Entre Grades e Destinos
7 O Beijo e a Promessa
A noite em Manhattan estava fria, mas o coração de Ashley Park parecia prestes a incendiar seu peito. Ela estava parada na calçada, encarando a fachada imponente e discreta do prédio de coberturas luxuosas perto do Central Park. O papel amassado com o endereço de Matteo estava firme em sua mão esquerda. Ela havia passado as últimas três horas andando de um lado para o outro no apartamento do Brooklyn, inventando desculpas para si mesma, até que a saudade — e uma audácia que ela nem sabia que possuía — a fizera pegar um táxi.
— Você ficou louca, Ashley. Completamente louca — sussurrou para si mesma.
Respirando fundo para encher os pulmões de coragem, ela deu um passo à frente e apertou o botão do interfone da cobertura. O sinal chamou duas vezes antes de uma voz grave e ligeiramente surpresa ecoar pelo alto-falante:
— Portaria da cobertura. Quem é?
Ashley engoliu em seco, aproximando-se do aparelho.
— Matteo... sou eu. A Ashley.
Houve um segundo completo de silêncio absoluto do outro lado, seguido pelo som de algo caindo — provavelmente um controle remoto ou um copo.
— Ashley?! — a voz de Matteo subiu um tom, carregada de uma surpresa genuína e uma pressa quase cômica. — Suba! Quer dizer, vou liberar o elevador agora mesmo. O sensor vai te trazer direto para o meu andar. Entra rápido!
O clique magnético da porta principal ecoou. Ashley sorriu de leve e entrou. O elevador privativo a levou direto para o último andar. Assim que as portas pantográficas se abriram, ela deu de cara com a cena mais inesperada: Matteo estava parado no meio do hall, descalço, vestindo apenas uma calça de moletom cinza e terminando de enfiar uma camiseta preta de qualquer jeito, com a gola meio torta e os cabelos bagunçados.
Ao ver a loira parada ali, elegante em seu sobretudo bege, ele congelou, abrindo um sorriso largo e charmoso. Ele deu um passo à frente, abrindo espaço para ela entrar no gigantesco apartamento com vista para as luzes da cidade.
— Doutora Park... Você realmente veio — Matteo disse, fechando a porta atrás dela. — Achei que a sua preciosa ética profissional fosse me manter na geladeira por pelo menos seis meses.
— Eu estava passando por perto — mentiu Ashley de forma descarada, embora o consultório ficasse do outro lado da cidade. Ela olhou em volta, impressionada com o luxo do lugar. — Belo apartamento, Blake. Limpo demais para um ex-detento. Você contratou uma equipe ou sua mãe mandou empregados?
— Eu mesmo limpei, obrigado por perguntar — Matteo brincou, colocando as mãos nos bolsos da calça e aproximando-se. — Você quer tomar alguma coisa? Água, suco... um chá calmante para essa sua postura defensiva?
Ashley tirou o sobretudo, revelando uma blusa simples de seda azul, e o encarou com os olhos brilhando de diversão.
— Eu aceito um uísque. E sem gelo, por favor. Se eu vou quebrar as minhas regras, que seja em grande estilo.
Matteo soltou uma gargalhada alta e caminhou até o bar de madeira escura. Ele serviu duas doses generosas de um uísque caro e voltou, entregando um dos copos para ela. Seus dedos se roçaram e uma faísca familiar pareceu estalar entre os dois.
Eles se sentaram no enorme sofá de couro. O início da conversa foi leve e divertido. Matteo contou como quase queimou o fogão elétrico novo tentando fritar um ovo no dia anterior, e Ashley riu alto, imaginando o temido herdeiro da máfia sendo derrotado por uma panela antiaderente.
No entanto, à medida que os copos esvaziavam, as risadas foram diminuindo de intensidade. O silêncio que se instalou na sala não era desconfortável, mas denso, carregado de uma eletricidade que vinha se acumulando há meses dentro daquela sala de consultório onde nenhum toque era permitido.
Matteo deixou o copo vazio na mesa de centro e virou o corpo na direção dela, apoiando o braço no encosto do sofá. Seus olhos escuros fixaram-se nos lábios de Ashley.
— Você está linda hoje, Ashley — ele disse, a voz caindo para aquele tom grave e rouco que fazia as pernas dela falharem. — E você sabe que não veio aqui só para criticar os meus dotes culinários.
Ashley engoliu em seco, sentindo o coração martelar contra as costelas.
— Matteo, nós não deveríamos...
— Nós podemos fazer o que quisermos agora, loira. O juiz assinou o papel. Você não é mais a minha médica — ele a interrompeu, aproximando-se lentamente.
Antes que Ashley pudesse formular mais uma linha de defesa psicológica, Matteo encurtou a distância. Ele segurou o rosto dela com as duas mãos e a puxou para um beijo.
O contato inicial foi uma explosão. O beijo começou intenso, urgente, cheio da fome de quem havia esperado uma eternidade por aquele momento. Ashley soltou o copo na mesa e cedeu, envolvendo o pescoço tatuado de Matteo com os braços, correspondendo com a mesma intensidade. O toque da pele dele, o gosto do uísque, o calor do apartamento... tudo parecia perfeito demais.
