Entre Irmãos
3 Capítulo 3: O Eco do Riso
O sol de sábado nasceu com uma insistência que Loren não apreciava. Para ela, a luz parecia um insulto à penumbra em que sua alma se encontrava. Ela se arrastou para fora da cama, os pés descalços encontrando o chão frio, e por um breve segundo, esticou a mão para o lado esquerdo do colchão. O vazio que encontrou foi como um choque elétrico de realidade. James não estava lá. Nunca mais estaria.
Ao descer as escadas, o silêncio que ela esperava encontrar — aquele silêncio pesado e opressor que se tornara seu único companheiro — havia sido substituído por algo que ela não ouvia há semanas: o som de uma gargalhada genuína vinda do quintal.
Loren parou na porta da cozinha, a mão apertando o batente de madeira com tanta força que os nós dos dedos ficaram brancos. Através da janela de vidro, ela viu a cena que parecia um borrão de memórias proibidas.
Elijah estava de joelhos na grama alta, com as mangas da camisa de flanela dobradas até os cotovelos. Ele estava agindo como um cavalo para Mia, que se segurava em seu pescoço com as mãos gordinhas, rindo tão alto que seu rostinho estava vermelho. Leo corria em volta deles com um avião de papel, fazendo sons de motor, os olhos brilhando de uma forma que Loren achou que tinha se apagado para sempre.
— Mais rápido, Tio Eli! Mais rápido! — gritava Mia, batendo os pezinhos nas costelas dele.
Elijah soltou um relincho fingido e começou a trotar pelo jardim, fingindo tropeçar para fazer a menina gargalhar ainda mais. Loren sentiu uma pontada no estômago que não era fome. Era uma náusea ácida provocada pelo contraste. Ver Elijah ali, sob a mesma luz dourada que costumava iluminar James, era como ver um fantasma tentando vestir as roupas de um homem vivo.
Ela abriu a porta dos fundos com um solavanco. O som da madeira batendo contra a parede fez o riso cessar abruptamente.
— Leo, Mia. Para dentro. Agora — a voz de Loren saiu mais aguda do que ela pretendia.
As crianças pararam no lugar. Mia desceu das costas de Elijah, o sorriso murchando lentamente. Leo baixou o avião de papel, olhando de Elijah para a mãe com uma expressão de confusão.
— Mas a gente está brincando, mamãe! O Tio Eli sabe consertar aviões! — Leo protestou, a voz carregada daquela teimosia infantil que ele herdara do pai.
— Eu disse agora, Leonardo. O café está na mesa. E vocês não pediram permissão para sair.
Elijah levantou-se lentamente, limpando a grama dos joelhos da calça jeans. Ele não olhou para Loren de imediato; ele manteve o olhar nas crianças, oferecendo-lhes um sorriso pequeno e tranquilizador.
— Vão lá, pessoal. A mãe de vocês tem razão, precisam se alimentar. Depois a gente vê se esse avião consegue chegar até a lua.
As crianças caminharam em direção à casa, passando por Loren como se ela fosse uma nuvem de tempestade interrompendo um dia de sol. Quando eles entraram, o silêncio entre os dois adultos tornou-se um abismo.
— O que você pensa que está fazendo? — Loren perguntou, a voz agora num sussurro carregado de veneno.
— Brincando com meus sobrinhos, Loren. Eles são crianças. Eles precisam disso.
— Eles precisam do pai deles! — ela explodiu, dando um passo à frente, embora ainda mantivesse uma distância de segurança de dois metros. — Eles não precisam de um substituto de fim de semana que aparece com truques de mágica e promessas de consertar brinquedos. Você acha que se agitar um pouco na grama vai apagar o fato de que eles não têm mais ninguém?
Elijah finalmente fixou os olhos nos dela. A intensidade do olhar dele a fez querer recuar. Havia uma dor ali que ele não demonstrava para as crianças, uma sombra que combinava com a dele.
— Eu sei que não sou ele, Loren. Eu sinto o peso da ausência do James em cada respiração que dou nesta casa. Mas eu não estou tentando ser ele. Estou tentando ser o que restou para eles.
— Pois não tente. Fique no seu canto. Fique no seu quarto de hóspedes, coma a comida que eu ponho na mesa se quiser, mas não toque neles. Não crie uma conexão que você vai quebrar assim que se cansar de brincar de "bom tio" e decidir fugir de novo.
— Eu não vou a lugar nenhum — Elijah afirmou, sua voz soando como um juramento.
— Já ouvimos isso antes, não é? — Loren soltou uma risada amarga e sem humor. — Guarde suas promessas para quem acredita nelas. Para mim, você é apenas um lembrete constante do que eu perdi. Cada vez que eles sorriem para você, parece que estão esquecendo dele. E eu não vou permitir isso.
