Entre Grades e Destinos

12 O Sacrifício e o Retorno às Sombras



​Cinco dias haviam se passado, e para Matteo Blake, cada segundo daquela semana tinha o peso de uma eternidade. Ele havia ligado dezenas de vezes, deixado mensagens de voz desesperadas e até enviado flores ao consultório, mas tudo o que recebeu em troca foi um silêncio absoluto e cortante. Ashley havia desaparecido de sua vida sem deixar vestígios, e a agonia de não saber o que estava acontecendo estava prestes a enlouquecê-lo.

​Até que, no final daquela tarde cinzenta, Matteo decidiu que não podia mais esperar. Ele ficou de guarda do lado de fora do prédio do consultório em Manhattan. Quando as portas de vidro finalmente se abriram e a silhueta loira de Ashley surgiu na calçada, o coração dele deu um solavanco. Ela usava um sobretudo escuro, os olhos fixos no chão, e parecia mais pálida e abatida do que o normal.

​Matteo deu passos largos e rápidos, interceptando-a antes que ela pudesse caminhar em direção ao ponto de ônibus.

​— Ashley! — ele chamou, a voz saindo rouca e carregada de uma urgência dolorosa. Ele segurou delicadamente os ombros dela, forçando-a a parar. — Por favor, olha para mim. O que está acontecendo? Você sumiu, cancelou as consultas, não atende as minhas ligações... Eu achei que tivessem feito alguma coisa com você! Por que você está me evitando desse jeito?

​Ashley sentiu o impacto da voz dele ecoar diretamente em sua alma, e o desejo de desabar em seus braços quase a fez fraquejar. Mas o fantasma do revólver de Ricardo Blake apontado para o seu peito e as ameaças terríveis contra as suas pernas e o seu diploma piscaram em sua mente. Ela engoliu em seco, respirou fundo e, com um esforço sobre-humano, vestiu uma máscara de frieza milimetricamente calculada.

​Ela afastou as mãos dele de seus ombros de forma impessoal e deu um passo para trás, encarando-o com olhos azuis gélidos e distantes.

​— Eu não estou te evitando, Matteo. Eu só estava precisando de tempo para pensar — ela disse, a voz saindo firme, sem demonstrar a tremedeira que colapsava o seu interior. — E eu tomei uma decisão.

​— Que decisão, loira? — Matteo perguntou, o desespero começando a transparecer em seu rosto. — É por causa da briga com o Damon? Eu já te disse que aquilo foi para te proteger...

​— Não, Matteo, não é só por causa do Damon — ela o interrompeu, cruzando os braços para manter a distância. — Aquela confusão na boate foi apenas o empurrão que eu precisava para cair em si. Eu olhei para a minha vida e percebi a besteira que eu estava fazendo. Eu sou uma profissional respeitada, passei anos estudando para construir uma carreira limpa, e de repente me vi envolvida com o filho de um chefe da máfia, no meio de tiroteios e armas escondidas. Eu fui irracional. Me deixei levar por um impulso.

​Matteo sentiu as palavras dela cortarem seu peito como lâminas. Ele balançou a cabeça, os olhos arregalados, dando um passo à frente.

​— Impulso? Ashley, nós nos amamos! Você sabe que eu rompi com o meu pai, eu estou fora daquilo tudo!

​— Por enquanto, Matteo! — ela rebateu, subindo o tom de voz com uma frieza cruel, atuando o papel de sua vida para salvá-lo e salvar a si mesma. — Sejamos racionais. Mais cedo ou mais tarde, o sangue vai falar mais alto. Mais cedo ou mais tarde você vai voltar para aquela família, porque é o seu mundo, é de onde você veio. E quando esse dia chegar, o que vai acontecer comigo? Eu vou ser colocada de lado, ou pior, arrastada para o fundo do poço junto com você. Eu tenho um diploma a zelar. Eu cansei de brincar de salvadora. Nós terminamos aqui.

​Matteo ficou completamente desesperado. Ele sentiu o chão sumir sob seus pés; a perspectiva de perder a única mulher que lhe trouxera luz o deixou destruído. Ele segurou as mãos dela, os olhos marejados de lágrimas masculinas que ele nunca permitira que ninguém visse.

​— Não faz isso, Ashley... por favor! — ele suplicou, a voz embargada, apertando os dedos frios dela. — Eu mudo de cidade com você, eu mudo de nome, eu faço o que você quiser! Não me joga de volta na escuridão. Eu preciso de você...

​Ashley olhou para as mãos unidas e sentiu o coração despedaçar-se em mil pedaços. Mas ela sabia que se demonstrasse qualquer fraqueza, Ricardo cumpriria a promessa de sangue. Ela puxou as mãos de volta com violência.

​— Acabou, Matteo — ela sentenciou, olhando-o nos olhos com uma frieza cirúrgica. — Espero que você tenha maturidade para aceitar, porque realmente é o fim. Não me procure mais.

