam pagas, a despensa estava cheia e seus filhos haviam dormido felizes. Elijah havia vencido aquela batalha, mas a guerra dentro do coração de Loren estava longe de terminar. Ele podia comprar a paz da casa, mas jamais compraria o silêncio da sua consciência, que gritava que James deveria estar naquele lugar, e não o homem que agora dormia a apenas alguns metros dela.
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