Entre Grades e Destinos
6 O Preço da Liberdade
As semanas haviam se transformado em meses com uma velocidade assustadora. Quinze consultas no total. Quinze terças-feiras em que a sala do consultório particular de Ashley se tornava o único refúgio onde Matteo Blake podia baixar a guarda e onde ela, secretamente, contava os minutos para ver o sorriso dele. O progresso de Matteo fora incontestável: notas máximas no curso de Administração, relatórios limpos do prédio federal e um distanciamento absoluto do crime organizado.
Naquela manhã, Ashley estava sentada em sua cadeira, encarando a tela do notebook. Um documento oficial do Tribunal de Justiça de Nova York estava aberto. No topo, carimbado em letras pretas e definitivas, estava o veredicto do juiz: ALVARÁ DE LIBERDADE CONDICIONAL PLENA – DETENTO DISPENSADO DA TUTELA CLÍNICA.
A palavra Liberado brilhava no visor. Era uma vitória profissional gigantesca para ela. Mas, no fundo do seu peito, aquela palavra a deixava profundamente triste. Significava o fim. Significava que ela não tinha mais nenhuma justificativa ética ou legal para mantê-lo por perto.
A porta se abriu e Matteo entrou. Ele vestia uma camisa de botões azul-escura com as mangas dobradas até os antebraços e calça escura. Ao ver o rosto dela, ele sorriu, trazendo aquela energia que sempre preenchia a sala.
— Bom dia, doutora — Matteo disse, acomodando-se na poltrona de sempre. — Você parece focada hoje. Posso saber o que está lendo com tanta atenção?
Ashley engoliu em seco, forçando um sorriso simpático nos lábios para disfarçar o nó na garganta. Ela girou o notebook de leve e apontou para a cadeira à frente.
— Bom dia, Matteo. Sente-se, por favor. Estava apenas revisando alguns documentos oficiais que o tribunal me enviou logo cedo.
Eles começaram a consulta de forma leve. Matteo, entusiasmado, começou a relatar sua rotina, sem perceber a melancolia no olhar loiro dela.
— Eu terminei os exames da metade do semestre ontem, Ashley — ele contou, os olhos brilhando de orgulho. — Tirei a nota máxima no projeto de Logística Avançada. O professor até sugeriu que eu me candidatasse a um estágio em uma empresa de comércio exterior no porto. Quem diria, não é? O herdeiro dos Blake tirando notas boas na faculdade.
Ashley sorriu, mas o sorriso não alcançou seus olhos azuis.
— Eu sempre soube que você era brilhante, Matteo. Desde Rikers Island, quando você tentava usar a sua inteligência para me manipular — ela brincou, a voz saindo um pouco mais murcha do que o planejado. Ela respirou fundo, fechou o notebook devagar e cruzou as mãos sobre a mesa. — Bom... o motivo de eu estar lendo aquele documento é que a sua jornada comigo chegou ao fim.
Matteo franziu o cenho, ajeitando-se na poltrona.
— Como assim, ao fim?
— O juiz analisou o meu relatório final de quinze consultas, junto com o seu histórico acadêmico e de boa conduta — Ashley explicou, lutando contra a própria voz para não deixar transparecer a tristeza que a dominava. — Você está oficialmente liberado, Matteo. Não precisa mais voltar aqui para as consultas obrigatórias, e está livre para sair do prédio federal e morar onde quiser. Você é um homem cem por cento livre.
Ela falava de um jeito triste, pausado, com os olhos fixos nas próprias mãos para não chorar. Matteo, que aprendera a ler cada microexpressão da loira ao longo daqueles meses, notou o tom abatido na mesma hora.
Um silêncio denso e carregado de eletricidade tomou conta do consultório. Matteo levantou-se devagar. Ele contornou a mesa de madeira, quebrando toda a distância profissional que os separara por meses, e parou bem ao lado da cadeira dela. Ashley ergueu os olhos, o coração disparando.
Matteo inclinou-se na direção dela. Devagar, com uma ternura que contrastava totalmente com o homem durão que ele fora no passado, ele ergueu a mão e tocou o rosto de Ashley. Seus dedos quentes e calejados acariciaram a bochecha dela, subindo levemente até a linha do cabelo ondulado.
— Você está triste, loira — Matteo sussurrou, a voz grave e macia, olhando fixamente nos olhos azuis dela. — Por que essa carinha, se você acabou de me dar a melhor notícia da minha vida?
Ashley sentiu o corpo inteiro tremer com o toque. Ficou completamente sem graça, o rosto corando intensamente, mas não se afastou.
— Eu... eu só estou orgulhosa do seu progresso, Matteo. É o meu dever profissional — ela gaguejou, tentando se apegar à última linha de defesa que tinha.
Matteo soltou um riso baixo, a mão ainda aninhada no rosto dela por mais alguns segundos antes de se afastar um passo. Ele puxou um pequeno pedaço de papel do bolso e o colocou sobre a mesa.
— Eu comprei um apartamento em Manhattan, na cobertura de um prédio discreto perto do Central Park. O endereço está aqui — ele disse, com um brilho intenso no olhar. — O governo não me monitora mais, Ashley. E você não é mais a minha psicóloga. Se você quiser aparecer por lá... para tomar um café, conversar, ou qualquer outra coisa... a porta vai estar sempre aberta para você.
