Entre Grades e Destinos
5 Entre a Ética e o Desejo
A manhã em Manhattan havia começado caótica para a Dra. Ashley Park. O despertador não havia tocado, o trânsito na avenida principal estava completamente travado e, para piorar, ela havia perdido o ônibus das 07h15. Ashley corria pela calçada segurando sua bolsa de couro em um braço e um copo de café térmico no outro, com os cabelos loiros desalinhados pelo vento e a respiração arquejante. Ela havia esquecido completamente de checar a agenda daquela manhã; só sabia que tinha uma consulta marcada para as 08h00 em ponto e que já estava atrasada.
Ao empurrar a porta de vidro do seu novo consultório particular, o som do sino acima da entrada ecoou pelo ambiente sofisticado, decorado em tons de bege e madeira clara.
— Bom dia, Dra. Park! — cumprimentou a recepcionista, Clara, olhando para o estado afobado da chefe. — O seu paciente das oito horas já chegou. Ele está te aguardando na sala de atendimento.
— Obrigada, Clara! — Ashley respondeu, sem parar de andar. — Eu sinto muito pelo atraso, avise que já vou entrar!
Ela caminhou rapidamente pelo corredor, ajeitando o blazer escuro com uma das mãos. Abriu a porta da sua sala de forma estabanada, entrando quase sem fôlego e já disparando a falar antes mesmo de olhar para quem estava sentado na poltrona:
— Mil desculpas pelo atraso! Meu Deus, eu sinto muito mesmo. Perdi o ônibus, o trânsito em Manhattan estava um verdadeiro caos absoluto hoje de manhã e para ajudar eu acabei...
— Eu nunca imaginei que veria esse seu lado travesso e desorganizado, Dra. Park. É uma visão fascinante.
Ashley travou no meio do passo. A voz grave, aveludada e inconfundível fez seu coração dar um salto no peito. Ela ergueu os olhos e deu de cara com Matteo Blake.
Ele estava sentado confortavelmente na poltrona de couro marrom, com as pernas cruzadas de forma elegante. Vestia um terno cinza sob medida, sem gravata, e com os primeiros botões da camisa branca abertos, revelando de leve o início de suas tatuagens no pescoço. O cabelo estava perfeitamente penteado e um sorriso divertido e charmoso dançava em seus lábios.
Ashley soltou um longo suspiro, deixando os ombros caírem. Toda sem graça, ela sentiu as bochechas corarem imediatamente. Levou as mãos aos cabelos loiros, tentando arrumar os fios ondulados que o vento havia bagunçado.
— Matteo... — ela murmurou, a voz perdendo um pouco da imponência profissional. — Eu não sabia que era você o primeiro da lista hoje.
— Se eu soubesse que meu atraso causaria essa recepção tão... calorosa, eu teria vindo mais vezes de terno — Matteo brincou, piscando para ela.
Ashley caminhou até a sua mesa, respirando fundo para recuperar a compostura. Antes de se sentar, ela apertou o botão do interfone conectado à recepção.
— Clara? Por favor, traga dois cafés expressos bem fortes aqui na sala. Obrigada.
Ela se acomodou em sua cadeira de couro, organizou os papéis do prontuário eletrônico no notebook e encarou o homem à sua frente. A vergonha inicial logo deu lugar a uma atmosfera leve.
A conversa entre os dois fluiu de forma animada e surpreendentemente natural, longe do peso e da frieza das paredes de Rikers Island. Eles riram da situação do trânsito de Nova York e Matteo contou, de forma bem-humorada, como estava sendo sua adaptação às regras rígidas de recolher do prédio federal.
Minutos depois, Clara bateu à porta e entrou trazendo uma bandeja com duas xícaras de porcelana fumegantes. Ashley agradeceu com um sorriso, pegou a bandeja e, de forma gentil, serviu o café para Matteo.
— Aqui está. Espero que goste de café forte — disse ela, entregando a xícara.
— Vindo de você, doutora, eu tomo qualquer coisa — Matteo respondeu, os dedos tocando levemente os dela ao pegar a xícara. O toque sutil enviou uma corrente elétrica pelo braço de Ashley, que desviou o olhar rapidamente, fingindo focar em suas anotações.