Mas o pânico ético deu um último sobressalto na mente de Ashley. Ela quebrou o beijo abruptamente, ofegante, e tentou se levantar do sofá, ajeitando a blusa de forma estabanada.
— Não, espera! Isso é loucura, Matteo! Eu sou uma profissional, o que eu estou fazendo? Eu preciso ir embora, eu vou pegar um táxi...
Ela tentou caminhar em direção à porta, mas Matteo foi mais rápido. Ele deu um salto do sofá e, com um sorriso divertido e os olhos brilhando de determinação, bloqueou o caminho dela. Ele segurou Ashley delicadamente pela cintura, puxando-a de volta contra o seu peito largo.
— Ei, ei! Calma, doutora! Sem fugas estratégicas hoje — Matteo riu baixo, colando a testa na dela enquanto ela tentava, sem muito sucesso, empurrar seus ombros. — Você cruzou a linha de frente, Ashley. Não tem mais volta. Você vai ficar.
— Matteo, me deixa ir! Eu vou escrever um laudo psicológico sobre a sua teimosia! — ela protestou, embora estivesse rindo e com as bochechas coradas.
— Pode escrever o relatório que quiser, mas você vai passar a noite aqui — ele decretou, pegando-a no colo de surpresa, fazendo Ashley soltar um gritinho de susto e dar tapinhas de leve nas costas dele enquanto ele a carregava em direção ao quarto principal.
Apesar da intensidade do momento anterior, o restante da noite tomou um rumo surpreendentemente doce. Eles se deitaram na gigantesca cama de casal, ainda de roupas. Matteo puxou o edredom sobre os dois e envolveu Ashley em um abraço protetor. Eles conversaram baixinho até de madrugada, trocando selinhos e risadas bobas, até que o cansaço venceu. Eles acabaram dormindo juntos ali, abraçados, sem fazer sexo — apenas aproveitando o calor e a presença um do outro.
Os primeiros raios de sol da manhã seguinte invadiram o quarto através da enorme vidraça. Ashley acordou devagar, sentindo um braço pesado e tatuado preso ao redor da sua cintura. Ela abriu os olhos e deu de cara com Matteo, que já estava acordado, apoiado em um dos cotovelos, observando-a com um olhar incrivelmente suave.
— Bom dia, loira — ele disse, a voz ainda mais rouca pelo sono.
— Bom dia... — Ashley respondeu, cobrindo o rosto com o lençol, com vergonha da luz da manhã. — Que horas são? Eu tenho pacientes às nove...
Matteo puxou o lençol do rosto dela delicadamente e soltou uma risada baixa, balançando a cabeça.
— Sabe de uma coisa, Ashley? Eu preciso te confessar uma coisa muito séria — ele começou, a expressão tornando-se genuinamente intrigada e divertida ao mesmo tempo. — Eu tenho vinte e oito anos. Eu cresci no meio da máfia, andei com modelos, atrizes, mulheres de todos os tipos... Mas eu posso te garantir, com cem por cento de certeza, que eu nunca, na minha vida inteira, passei a noite inteira na cama com uma mulher sem fazer sexo.
Ashley arregalou os olhos azuis, surpresa, e depois pegou o travesseiro, batendo de leve no peito dele.
— Matteo! Que tipo de confissão é essa logo cedo? Você é um libertino!
— Estou falando sério! — ele riu, segurando o travesseiro e aproximando-se dela, o olhar mudando para algo profundo, sincero e cheio de emoção. Ele segurou a mão de Ashley e entrelaçou seus dedos. — Você é diferente, Ashley. Completamente diferente de tudo o que eu já conheci.
Ele respirou fundo, olhando fixamente nos olhos dela, deixando de lado qualquer traço de deboche.
— Desde a primeira vez que você entrou naquela sala cinzenta de Rikers Island, de terno, toda durona, me olhando como se eu fosse um projeto e não um monstro... eu senti algo aqui dentro que nunca tinha sentido antes. Você me desafiou, você não teve medo do meu nome e, acima de tudo, você acreditou que eu podia ser alguém melhor quando nem eu mesmo acreditava. Eu passei meses trancado naquela cela pensando no seu sorriso e no seu perfume.
Ashley sentiu as lágrimas subirem aos olhos, tocada pela vulnerabilidade daquele homem que o mundo inteiro temia.
— Matteo... — ela sussurrou.
— Ashley Park, você quer namorar comigo? — Matteo pediu diretamente, a voz firme e cheia de expectativa. — Sem relatórios, sem governos, sem regras de ética. Só eu e você. O que me diz?
Ashley olhou para a mão entrelaçada à dele, depois para o rosto ansioso de Matteo. O medo do futuro e da família dele ainda existia, mas o amor que sentia por ele era infinitamente maior. Ela abriu um sorriso largo, radiante, e jogou-se nos braços dele, derrubando-o de volta nos travesseiros.
— Sim! — ela exclamou, rindo contra o pescoço dele. — Sim, eu aceito, seu mafioso teimoso!
Matteo a abraçou com força, rolando na cama e prendendo-a por baixo dele, iniciando um beijo apaixonado e cheio de promessas para celebrar o início oficial da história deles fora das grades.
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