Ashley olhou para o papel, o coração batendo na garganta.
— Matteo... eu não sei se...
— Não precisa me dar uma resposta agora — ele a interrompeu gentilmente, dando um passo atrás. — Pense nisso. A gente se despede aqui por enquanto. Obrigado por tudo, de verdade. Você salvou a minha vida.
Ele deu um último aceno e caminhou até a porta. Ao passar pela recepção, enquanto Ashley ainda tentava recuperar o fôlego em sua sala, Matteo parou discretamente no balcão de Clara. Enquanto a recepcionista estava distraída ao telefone, ele esticou a mão e pegou um dos cartões de visita profissionais que continham o número de telefone pessoal e de emergência da doutora, guardando-o no bolso do terno antes de sair para a rua.
Ao chegar no prédio federal, Matteo recolheu as poucas malas que tinha, assinou a papelada de saída com o agente de plantão e colocou tudo no banco de trás do seu carro. Ele dirigiu até o seu novo apartamento, um lugar espaçoso, moderno e com uma vista incrível para a cidade. Deixou as malas na sala de estar, sentindo o peso da verdadeira liberdade pela primeira vez em cinco anos. No entanto, ele sabia que ainda tinha um último fantasma para enfrentar.
Uma hora depois, Matteo estacionou em frente à gigantesca e imponente mansão da família Blake, em Long Island. Os guardas armados nos portões o reconheceram e abriram caminho imediatamente.
Ao entrar na opulenta sala de jantar, ele encontrou seus pais. Ricardo Blake, o temido chefe da máfia, estava sentado à cabeceira, charuto na mão, analisando algumas planilhas. Selina Marquet Blake, elegante como sempre em um vestido de grife, tomava uma taça de vinho no sofá.
— Matteo! — Selina levantou-se imediatamente, com um sorriso orgulhoso, caminhando até o filho para lhe dar um beijo no rosto. — Que surpresa. O que aconteceu?
Matteo olhou para os dois e manteve a voz firme.
— O juiz assinou a minha liberação total hoje de manhã. Estou fora do programa federal. Sou um homem livre.
Ricardo Blake abriu um sorriso largo e pesado, batendo com a mão na mesa de carvalho. Ele se levantou, caminhando até o filho com os braços abertos.
— Excelente! Enfim uma notícia digna de um Blake! — o velho mafioso exclamou, exalando a fumaça do charuto. — Cinco anos de espera, mas agora o império está completo de novo. Os advogados já limparam a sua ficha. Na próxima semana, vou reunir os capitães das famílias. É hora de você voltar para a máfia, Matteo. Você vai assumir o controle das rotas das docas e do dinheiro que entra pelo leste. O seu lugar é no comando do negócio da família.
A expressão de Matteo endureceu. Ele deu um passo para trás, recusando o abraço e o plano do pai.
— Não, pai. Eu não vou voltar para a máfia.
O sorriso de Ricardo sumiu instantaneamente, substituído por uma carranca violenta. A atmosfera na sala ficou perigosamente fria.
— O que você disse? — Ricardo esbravejou, a voz ecoando pelas paredes. — Você enlouqueceu naquela cadeia? Você é um Blake! Tudo o que você tem, a roupa no seu corpo, o sangue nas suas veias, pertence a esta família e aos nossos negócios! Você vai virar as costas para o poder?
— Eu passei cinco anos trancado pagando por crimes que cometi para proteger esse sobrenome, pai! — Matteo retrucou, subindo o tom de voz, batendo de frente com o chefe da máfia sem recuar. — Eu estudei lá dentro. Estou terminando a faculdade de Administração. Eu vou abrir o meu próprio negócio, de forma totalmente legítima. Eu cansei de viver olhando por cima do ombro esperando a polícia derrubar a minha porta. Eu estou fora dos negócios de sangue.
— Você não vai a lugar nenhum! Você faz o que eu mandar! — Ricardo gritou, avançando um passo, com os punhos cerrados.
— Ricardo, chega! — Selina interveio com a voz cortante, colocando-se entre o marido e o filho. Ela olhou para Matteo, analisando a determinação inabalável nos olhos do rapaz, e depois voltou-se para o marido. — Deixe-o ir por enquanto. Deixe ele esfriar a cabeça.
Matteo respirou fundo, olhou para os dois uma última vez e deu as costas, saindo da mansão a passos largos, deixando o pai furioso quebrando um copo de cristal contra a parede de raiva.
Na sala, Ricardo andava de um lado para o outro, bufando.
— O que aconteceu com o meu filho, Selina? Ele era um soldado implacável! Quem colocou essas ideias idiotas de "negócio legítimo" e faculdade na cabeça dele?
Selina caminhou até a janela, observando o carro de Matteo desaparecer pelos portões da propriedade. Seus olhos castanhos estavam semicerrados, frios e calculistas. Ela cruzou os braços e soltou um suspiro venenoso.
— Eu avisei você meses atrás, Ricardo... Aquela psicóloga de Rikers Island que continuou atendendo ele em Manhattan. A tal da Ashley Park. Com certeza é aquela loirinha que está mudando a cabeça do nosso filho. Ela está tentando transformá-lo em um cidadão comum para afastá-lo de nós. E eu não vou permitir que uma garotinha de faculdade destrua o herdeiro do nosso império.
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