Entre Grades e Destinos

4 O Teste Final e a Liberdade Conquistada



​O tempo em Rikers Island parecia correr de forma diferente para cada um, mas para Ashley e Matteo, os dias simplesmente voaram. Oito consultas haviam se passado desde aquele segundo encontro. O histórico na prancheta de Ashley era cirúrgico: uma marcação vermelha e agressiva na primeira página, seguida por oito círculos verdes perfeitos. Matteo havia sido impecável. Não houve mais deboche, não houve mais ameaças. Ele se portara como o detento modelo que prometera ser.

​No dia da décima e última consulta, Ashley decidiu fazer algo diferente. Antes de descer para a sala de atendimento, ela caminhou pelos blocos e conversou com os funcionários que conviviam com Matteo diariamente.

​— Ele mudou muito nos últimos meses, Dra. Park — relatou o chefe da cozinha, enquanto organizava os caldeirões. — Matteo ajuda a carregar os fardos mais pesados, nunca reclama da comida e mantém o setor limpo.

​Na oficina mecânica e na horta do presídio, os relatos se repetiram.

​— Ele passou semanas ajudando a plantar os canteiros novos e consertando as ferramentas que quebravam — comentou um dos guardas da oficina. — O cara está focado. Parece que a mente dele já está na rua faz tempo.

​Satisfeita, mas mantendo a guarda alta, Ashley voltou para a ala administrativa. Ao abrir a porta de sua sala, Matteo já estava lá, sentado à mesa. Ela olhou para o Guarda Jones, que vigiava o detento de perto.

​— Jones, pode tirar as algemas dele. E por favor, aguarde do lado de fora. Quero fazer esta última avaliação sem interrupções — ordenou ela, com a voz serena.

​Jones arregalou os olhos, claramente hesitante. Ele olhou para Matteo, depois para o botão de emergência sob a mesa.

​— Tem certeza, doutora? É o filho do Blake. As regras de segurança dizem que...

​— Eu sei o que as regras dizem, Jones. Mas eu sou a psicóloga dele. Está tudo bem, pode sair — interrompeu ela, com um aceno firme.

​Relutante, o guarda destrancou as algemas de Matteo, liberando seus pulsos e a corrente do chão, e saiu da sala, fechando a porta pesada de metal atrás de si.

​Matteo massageou os pulsos, olhando para Ashley com uma mistura de surpresa e curiosidade.

​— Me deixar solto com você na sala? Isso é um voto de confiança ou um teste de coragem, loira? — ele perguntou, a voz grave quebrando o silêncio.

​Ashley sentou-se na cadeira à frente dele, cruzando as mãos sobre o relatório final. Ela o encarou nos olhos, a expressão séria, quase melancólica.

​— Matteo, eu passei a manhã inteira conversando com os funcionários do presídio. Fui à cozinha, à oficina, à horta. Todos foram unânimes: sua conduta tem sido exemplar. Você realmente se esforçou.

​Matteo deu um meio sorriso, relaxando os ombros.

​— Fico feliz que tenha notado. Eu disse que estava falando sério.

​— Mas... — Ashley fez uma pausa, respirando fundo, e o sorriso de Matteo vacilou. Ela endureceu o olhar. — Infelizmente, eu não posso ser conivente com o seu histórico e simplesmente assinar a sua soltura imediata. Há muita coisa em risco aqui, Matteo. O seu sobrenome carrega um peso de sangue e violência organizado. Eu preciso ter certeza absoluta de que você é seguro para andar nas ruas de Nova York. Por isso, meu laudo vai indicar que você precisa de mais alguns anos... dois anos, especificamente, em regime fechado, para que possamos consolidar essa sua nova personalidade.

​O ambiente na sala pareceu congelar. A calmaria no rosto de Matteo desapareceu instantaneamente. A raiva o consumiu de forma avassaladora; ele sentiu o sangue ferver nas veias. Ele se levantou abruptamente da cadeira, a cadeira arrastando com um barulho estridente no chão de concreto.

​Matteo começou a andar de um lado para o outro na sala estreita, como um predador enjaulado, os punhos cerrados e a mandíbula tão travada que os músculos do seu rosto saltavam. Ashley manteve-se imóvel, com os dedos frios tocando levemente o botão de pânico sob a mesa, observando cada movimento dele.

