Entre Irmãos

9 Capítulo 9: O Segredo do Papel e das Chamas



​O silêncio finalmente se instalou na casa, quebrado apenas pelo estalar da lenha que ainda ardia na lareira. Leo e Mia tinham caído no sono em meio aos brinquedos novos, e Elijah os carregara para cima com a facilidade de quem já conhecia o ritmo de seus sonhos. Quando ele desceu, encontrou Loren sentada no sofá, segurando uma caneca de chocolate quente que já havia esfriado, os olhos fixos no vazio.

​Elijah sentou-se na poltrona oposta, observando-a. Havia algo diferente no ar naquela noite de Natal. A barreira de gelo de Loren não estava apenas derretendo; parecia estar evaporando.

​— Você ficou estranha depois da pergunta do Leo — Elijah comentou, quebrando o silêncio. — A "mecânica da coisa" te deixou sem palavras?

​Loren deu um sorriso fraco, mas não desviou o olhar da lareira.

​— Não foi isso. Foi a lembrança. Às vezes, o passado resolve bater na porta sem avisar, especialmente no Natal.

​Elijah franziu a testa, sentindo a mudança de tom.

​— Elijah... — ela começou, a voz baixa, quase um sussurro. — Você se lembra de como estava o céu naquela noite da fogueira, anos atrás? Antes de tudo? Antes de James?

​O corpo de Elijah ficou rígido no mesmo instante. Ele parou de respirar por um segundo, os olhos fixos nela. Ele nunca tinha falado sobre aquela noite. Ele tinha certeza de que ela havia esquecido, ou que o brilho de James tinha apagado aquele estranho do lago da memória dela.

​— Eu não sei do que você está falando — ele mentiu, mas sua voz saiu ríspida demais, denunciando-o.

​— Sabe sim. — Loren finalmente olhou para ele. — O céu estava cor de chumbo antes da lua sair. Você me falou sobre como as estrelas parecem diferentes quando estamos longe da cidade. Você me ouviu por horas. Eu não sabia o seu nome, e você não sabia o meu.

​Elijah desviou o olhar, sentindo o peso do segredo que carregava como uma armadura enferrujada.

​— Foi só uma noite, Loren. Foi há uma vida atrás.

​— Para você, talvez. — Ela colocou a caneca na mesa de centro e se inclinou para frente. — Mas eu não esqueci. Na verdade, eu procurei por você.

​Desta vez, Elijah olhou para ela, o choque estampado em seu rosto.

​— O quê?

​— Na semana seguinte àquela festa, eu fui até aquela pequena papelaria perto do lago — Loren continuou, a voz trêmula. — Você mencionou que costumava comprar cadernos de desenho lá porque o papel era grosso o suficiente para o grafite que você usava. Eu passei três tardes sentada no café em frente, esperando ver aquele cara de poucas palavras entrar por aquela porta. Eu queria te agradecer por ter me feito sentir... vista. De um jeito que ninguém nunca tinha feito.

​Elijah fechou os olhos, sentindo uma pontada de dor no peito.

​— Eu nunca voltei àquela papelaria — ele confessou, a voz rouca. — James me chamou para ajudar na oficina no dia seguinte. E então, meses depois, ele me disse que tinha conhecido a mulher da vida dele. Quando ele te levou naquela casa... quando ele disse "esta é a Loren"... eu senti como se o mundo tivesse caído sobre a minha cabeça.

​O silêncio que se seguiu foi denso, carregado de "e se". A revelação de que ela o procurara antes mesmo de conhecer o irmão dele era uma peça do quebra-cabeça que Elijah nunca imaginou que existia.

​— Por que você nunca disse nada? — ela perguntou, uma lágrima solitária escorrendo pelo rosto. — Naquele jantar de Natal, por que fingiu que eu era uma estranha?

​— O que você queria que eu fizesse? — Elijah explodiu em um sussurro sofrido, levantando-se e caminhando até ela. — James estava feliz. Ele te amava. Ele era meu irmão, Loren! Ele era o herói, o cara certinho, o cara que merecia a garota. Eu era o irmão problemático que só sabia fugir. Como eu poderia dizer para ele: "Sabe essa mulher que você ama? Eu me apaixonei por ela numa fogueira antes de você"?

​Loren levantou-se também, ficando cara a cara com ele. A tensão entre os dois era palpável, uma mistura de mágoa antiga e uma eletricidade nova e inegável.

​— Você nos privou de uma escolha, Elijah.

​— Eu protegi o meu irmão! — ele rebateu, embora soubesse que, no fundo, também estava se protegendo da dor de ser rejeitado por ela em favor de James.

​Elijah deu um passo atrás, passando a mão pelo rosto, tentando recuperar o controle.

​— Agora você sabe por que eu fui embora. Eu não podia ficar e ver você se tornar a esposa dele, dia após dia, sabendo que eu tinha perdido a minha chance antes mesmo de saber o seu sobrenome.

​Loren o observava, o peito subindo e descendo com a respiração pesada. A imagem do Elijah indiferente da garagem começou a desmoronar, revelando o homem que havia sacrificado seu próprio coração por lealdade ao irmão.

​— E por que voltou agora? — ela perguntou, a voz quase sumindo.

​Elijah olhou para ela, e por um breve momento, toda a verdade brilhou em seus olhos — a mesma verdade que ele tentava esconder desde o funeral.

​— Porque quando ele morreu, eu percebi que não havia mais ninguém para proteger você e as crianças. E porque, lá no fundo... eu ainda sou aquele cara da papelaria que você nunca encontrou.

​Ele não esperou por uma resposta. Elijah se virou e subiu as escadas em direção ao seu quarto, deixando Loren sozinha na sala iluminada pelas luzes de Natal, com a certeza de que a história deles não começou com um acidente, mas com uma fogueira que nunca se apagou de verdade.