Entre Irmãos

8 Capítulo 8: O Fantasma dos Natais Passados



​A sala estava decorada com o calor das luzes pisca-pisca que Elijah insistira em pendurar até no corrimão da escada. O cheiro de assado e canela preenchia a casa, e, pela primeira vez em muito tempo, o peso do luto parecia ter dado uma trégua. Loren, vestindo um suéter lilás que realçava seus olhos, permitiu-se o que achava impossível: ela sorriu. Um sorriso real, que surgiu quando viu Mia tentando, sem sucesso, colocar o anjo torto no topo da árvore enquanto Elijah a segurava no alto.

​A risada dela foi um som cristalino, fazendo Elijah parar e olhá-la. Por um instante, o tempo parou. Mas a luz das chamas na lareira refletindo nos olhos dele funcionou como um gatilho, puxando Loren para baixo, para uma memória que ela havia enterrado sob camadas de negação.

​Flashback: Natal de 2019

​James estava radiante. Ele segurava a mão de Loren com força enquanto entravam na casa dos Mackenzie. Era a primeira vez que ela conheceria a família oficialmente como "a namorada de James".

​— Mãe, pai! Esta é a Loren — James anunciou, orgulhoso.

​Após os abraços calorosos dos sogros, um vulto saiu da cozinha. Era Elijah. Ele estava mais magro na época, com um olhar que parecia carregar o peso do mundo.

​— E este é meu irmão caçula, Elijah — James disse, dando um tapa amigável no ombro dele. — Elijah, esta é a Loren.

​Elijah congelou. Ele não estendeu a mão imediatamente. Ele a olhou de um modo diferente — não era a curiosidade de um cunhado, era o choque de um reconhecimento profundo. Loren sentiu o chão oscilar. Aqueles olhos... ela já os conhecia.

​Sua mente voou para seis meses antes daquele jantar. Uma festa de fogueira na beira do lago, no solstício de verão. Ela tinha ido com algumas amigas e acabado se afastando da música alta para observar as estrelas. Lá, sentado em um tronco caído, estava um rapaz de poucas palavras, mas de uma conversa avassaladora.

​Eles haviam passado a noite toda conversando. Falaram sobre sonhos de fuga, sobre o cheiro da chuva no asfalto quente e sobre como as pessoas raramente diziam o que realmente sentiam. Eles não trocaram nomes, apenas almas, sob a luz das chamas. No fim da noite, ele teve que sair às pressas para ajudar um amigo, e Loren nunca mais o viu... até aquele momento, na sala de estar de James.

​James não sabia. Ninguém sabia. Elijah a olhou fixamente por dois segundos — dois segundos que pareceram horas — antes de desviar o olhar e murmurar um "Prazer em conhecer" forçado, saindo da sala logo em seguida. Loren passou o restante daquele jantar sentindo que o ar era feito de vidro estilhaçado.

​Presente

​— Loren? Terra chamando Loren!

​O estalar de dedos de Elijah na frente do seu rosto a trouxe de volta com um solavanco. Ela piscou, desorientada, vendo o rosto de Elijah agora mais maduro, a poucos centímetros do dela.

​— Você viajou para longe agora, hein? — ele brincou, embora houvesse uma centelha de curiosidade em seus olhos.

​— Eu... eu só me distraí — ela murmurou, ajeitando o cabelo, o coração ainda disparado pela lembrança daquela fogueira.

​— Bem, volte para nós, porque seu filho está fazendo perguntas para as quais eu não recebi treinamento militar — Elijah disse, apontando para Leo, que estava sentado no tapete com uma expressão de seriedade absoluta.

​— Mamãe — Leo começou, cruzando os braços de um jeito que lembrava assustadoramente o pai. — O Tio Eli disse que bebês vêm da semente do amor, mas eu quero saber a mecânica da coisa. Como o bebê entra na barriga? O papai teve que abrir um buraco com uma furadeira?

​Loren sentiu o rosto esquentar instantaneamente, passando do lilás para o vermelho vivo. Ela olhou para Elijah em busca de socorro, mas o encontrou com um sorriso travesso no rosto, claramente se divertindo com o desespero dela.

​— É, Loren — Elijah provocou, cruzando os braços e encostando-se no batente da porta. — Como é a mecânica da coisa? Explica para o garoto. Eu também estou curioso para ouvir a sua versão.

​Loren pegou uma almofada e jogou na direção de Elijah, que a pegou no ar, rindo abertamente. O clima era leve, mas por baixo do riso, Loren não conseguia parar de pensar que o homem que agora cuidava da sua família era o mesmo estranho da fogueira, aquele que a ouviu falar sobre seus sonhos antes mesmo de James saber o nome dela.