Entre Grades e Destinos
13 O Fruto do Passado e a Partida
O aroma de canela e café torrado flutuava pelos corredores iluminados do shopping de Manhattan, mas para Ashley, o ambiente parecia sufocante. Ela caminhava devagar, segurando uma sacola de compras com roupas simples, tentando distrair a mente do vazio que se instalara em sua vida nos últimos dois meses. Desde o rompimento forçado com Matteo, ela mal conseguia dormir, assombrada pelo medo da família Blake e pela dor de ter destruído o homem que amava.
De repente, o chão sob seus pés pareceu inclinar-se. As luzes dos letreiros neon das lojas começaram a girar em um turbilhão de cores borradas. Uma onda intensa de calor subiu pelo seu pescoço, seguida por um frio gélido nas extremidades.
— Ashley? — Sofia, que andava logo ao lado tagarelando sobre uma nova marca de maquiagem, parou abruptamente ao notar a palidez cadavérica da amiga. — Meu Deus, Ash, você está branca como um papel!
— Sofi... eu... — Ashley murmurou, a voz saindo fraca, distante.
Sua visão escureceu completamente por um segundo. Suas pernas cederam. Antes que seu corpo colidisse com o chão de mármore do shopping, Sofia largou todas as sacolas e a segurou pelos braços, amortecendo a queda. Ashley sentou-se encostada na vitrine de uma loja de calçados, com a cabeça baixa entre os joelhos, respirando de forma arquejante, à beira de um desmaio.
— Alguém me ajuda aqui! — Sofia gritou para as pessoas ao redor, o pânico tomando conta de sua voz. — Ash, fica comigo. Eu vou te levar para o hospital agora mesmo!
Uma hora depois, Ashley estava deitada em uma maca na área de observação do Hospital Presbiteriano de Nova York. O soro gotejava lentamente em sua veia, trazendo um pouco de cor de volta às suas bochechas. Sofia andava de um lado para o outro no quarto estreito, roendo as unhas de preocupação.
A cortina de privacidade foi puxada e a Dra. Karen Evans entrou segurando um tablet com os resultados dos exames de sangue. Ela olhava para a tela com uma expressão serena, o que acalmou um pouco o ambiente.
— Bem, Dra. Park, os seus sinais vitais já se estabilizaram — a médica começou, ajeitando os óculos. — Sua taxa de ferro está um pouco baixa, o que explica a tontura severa e o quase desmaio, mas o motivo principal do seu colapso é bem claro. Parabéns. Você está grávida.
O quarto pareceu entrar em silêncio absoluto. Ashley piscou, paralisada, achando que o efeito do mal-estar a fazia alucinar.
— O quê?... Grávida? — Ashley gaguejou, a voz sumindo. — Não... Dra. Evans, deve haver um erro. Meu ciclo... bem, tem estado desregulado, mas eu achei que era o estresse. Eu passei por traumas muito severos nos últimos meses, abrindo consultório, lidando com pressões...
— O estresse realmente camufla muitos sintomas, e é por isso que muitas mulheres não percebem — a médica explicou gentilmente, girando a tela do tablet para que Ashley visse os níveis do hormônio Beta HCG. — Mas o exame de sangue não mente. Pelas taxas e pelo ultrassom rápido que fizemos enquanto você estava semiconsciente, você está com exatamente três meses de gestação. Doze semanas, para ser exata. O feto está saudável, mas você precisa parar de se desgastar desse jeito.
Sofia cobriu a boca com as mãos, os olhos arregalados, olhando de Ashley para a médica.
Três meses. A conta era exata. O bebê fora gerado na única e mágica noite em que Ashley e Matteo haviam se entregado um ao outro na cobertura, antes que o inferno dos Blake desabasse sobre suas cabeças.
Já no final da noite, de volta ao pequeno apartamento no Brooklyn, a atmosfera era densa. Ashley estava sentada no sofá com as pernas encolhidas, segurando uma caneca de chá morno com as duas mãos trêmulas. Sofia sentou-se no chão, bem à frente dela, apoiando as mãos nos joelhos da amiga.
— Três meses, Ash... — Sofia começou, a voz suave, cheia de cautela. — É do Matteo. Não tem como não ser. O que você vai fazer? Você precisa contar para ele. Ele tem o direito de saber que vai ser pai, e, sinceramente, ele tem dinheiro e poder para te proteger daquele velho psicopata do pai dele.
Ashley balançou a cabeça de forma negativa, as lágrimas finalmente transbordando e caindo em sua caneca.
— Não, Sofi. Eu não posso contar. Você não entende o tamanho do perigo — Ashley soltou um soluço, a voz embargada. — O Ricardo Blake entrou na minha sala e apontou uma arma para o meu peito. Ele jurou que me quebraria as pernas e me tiraria o diploma se eu ficasse com o filho dele. Se eles descobrirem que eu estou carregando o herdeiro da próxima geração dos Blake, o Ricardo vai tirar esse bebê de mim ou vai me caçar até o inferno para garantir que o neto cresça dentro da máfia. Eu preciso ir embora dali. Ir para longe. Muito longe de Nova York.