Ela deu as costas a ele, sentindo o calor das lágrimas queimando seus olhos, mas recusando-se a deixá-las cair. Ela entrou na cozinha, onde as crianças comiam em um silêncio tenso, o brilho nos olhos de Leo já substituído por aquela cautela que ninguém de cinco anos deveria possuir.
Loren começou a lavar a louça com uma ferocidade desnecessária. Ela ouviu os passos de Elijah na varanda, o som das botas pesadas indicando que ele não entraria. Em vez disso, ela o viu através da janela, pegando o ancinho e começando a trabalhar no jardim abandonado.
Ele não discutiu. Ele não revidou. Ele simplesmente aceitou o abuso dela e continuou a trabalhar.
Aquela passividade a irritava ainda mais. Se ele gritasse, se ele fosse grosseiro, seria fácil odiá-lo. Seria fácil expulsá-lo. Mas ele se mantinha ali, como uma rocha sendo açoitada pelas ondas, imóvel e persistente.
Durante o resto do dia, Loren manteve as crianças dentro de casa. Ela inventou tarefas, leituras e jogos, tentando desesperadamente preencher o espaço que Elijah havia ocupado pela manhã. Mas Leo ficava olhando pela janela, observando o tio carregar sacos de terra e podar os arbustos mortos.
À tarde, quando Mia tirava sua soneca, Loren sentou-se na poltrona da sala com um livro que não conseguia ler. Ela ouviu a porta da frente abrir e fechar. Passos subiram a escada. O quarto de hóspedes rangeu.
Ela se levantou e foi até a cozinha para pegar um copo d'água. Na mesa, ela encontrou o avião de papel de Leo. Elijah o havia deixado ali, mas estava diferente. Ele tinha reforçado as dobras com fita adesiva transparente e desenhado pequenas insígnias de "capitão" nas asas.
Loren amassou o papel na mão, o impulso de jogá-lo no lixo era quase incontrolável. Mas então ela pensou no rosto de Leo ao ver o brinquedo consertado. Com um suspiro de derrota e ódio por sua própria fraqueza, ela deixou o avião sobre a mesa e voltou para a sala.
A presença de Elijah era como uma corrente elétrica subjacente na casa. Mesmo quando ele não estava no mesmo cômodo, Loren podia senti-lo. O cheiro de chuva e pinheiro que ele trazia consigo parecia impregnar as cortinas.
Ela odiava o fato de que a casa parecia menos vazia com ele lá. Odiava ainda mais o fato de que, por um segundo, ao ouvir o riso de Mia no jardim, ela quase tinha esquecido de sentir dor. E para Loren, esquecer a dor era a maior traição de todas.
Ao anoitecer, ela preparou o jantar em silêncio absoluto. Ela serviu os pratos das crianças e o seu. Deixou o prato de Elijah coberto sobre o fogão, sem chamá-lo. Se ele quisesse comer, que viesse como o intruso que era.
Ela o ouviu descer as escadas muito depois de as crianças estarem deitadas. Ela estava na sala, na penumbra, assistindo a qualquer coisa na TV sem volume. Elijah entrou na cozinha, o som de talheres batendo no prato foi o único sinal de sua presença.
Dez minutos depois, ele parou na entrada da sala. Ele não entrou no tapete, mantendo-se no limite do corredor, como se respeitasse uma fronteira invisível.
— O jardim está limpo — ele disse baixo. — Amanhã vou verificar as calhas. Estão entupidas e vai chover forte na segunda.
Loren não desviou os olhos da TV.
— Faça o que quiser, Elijah. Só não espere um agradecimento.
— Eu não estou aqui por agradecimentos, Loren.
— Ótimo. Porque você nunca terá um.
Ele permaneceu ali por mais alguns segundos, talvez esperando uma trégua que nunca viria. Por fim, ele se virou e subiu para o seu exílio no quarto de hóspedes.
Loren finalmente desligou a TV. O silêncio voltou, mas não era mais o silêncio de antes. Era um silêncio compartilhado, tenso e carregado de tudo o que não podia ser dito. Ela subiu para o quarto, passando pela porta dele. Ela parou por um milésimo de segundo, ouvindo o som de algo sendo movido lá dentro.
"Ele tem o mesmo peso no passo que James", ela pensou, e aquela percepção a fez apressar o passo e trancar sua porta, como se pudesse trancar o mundo e sua própria confusão do lado de fora.
O riso das crianças ainda ecoava em seus ouvidos, e cada nota de alegria parecia um prego no caixão de sua antiga vida. Elijah estava ganhando terreno, e Loren não sabia quanto tempo mais conseguiria lutar contra a invasão daquela luz indesejada.
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