​O despertador tocou às 05h30 da manhã, quebrando o silêncio do quarto. Ashley Park despertou em um sobressalto, o coração já acelerado pela expectativa do que viria a seguir. Ela não se permitiu hesitar. Levantou-se, tomou um banho rápido e vestiu seu melhor terno — uma calça de alfaiataria escura e um blazer bem cortado. Deixou os cabelos loiros caírem em ondas bem alinhadas sobre os ombros e encarou os próprios olhos azuis no espelho.

​— Você estudou para isso, Ashley. É apenas um trabalho — sussurrou para si mesma, buscando a confiança que precisava.

​A viagem até Rikers Island foi um borrão de trens lotados e pensamentos distantes. Quando finalmente cruzou os portões de segurança do complexo penitenciário, o ambiente cinzento e opressor tentou intimidá-la, mas ela ergueu o queixo. Caminhou até a recepção da ala administrativa e inseriu seu crachá no relógio de ponto. Bip. O visor confirmou o início do seu expediente.

​— Bom dia, pessoal — Ashley disse, exibindo um sorriso simpático e caloroso para os funcionários da recepção e para os guardas que faziam a triagem.

​— Bom dia, Dra. Park. Boa sorte hoje — respondeu um dos agentes, oferecendo um sorriso encorajador.

​Ela agradeceu com um aceno e seguiu pelos corredores blindados até a sua sala de atendimento. Ao entrar, o cheiro de metal e tinta fresca a recebeu. Ashley organizou sua prancheta sobre a mesa de metal parafusada ao chão, testou discretamente com o joelho a posição do botão de emergência abaixo do tampo e sentou-se. Respirou fundo, cruzou as mãos sobre o relatório em branco e começou a aguardar.

​Enquanto isso, no Bloco C, a rotina de Matteo Blake começava de forma diferente. Ele se levantou sem pressa, lavou o rosto na pia de metal e vestiu o macacão laranja obrigatório para detentos em trânsito de segurança máxima. Quando dois guardas robustos pararam em frente à sua cela e abriram as grades com um estrondo metálico, Matteo apenas exibiu um sorriso ladino, completamente calmo.

​— Hora do seu exame de cabeça, Blake. Vira de costas e estende as mãos — ordenou o guarda mais velho, segurando as algemas.

​Matteo soltou uma risada nasalada, um deboche claro brilhando em seus olhos escuros enquanto obedecia.

​— Calma, detetive. Não precisa de tanto carinho logo cedo. O dia mal começou e vocês já estão com saudades minhas? — ironizou, sentindo o metal frio prender seus pulsos.

​— Cala a boca, Blake. Vamos andar. E tenta não irritar a doutora, ou você vai apodrecer aqui dentro.

​— Eu? Irritar alguém? Sou um cidadão exemplar — Matteo respondeu com uma gargalhada curta, caminhando pelo corredor enquanto os guardas o escoltavam, ignorando completamente as provocações e mantendo sua postura de quem andava por um tapete vermelho, e não pelo corredor da morte.

​A porta da sala de psicologia se abriu com um clique pesado. Os guardas entraram primeiro, segurando Matteo pelos braços, e o guiaram até a cadeira vazia do outro lado da mesa de metal. Eles prenderam a corrente das algemas dele a um gancho fixado no chão.

​— Estaremos do outro lado do vidro, Dra. Park. Qualquer problema, avise — o guarda disse, antes de se retirar e fechar a porta.

​O silêncio desceu sobre a sala. Matteo se acomodou na cadeira, esticando as pernas o quanto as correntes permitiam. Ele ergueu os olhos prontos para encarar um terapeuta velho e cansado, mas o que viu o fez congelar por um segundo. À sua frente estava uma jovem loira, de olhos azuis intensos e uma postura impecável. Ela parecia jovem demais para estar ali.

​Um sorriso prepotente e desacreditado cruzou os lábios de Matteo. Ele inclinou o corpo para a frente, apoiando os punhos algemados na mesa.

​— Olha só... Acho que o Departamento de Correções está economizando dinheiro. Mandaram uma estagiária para fazer o trabalho de um profissional? Você mal deve ter saído das fraldas, loira. Tem certeza de que não errou de sala?

​Ashley não piscou. Ela sustentou o olhar dele, manteve a expressão neutra e deu uma resposta afiada, com a voz gélida e firme:

​— Se o seu intelecto for tão brilhante quanto a sua capacidade de adivinhar idades, Sr. Blake, eu já posso preencher o laudo dizendo que sua capacidade cognitiva é limitada. Eu tenho o diploma, a caneta e o poder de decidir o seu futuro. Você tem apenas cinco anos de cadeia e um macacão laranja que não combina com o seu tom de pele. Então, sugiro que mude o tom.

​Matteo piscou, genuinamente surpreso. O deboche em seu rosto deu lugar a um interesse genuíno. Ele soltou um riso baixo.

​— Touché, doutora. Muito bem. O que você quer saber?

​Ashley abriu o relatório e pegou a caneta.

​— Vamos começar pelo básico para o relatório de avaliação. Nome completo, idade e como você descreve a sua conduta nos últimos cinco anos em Rikers Island.

​— Matteo Marquy Blake, vinte e oito anos. E a minha conduta? Ah, eu diria que sou um santo. Ajudo na limpeza, não arrumo brigas... sou praticamente um monge franciscano trancado em uma cela — ele respondeu, piscando de forma irônica.