​Depois de alguns segundos de uma tensão sufocante, Matteo parou. Ele fechou os olhos, respirou fundo duas vezes, controlando a tempestade interna com uma força de vontade impressionante. Para a surpresa de Ashley, ele caminhou de volta até a mesa e sentou-se devagar, encarando-a com o olhar frio, mas totalmente controlado.

​— Tudo bem — Matteo disse, a voz saindo baixa e pausada. — Tudo bem. Eu aguentei cinco anos neste inferno, doutora. Mais dois anos não vão me quebrar. Você está certa em fazer isso. É o seu trabalho. Você precisa proteger a sua integridade e o sistema. Se você acha que eu preciso de mais dois anos para provar quem eu sou... eu vou cumprir cada dia.

​Ashley olhou para ele em silêncio por um longo momento. O autocontrole que ele acabara de demonstrar era exatamente o que ela precisava ver. Sem dizer uma única palavra, ela soltou um suspiro profundo, abriu a última página do arquivo e anotou algo rapidamente com sua caneta.

​Ela fechou a pasta com um estalo, levantou-se e caminhou até a porta. Antes de sair, ela olhou para ele uma última vez sobre o ombro, deixando-o sozinho na sala escura.

​Na manhã seguinte, o som alto do cassetete batendo nas grades acordou Matteo antes do amanhecer. Ele se sentou no beliche, confuso, vendo o Guarda Jones parado ali com um sorriso estranho no rosto e uma sacola de papel nas mãos.

​— Acorda, Blake. Alguém veio te buscar. Sua mãe já está te esperando lá na frente — Jones disse, destrancando a grade e jogando a sacola na cama. — Veste as suas roupas civis. Seus pertences estão aí dentro.

​Matteo franziu a testa, completamente desorientado.

​— O que está acontecendo, Jones? A doutora me negou ontem.

​— Só faz o que estou mandando, garoto. Vá para a sala do delegado.

​Minutos depois, vestindo uma calça jeans e uma jaqueta escura que vieram de fora, Matteo entrou na sala do Delegado Vance. O homem grisalho não parecia feliz, mas empurrou um calhamaço de papéis oficiais na direção dele, junto com uma chave eletrônica.

​— Assine aqui, Blake. Sua condicional foi aprovada — Vance disse, rispidamente.

​Matteo congelou com a caneta na mão, os olhos escaneando o papel timbrado com o carimbo oficial de APROVADO.

​— Mas a Dra. Park... ela me disse ontem que...

​— A Dra. Park fez um relatório impecável sobre você, rapaz. Ela só precisava ver como você reagiria sob extrema pressão e rejeição. E você passou — Vance explicou, cruzando os braços. — Mas não ache que está totalmente livre. Você vai para o programa de habitação supervisionada pelo governo. Aqui está o endereço do prédio federal em Manhattan. Você precisa estar dentro do seu quarto naquele prédio, sem falta, todas as noites às vinte e duas horas.

​O delegado apontou para uma cláusula específica no documento.

​— E tem mais: Ashley Park continuará sendo a sua psicóloga responsável por todo o período da condicional. Você irá até o consultório particular dela, em Manhattan, para as sessões semanais. O endereço e os horários estão na papelada. Boa sorte com o seu recomeço, Blake. Não me faça ir atrás de você.

​Matteo assinou os papéis, a mente trabalhando a mil por hora. Ele segurou a chave eletrônica e um sorriso genuíno começou a brotar em seus lábios. Aquilo tudo foi um teste. Ela o testou até o último segundo, provocando sua pior reação para ver se ele realmente havia mudado. E ele vencera o jogo dela.

​Ao cruzar os portões externos de Rikers Island, o vento frio de Nova York bateu em seu rosto. Estacionado logo à frente, um sedã preto blindado aguardava. Selina Marquet Blake estava encostada na porta do carro. Ao ver o filho, a elegância fria da mulher desmoronou e ela abriu um sorriso largo.

​Matteo caminhou até ela e a envolveu em um abraço apertado, sentindo o cheiro do perfume caro da mãe.

​— Você conseguiu, meu filho — Selina sussurrou, afastando-se para olhá-lo. — O carro está pronto. Vamos para casa. Seu pai preparou um jantar em Long Island...

