Entre Grades e Destinos

15 O Tentáculo da Máfia no Vermont



​A sala de reuniões subterrânea da mansão dos Blake mantinha a mesma atmosfera pesada e imponente de sempre. Sentado à cabeceira da longa mesa de ébano, Ricardo Blake tragava seu charuto, observando os dois filhos. À sua direita, Damon exibia uma expressão entediada, tamborilando os dedos na mesa. À esquerda, Matteo — ou "Michael Prattes", como era conhecido no mundo corporativo do crime — mantinha a postura impecável em seu terno sob medida, com os olhos fixos em um tablet que exibia gráficos financeiros. Ele estava ali apenas como o Administrador Geral; sua mente calculava números, mas sua alma permanecia fria.

​Ricardo soltou uma longa lufada de fumaça cinzenta e bateu com a mão na mesa, chamando a atenção de ambos.

​— Muito bem. Chamei vocês dois aqui porque o nosso império precisa se expandir para o norte — Ricardo começou, a voz grave ecoando pelas paredes de pedra. — As rotas de Nova York e New Jersey estão sob muita vigilância do FBI ultimamente. Por isso, decidi abrir um novo galpão de distribuição. O lugar escolhido foi o interior do Vermont.

​Matteo ergueu os olhos do tablet, mantendo a expressão neutra, embora a menção àquele estado fizesse um eco estranho em sua mente, sem que ele soubesse o porquê.

​— Vermont? — Damon franziu o cenho, soltando uma risada de deboche. — Aquele lugar é um monte de montanhas cheio de fazendeiros e caipiras, pai. O que nós vamos fazer lá?

​— Vamos fazer fortuna, seu idiota — Ricardo retrucou, ríspido. — Há uma pequena cidade costeira perto da fronteira com um porto antigo e pouco movimentado. É o ponto perfeito. Nós vamos usar esse galpão para iniciar um novo contrabando em larga escala de armas e drogas vindo do Canadá. Por ser uma cidade pequena, a polícia local é atrasada e nunca vai desconfiar de nada. O FBI nem sabe que aquele lugar existe no mapa do crime.

​Ricardo voltou-se para o filho mais velho, apontando o dedo na direção dele.

​— Damon, você vai pegar os seus melhores homens, vai até lá amanhã mesmo e vai cuidar de toda a infraestrutura física. Compre os galpões, suborne quem for necessário no cais e garanta que a segurança esteja armada e invisível.

​— Considere feito, pai — Damon sorriu, os olhos brilhando com a perspectiva de poder e violência. — Vou transformar aquele lugar no nosso novo cofre particular.

​Ricardo então olhou para a esquerda.

​— E você, Matteo... cuide para que o dinheiro dessa operação seja pulverizado pelas suas contas fantasmas. Ninguém pode ligar as transações do Vermont ao sobrenome Blake.

​— O capital vai ser transferido através de uma empresa de maquinário agrícola legítima que eu criei no mês passado — Matteo respondeu, a voz totalmente desprovida de emoção. — O dinheiro vai entrar limpo no Vermont e vai sair mais limpo ainda para a Suíça. Vocês fazem a sujeira nas ruas, eu garanto que o governo não veja nada.

​Ricardo abriu um sorriso satisfeito. Ele tinha o administrador perfeito e o executor implacável. A máquina dos Blake continuava a girar.

​No dia seguinte, o sol brilhava suavemente sobre a pacata cidadezinha do Vermont. Ashley Park estacionou a caminhonete Ford antiga, de cor escura, que havia comprado semanas atrás com o dinheiro de suas consultas. O veículo utilitário era perfeito para ajudar Arthur nas tarefas pesadas da fazenda e para carregar as compras da casa dos Miller, onde ela e o pequeno Pietro, agora com alguns meses de vida, eram tratados como parte da família.

​Ashley desceu da cabine usando calça jeans, botas de cano curto e um casaco de tricô confortável. Seu rosto estava corado pelo ar puro da montanha, e embora a saudade de Matteo ainda fosse uma cicatriz em seu coração, ver o sorriso de Pietro todas as manhãs lhe dava forças para continuar.