​Ashley anotou algo na folha, sem tirar os olhos do papel.

​— Um monge franciscano que responde pelo império da máfia americana nas horas vagas, presumo. Como é a sua relação com os negócios de Ricardo Blake hoje em dia?

​— Meu pai é apenas um homem de negócios incompreendido, doutora. E eu? Eu só sinto saudades dos jantares de domingo da minha mãe, Selina. Sou inocente de todas as acusações extras, você sabe disso.

​— Inocente — Ashley repetiu, a voz carregada de uma ironia fina e inteligente. Ela largou a caneta e cruzou os braços, encarando-o fixamente. — Engraçado como todos os "inocentes" que entram por aquela porta usam o mesmo roteiro. Você realmente acha que essa fachada de garoto incompreendido vai funcionar comigo?

​— E por que não funcionaria? — Matteo retrucou, aproximando-se mais da mesa, o olhar fixo nos olhos azuis dela. — Você tem cara de quem se comove com histórias tristes.

​Ashley soltou uma risada curta, cheia de desdém, e recolheu os papéis, batendo-os contra a mesa para alinhá-los. Ela se levantou, encerrando a postura de debate.

​— A nossa primeira sessão terminou, Sr. Blake. Mas preste muita atenção no que vou te dizer agora. Nós temos exatamente dez consultas agendadas. Se dentro dessas dez consultas você não me deixar absolutamente ciente e convicta de que é seguro você pisar na rua, eu vou assinar um enorme NÃO em letras garrafais no seu relatório de condicional. E você vai continuar exatamente onde está, olhando para essa parede cinza, por mais cinco anos. Ficou claro?

​Matteo mudou de postura. O sorriso debochado sumiu por um instante, substituído por uma intensidade sombria. Ele respirou fundo, sentindo o peso das palavras dela, e tencionou os músculos do pescoço, os olhos faiscando.

​— Você é muito corajosa, loira... ou muito tola. É melhor tomar cuidado com o que escreve nesse papel. Pessoas que cruzam o caminho dos Blake costumam ter problemas sérios de saúde fora dessas grades. Leve isso como um conselho.

​Ashley deu um passo à frente, apoiando as duas mãos na mesa, ficando cara a cara com o herdeiro da máfia. Ela não recuou um único milímetro.

​— Eu não tenho medo de ameaças, Matteo. Muito menos de ameaças vindas de um homem que precisa de autorização até para ir ao banheiro. Guardas! — ela chamou em voz alta.

​Matteo a encarou enquanto os guardas entravam na sala para soltar suas algemas do chão. Ele estava fascinado. Nenhuma mulher, muito menos uma psicóloga recém-formada, jamais havia falado com ele daquela forma, sem demonstrar um pingo de medo diante do seu nome. O jeito forte, a teimosia e o olhar destemido dela atingiram Matteo de um jeito que ele não esperava.

​— Até a próxima sessão, Dra. Park. Vou adorar ver você tentar me segurar aqui — Matteo disse com um último sorriso de canto, antes de ser puxado pelos guardas para fora da sala.

​O restante do dia passou arrastado. Ashley realizou mais três avaliações de detentos comuns, mas sua mente insistia em voltar para o embate que tivera logo cedo. Quando a noite finalmente caiu, ela bateu o cartão de saída e pegou o caminho de casa, exausta.

​Ao abrir a porta do apartamento no Brooklyn, jogou a bolsa no sofá e desabou ao lado. Sofia saiu da cozinha segurando uma caneca de chá e olhou para a amiga, notando o semblante cansado.

​— Meu Deus, Amiga. Pela sua cara, o primeiro dia foi um filme de terror. Foi muito pesado?

​— Você não tem noção, Sofi — Ashley desabafou, jogando a cabeça para trás e massageando as têmporas. — O clima daquele lugar suga todas as suas energias. E para melhorar... adivinha quem é o meu paciente principal? Matteo Blake.

​Sofia quase deixou a caneca cair. Os olhos dela se arregalaram.

​— Matteo Blake?! O filho do chefe da máfia? Ashley, aquele homem é um monstro! Eu vi as notícias na época da prisão, a família dele controla metade de Nova York através do medo. Ele é extremamente perigoso! Por favor, me diz que você vai pedir para trocar de paciente. É para tomar cuidado, você não pode se arriscar assim!

​— Eu sei, eu sei — Ashley suspirou, levantando-se e caminhando em direção ao seu quarto. — Mas eu não posso recuar agora. Eu mostrei para ele que não tenho medo. Se eu pedir para sair, ele vence. Vou tomar cuidado, prometo. Vou tomar um banho e deitar, estou moída.

​— Boa noite, amiga. Juízo — Sofia disse, preocupada.

​Ashley entrou no quarto, trocou de roupa e deitou-se na cama. Ela puxou o cobertor até os ombros e fechou os olhos, mas a imagem de Matteo Blake dominou seus pensamentos. Lembrou-se do sorriso irônico dele, do olhar penetrante que parecia ler sua alma e da audácia de ameaçá-la dentro da sua própria sala.

​Uma onda de raiva misturada com frustração subiu pelo seu peito.

​— Cretino arrogante... — sussurrou para o quarto escuro, virando-se de lado na cama com os punhos cerrados.

​Ela tentou afastar a lembrança do rosto dele de sua mente, forçando-se a respirar compassadamente até que, lentamente, o cansaço venceu a indignação e ela caiu no sono profundo.