​— Não, mãe — Matteo a interrompeu delicadamente, mostrando o papel do governo. — Pelas regras da condicional, por um ano eu preciso morar no prédio federal de transição. É monitorado. Me leva até lá, preciso me estabelecer antes do toque de recolher.

​Selina suspirou, descontente com as regras do governo, mas assentiu.

​— Tudo bem. Se é o preço para ter você fora desse buraco, nós vamos.

​O apartamento no prédio federal era surpreendentemente confortável. Após se despedir de sua mãe, que prometeu enviar um alfaiate no dia seguinte, Matteo trancou a porta e avaliou o local. Havia uma TV de tela plana na parede, ar-condicionado silencioso, um frigobar bem abastecido, fogão elétrico e armários cheios de compras essenciais que o programa do governo fornecia. O banheiro era moderno e limpo. Ele podia sair durante o dia para procurar emprego ou estudar, mas às 22h00 em ponto, o sistema biométrico da porta travaria e ele precisaria estar deitado.

​Sentando-se na cama de casal, Matteo avistou um notebook novo sobre a escrivaninha, também fornecido pelo programa de reinserção social. Ele ligou o aparelho, conectou-se à internet e, movido por um impulso que vinha reprimindo há meses, abriu o navegador e digitou o nome de Ashley nas redes sociais.

​Não demorou muito para achar o perfil dela no Instagram. Ashley Park. O perfil era aberto. Matteo apoiou os cotovelos nos joelhos, fascinado, passando pelas fotos. Havia imagens dela sorrindo na formatura, vídeos curtos dela rindo com a amiga no apartamento, fotos na biblioteca da faculdade com os cabelos loiros soltos e um olhar brilhante. Ela parecia tão viva, tão real fora daquela sala de prisão cinzenta.

​Com um sorriso de canto nos lábios, ele clicou no botão de mensagem privada e digitou:

​Matteo: Obrigado pela assinatura no laudo, Dra. Park. E parabéns pela atuação ontem. Você quase me pegou.

​A resposta não demorou mais do que cinco minutos para aparecer na tela.

​Ashley: Você passou no teste, Matteo. Demonstrou o controle emocional que eu precisava para garantir que você não seria uma ameaça na rua. Mas lembre-se: eu ainda estou de olho em você. Temos nossa primeira consulta no meu consultório particular na próxima semana. Não se atrase.

​Matteo sorriu largo, digitando rapidamente:

​Matteo: Pode apostar que eu estarei lá. Espero ansioso pela nossa sessão, loira.

​A resposta dela veio seca e profissional, mas Matteo conseguia imaginar a voz dela ao ler:

​Ashley: É para você se comportar e cumprir o toque de recolher. Boa noite, Sr. Blake.

​Logo em seguida, o status dela mudou para offline. Ashley fechou o notebook com um estalo rápido, o coração batendo um pouco mais rápido do que o normal no silêncio do seu próprio quarto no Brooklyn. Ela soltou o ar que nem percebeu que prendia e sorriu de forma boba para a tela apagada.

​Ao sair do quarto para pegar um copo de água na cozinha, Ashley deu de cara com Sofia, que estava sentada no balcão comendo uma torrada. Sofia estreitou os olhos ao notar a expressão leve e o sorriso discreto nos lábios da amiga.

​— Ei... que sorriso bobo é esse aí na sua cara, dona Ashley? — Sofia perguntou, arqueando uma sobrancelha. — Conseguiu um aumento no primeiro dia de consultório ou o quê?

​Ashley limpou o pigarro rapidamente, desfazendo o sorriso e pegando a garrafa de água na geladeira, tentando desviar do assunto o mais rápido possível.

​— Nada, Sofi. Só estou aliviada que o meu caso mais complexo de Rikers Island foi resolvido e correu tudo bem. Estou cansada, vou pro quarto dormir. Boa noite! — respondeu Ashley, fugindo apressada de volta para o corredor.

​Sofia olhou para a porta do quarto da amiga se fechando, desconfiada, mas deu de ombros, voltando a comer. Mal sabia ela que o verdadeiro jogo entre a psicóloga e o herdeiro da máfia estava apenas começando, agora sob as luzes brilhantes de Manhattan.