​Ela entrou no pequeno mercado central da cidade, comprou frutas frescas, legumes e alguns pacotes de fraldas. Minutos depois, ela saiu carregando duas sacolas cheias e caminhou em direção à caçamba da caminhonete.

​Enquanto Ashley ajeitava as compras na parte traseira do veículo, um sedã preto de vidros totalmente fumê passou lentamente pela rua principal. No banco do motorista, Damon Blake observava a calmaria da cidade com tédio, até que seus olhos bateram na silhueta loira que se movia do outro lado da calçada.

​Damon semicerrou os olhos, piscando várias vezes para ter certeza de que não estava alucinando. Ele reduziu a velocidade do carro, parando a meia quadra de distância. Ele observou o perfil de Ashley, o cabelo loiro ondulado balançando com o vento, o sorriso amigável que ela deu a uma senhora que passava.

​— Não pode ser... — Damon sussurrou para si mesmo, um sorriso perverso e chocado surgindo em seus lábios. — É a doutorinha do Matteo.

​Ele assistiu Ashley subir na caminhonete, dar a partida no motor e acelerar em direção à estrada das fazendas. Damon não a seguiu. Em vez disso, ele estacionou o carro no acostamento, puxou o celular do bolso do paletó e discou o número direto de Ricardo Blake.

​O telefone chamou duas vezes antes de a voz pesada do patriarca atender:

​— Diga, Damon. Já chegou ao galpão?

​— Ainda não, pai, estou cruzando o centro da cidade agora — Damon disse, a voz carregada de uma ironia cortante. — Mas você não vai acreditar em quem eu acabei de encontrar saindo do mercado local.

​— Não estou com tempo para adivinhações, Damon. Fale logo.

​— A Dra. Ashley Park, pai — Damon disparou, soltando uma risada anasalada. — A ex-namorada do Matteo. Ela está morando aqui, no meio do nada, no interior do Vermont. Vi com os meus próprios olhos. Ela estava vestida como uma caipira, dirigindo uma caminhonete velha e carregando sacolas de mercado.

​Do outro lado da linha, na mansão de Nova York, Ricardo Blake recostou-se na cadeira de couro, surpreso com a informação, mas logo um sorriso de triunfo surgiu em seu rosto enrugado. Ele se lembrou da promessa de morte e destruição de carreira que havia feito à psicóloga meses atrás.

​— Então a loirinha realmente cumpriu a palavra... — Ricardo murmurou, a voz fria. — Ela ficou com tanto pavor do meu aviso que fugiu de Nova York, desfez-se do consultório e veio se esconder nas montanhas para salvar a própria pele.

​— O que você quer que eu faça, pai? — Damon perguntou, olhando para a estrada por onde a caminhonete de Ashley havia sumido. — Quer que eu faça uma visita a ela? Dar um susto para ela lembrar quem manda?

​— Não, Damon. Deixe a garota em paz — Ricardo ordenou, o tom de voz autoritário. — O meu objetivo era apenas tirá-la do caminho do Matteo para que ele voltasse para os negócios da família. E funcionou perfeitamente. Ela não está mais em Nova York, não está mais com o meu filho e se afastou dele de vez. O Matteo acha que ela o abandonou por capricho e agora ele trabalha para nós nas sombras como um homem sem coração. É exatamente assim que eu preciso dele. Esqueça a doutora e foque no galpão de armas. Ela já não é mais problema nosso.

​— Entendido, pai. Vou focar no porto — Damon respondeu, desligando o celular em seguida.

​Damon deu a partida no carro e acelerou na direção oposta à de Ashley, com a certeza de que a máfia havia vencido aquela rodada. Mal sabiam os Blake que o destino estava jogando as suas próprias cartas, e que a abertura daquele novo galpão de contrabando no Vermont colocaria a família inteira na rota de colisão com o segredo mais bem guardado de Ashley.