​Nesse exato momento, um ônibus parou junto ao meio-fio. Sem olhar para trás, Ashley virou-se de costas e subiu os degraus apressadamente, pagando a passagem sem rumo. Ela sentou-se na janela e só permitiu que as lágrimas rolassem pelo seu rosto quando o veículo deu a partida, deixando para trás, parado na calçada sob a chuva fina, um Matteo Blake completamente destruído, encarando o nada com os punhos cerrados e o peito vazio.

​Algumas semanas se passaram, arrastando o que restava da alma de Matteo. Ele não procurou mais Ashley, respeitando o limite que ela traçara, embora a dor da rejeição o estivesse consumindo. Ele focou toda a sua raiva e frustração nos estudos.

​No dia da formatura, não houve festa, não houve comemorações. Matteo assistiu à cerimônia de forma apática, pegou o canudo de papel e voltou para o apartamento. Sentado na escrivaninha, ele desenrolou o documento e olhou para o diploma de bacharel em Administração de Empresas. A assinatura digital do reitor brilhava no papel. Ele havia conseguido. Mas não havia ninguém ali para celebrar com ele.

​— Você queria um administrador, loira? — Matteo sussurrou para o quarto vazio, os olhos fixos no papel. — Então você vai ter um.

​Uma resolução sombria tomou conta de seus pensamentos. Se a vida legítima e o amor haviam lhe dado as costas, não havia mais motivo para lutar contra o monstro que nascera para ser. Ele enrolou o diploma, colocou-o na jaqueta e dirigiu em direção a Long Island.

​Ao entrar no escritório da mansão, Ricardo Blake estava em sua mesa de sempre. O velho mafioso ergueu os olhos, surpreso ao ver o filho entrar sem ser chamado, exibindo uma postura fria, calculista e desprovida de qualquer traço da sensibilidade de antes.

​Matteo caminhou até a mesa e jogou o diploma sobre o carvalho escuro.

​— Eu vim fazer um acordo com você, Ricardo — Matteo disse, a voz saindo grave, firme e sem qualquer emoção.

​Ricardo arqueou uma sobrancelha, pegando o papel e olhando de relance.

​— Um acordo? Você virou as costas para esta família, Matteo. Damon ainda está com a marca do seu punho no rosto.

​— Esquece o Damon, ele é um idiota que só sabe fazer barulho — Matteo cortou, ríspido, apoiando as duas mãos na mesa e inclinando-se na direção do pai. — Eu estou de volta. Mas sob as minhas condições. Eu não vou colocar os meus pés nas docas, nos estaleiros ou no meio dos tiroteios com as famílias de New Jersey. Eu sou graduado agora. Eu vou assumir como Administrador Geral do império Blake.

​Ricardo semicerrou os olhos, avaliando a proposta.

​— Administrador Geral? Você quer ficar atrás de uma mesa enquanto os outros homens sangram nas ruas? Você era o meu melhor soldado, Matteo. As ruas te respeitam.

​— As ruas não precisam me ver para me respeitar — Matteo respondeu, com um sorriso gélido e implacável que orgulhou o velho mafioso. — Eu vou gerenciar o dinheiro, lavar os capitais através de empresas legítimas que eu mesmo vou criar, e organizar a logística de transporte de uma forma que a polícia nunca vai conseguir rastrear. Mas eu serei invisível. Vou assinar todos os contratos, movimentações e balanços usando um nome falso, uma identidade fantasma. Eu organizo o império, garanto que o dinheiro entre limpo e multiplico a nossa fortuna. Em troca, você me deixa gerenciar do meu jeito. Pegar ou largar.

​Ricardo relutou por longos segundos. Ele queria o filho com uma arma na mão liderando os soldados, mas sabia que a inteligência financeira de Matteo valia mais do que cem capangas armados. O velho deu um longo trago em seu charuto, exalando a fumaça, e abriu um sorriso satisfeito.

​— Tudo bem, Matteo. Nós temos um acordo. Você assume o controle das finanças e da estratégia na segunda-feira. O império é seu para gerenciar das sombras.

​Ricardo guardou o diploma na gaveta e recostou-se na cadeira, olhando para o filho com uma curiosidade maliciosa.

​— E a propósito... o que a sua doutorinha loira vai achar dessa sua nova função corporativa no crime organizado? Achei que ela queria te transformar em um santo.

​Matteo não piscou. Suas feições continuaram duras como uma rocha, embora o nome de Ashley tenha causado uma pontada aguda em seu peito.

​— A Ashley não faz mais parte da minha vida há uns dois meses, Ricardo — Matteo respondeu, a voz totalmente desprovida de sentimento, fria como a noite de inverno de Nova York. — Ela foi apenas um erro de percurso. Agora, vamos falar de negócios.

​Ricardo sorriu, vitorioso, achando que seu plano de ameaças havia funcionado perfeitamente sem que o filho descobrisse. Mal sabia ele que Matteo havia voltado para as sombras não por fraqueza, mas porque o seu coração havia morrido no dia em que Ashley entrou naquele ônibus.