Eles continuaram conversando enquanto bebiam. No entanto, Ashley sabia onde traçar a linha. Com extrema habilidade, ela começou a conduzir a conversa para o lado clínico, fazendo perguntas precisas sobre a rotina dele.
— E como estão os estudos, Matteo? Você já deu entrada na documentação para o curso de Administração? — ela perguntou, digitando no notebook.
— Já sim. Começo no próximo mês — Matteo respondeu, adotando um tom mais sério e focado. — Estou cumprindo todas as metas. Não cheguei perto de nenhum antigo conhecido da família e estou em casa todos os dias antes das dez da noite. Como prometi.
Ashley olhou para a tela, depois para ele, e um sorriso genuíno e orgulhoso surgiu em seus lábios azuis.
— Excelente. Fico feliz em ouvir isso.
Ela digitou mais algumas considerações no prontuário, anotando o progresso visível dele e, em seguida, fechou a tela do aparelho, indicando o fim do atendimento.
— Bom, por hoje é só, Matteo. Você continua indo muito bem. Mantendo esse ritmo, o juiz da condicional não terá do que reclamar.
Matteo terminou seu café, colocou a xícara vazia na mesa e levantou-se. Ele ajeitou o blazer cinza, mas em vez de caminhar até a porta, deu alguns passos na direção de Ashley. Ele apoiou uma das mãos no encosto da cadeira à frente dela e a encarou com um olhar intenso e expectante.
— Dra. Park... Ashley — ele corrigiu a si mesmo, a voz caindo um tom. — Já passa das nove da manhã. Você entrou aqui correndo e aposto que nem tomou café da manhã direito. O que acha de almoçar comigo hoje? Tem um restaurante ótimo a duas quadras daqui.
Ashley congelou por um segundo. O convite pegou seu coração de surpresa. Ela olhou para Matteo, vendo a expectativa nos olhos dele, e por um breve momento, a vontade de dizer "sim" quase venceu. Mas a voz da razão e anos de estudo falaram mais alto dentro de sua cabeça.
Ela engoliu em seco, forçou uma expressão neutra e balançou a cabeça devagar.
— Matteo... eu agradeço o convite, de verdade. Mas é melhor não. Eu sou a sua psicóloga responsável perante o Estado. Sair para almoçar com um paciente é completamente fora da ética profissional. Nós precisamos manter a nossa relação estritamente no âmbito do consultório.
O brilho nos olhos de Matteo diminuiu visivelmente. Seus ombros caíram de leve e ele soltou um suspiro desanimado, incapaz de disfarçar a decepção. Ele deu um meio sorriso sem graça e deu um passo para trás.
— É... eu imaginei que você diria isso. A ética sempre em primeiro lugar, não é? — ele comentou, a voz carregada de um desânimo que apertou o peito de Ashley. — Tudo bem. Não posso culpar um homem por tentar. Tenha um bom dia, doutora. Nos vemos na semana que vem.
— Tenha um bom dia, Matteo. Se comporte — ela respondeu com a voz suave.
Matteo caminhou até a porta, abriu-a e saiu, fechando-a em silêncio atrás de si.
No momento em que a porta se trancou, a postura firme de Ashley desmoronou. Ela se recostou na cadeira, soltando o ar que parecia preso em seus pulmões. Uma onda de tristeza profunda tomou conta dela. Ashley olhou para a poltrona vazia onde ele estava sentado e sentiu os olhos marejarem de leve.
A verdade era que ela queria ter ido. Queria muito ter aceitado aquele almoço, queria conhecê-lo longe dos relatórios e das regras do governo. Mas o medo de estragar tudo, de perder a carreira que tanto lutou para conquistar e de se entregar a um sentimento perigoso com o herdeiro da máfia a forçava a recuar.
— Foi o melhor... — ela sussurrou para a sala vazia, limpando uma lágrima solitária que teimava em cair. — É melhor manter distância.
Ela puxou o próximo prontuário na tela do computador, forçando-se a mergulhar no trabalho para tentar esquecer o vazio que a partida de Matteo havia deixado naquele consultório.
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