Sofia olhou para a dor da amiga e sentiu o próprio coração apertar. Ela segurou as mãos trêmulas de Ashley.
— Ir embora? Mas para onde, Ash? Você não tem família fora daqui.
Ashley olhou para Sofia, os olhos azuis implorando por uma saída. Sofia engoliu em seco, pensou por alguns segundos e um vislumbre de resolução surgiu em seu rosto.
— Sabe... já faz uns sete anos que eu não vou para a casa dos meus pais — Sofia disse, com um pequeno sorriso nostálgico. — Eles moram em uma cidadezinha pacata no interior do Vermont. É um lugar calmo, cercado de montanhas, onde nada acontece. Meus pais têm uma casa enorme e sempre me pedem para voltar. Seria bom... bom para mim rever minha família, e perfeito para você desaparecer do mapa de Nova York. Ninguém nunca pensaria em procurar a ex-namorada de um mafioso no interior do Vermont.
Ashley olhou para a amiga, sentindo uma ponta de esperança pela primeira vez em meses.
— Você faria isso por mim, Sofi? Deixaria a sua vida aqui?
— Você é minha irmã, Ashley. E esse bebê também é um pouco meu — Sofia sorriu, limpando uma lágrima do rosto da amiga. — Vamos arrumar as nossas malas.
Nos dias seguintes, Ashley agiu com uma eficiência fria impulsionada pelo instinto materno de proteção. Ela se desfez do consultório particular que havia sido o seu grande sonho. Vendeu as poltronas de couro, a mesa de madeira, os armários e os prontuários eletrônicos para outros profissionais da área por um preço abaixo do mercado, apenas para conseguir o dinheiro rápido. Entregou as chaves do imóvel para o locador e rescindiu o contrato.
Duas semanas após a descoberta da gravidez, Ashley e Sofia colocaram as últimas malas no porta-malas de um carro alugado. Ashley olhou para o horizonte de prédios de Nova York uma última vez, colocou a mão sobre o ventre ainda plano e sussurrou:
— Nós vamos ficar bem.
Mais duas semanas se passaram em Manhattan. Matteo Blake agora comandava as finanças do império de seu pai a partir de um escritório corporativo moderno na Wall Street. Ele vestia ternos impecáveis, assinava contratos milionários usando o codinome "Mr. Marquet" e operava de forma invisível, exatamente como havia acordado com Ricardo. Sua mente era uma máquina de fazer dinheiro, mas seu coração continuava congelado.
Em uma tarde de quinta-feira, enquanto se dirigia para uma reunião com investidores falsos, o trânsito pesado de Manhattan fez o motorista de Matteo mudar a rota, entrando justamente na avenida onde ficava o antigo consultório de Ashley.
Ao olhar pela janela fumê do banco de trás do sedã preto, o olhar de Matteo congelou na fachada do prédio de tijolos claros.
A placa elegante de vidro que dizia Dra. Ashley Park – Psicologia Clínica havia sumido. No lugar dela, um letreiro luminoso em tons de rosa e amarelo exibia orgulhosamente: La Petite Boulangerie – Padaria e Confeitaria Artesanal. Através da vitrine onde antes ficava a sala de espera de Ashley, agora era possível ver balcões cheios de croissants, pães doces e mesas redondas com clientes tomando café alegremente.
Matteo sentiu um soco direto no estômago. O ar faltou por um segundo em seus pulmões. Ele apoiou as mãos no vidro da janela, os olhos escuros fixos naquele comércio vibrante que havia apagado qualquer vestígio da presença da mulher que ele amava.
— Ela realmente foi embora... — ele sussurrou para o interior silencioso do carro, a voz saindo como um sopro de dor pura.
A última linha de esperança secreta que ele guardava no fundo da alma — a fantasia idiota de que um dia ela ligaria ou de que ele a veria saindo daquele prédio — desmoronou completamente. Ashley havia vendido tudo, desfeito de sua amada carreira naquela clínica e desaparecido da cidade, cortando todo e qualquer laço que pudesse ligá-la ao passado deles.
Matteo recostou-se no banco de couro, fechando os olhos enquanto o carro acelerava, deixando a padaria para trás. Ele engoliu a seco a queimação da garganta e cerrou os punhos. Se Ashley havia escolhido o esquecimento e uma vida longe dele, ele aceitaria o seu destino. Ele afundaria cada vez mais fundo nas sombras do império Blake, tornando-se o monstro invisível que ela tanto temia, sem nunca imaginar que, longe dali, o seu próprio sangue começava a crescer no ventre da mulher que ele nunca conseguiria esquecer.
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