​O meio-dia em Rikers Island trazia um calor abafado que parecia brotar do próprio concreto. No pátio de segurança máxima, cercado por arames farpados e torres de vigilância, Matteo Blake aproveitava o banho de sol. Ele estava encostado contra uma parede de tijolos cinzentos, com o macacão laranja amarrado na cintura e uma regata branca que deixava à mostra as tatuagens que cobriam seus braços e pescoço.

​Seus olhos escuros, no entanto, não prestavam atenção nos outros detentos. Eles estavam fixos na passarela superior, uma área protegida por grades e telas onde os funcionários circulavam.

​Dra. Ashley Park estava lá. Ela usava uma calça social azul-escura e uma camisa branca alinhada, com o crachá balançando no peito. Ela conversava calmamente com o Guarda Jones, um dos oficiais mais antigos do bloco. Jones segurava um livro de registros e apontava para algumas páginas, explicando a rotina de movimentação dos presos, enquanto Ashley ouvia atentamente, assentindo.

​Matteo desencostou da parede. Com passos lentos, calculados e os ombros relaxados, ele caminhou até a base da escada que dava acesso àquela área, parando logo abaixo de onde eles conversavam. Um sorriso ladino e audacioso surgiu em seus lábios.

​— Boa tarde, doutora — Matteo projetou a voz grave, fazendo Ashley interromper a conversa e olhar para baixo. Ele sustentou o olhar azul dela e inclinou a cabeça de leve. — Que surpresa ver a senhora iluminando este pátio cinzento. Já está com saudades? Quando vai ser o nosso próximo encontro? Mal posso esperar pela nossa próxima... sessão de terapia.

​Ashley respirou fundo, sentindo o estômago dar um nó com a audácia dele na frente dos outros. Ela fechou a expressão, cruzou os braços e deu uma resposta curta e mal-criada, sem a menor paciência:

​— O seu próximo encontro comigo, Sr. Blake, será quando eu tiver tempo na minha agenda para lidar com o seu ego. Até lá, sugiro que use o banho de sol para clarear os seus pensamentos, porque vai precisar.

​Antes que ele pudesse retrucar, ela se virou para o oficial.

​— Obrigada pelas informações, Jones. Nos vemos mais tarde.

​Ashley deu as costas, caminhando a passos firmes para dentro do edifício, os cabelos loiros balançando com o movimento rápido. Matteo soltou uma risada baixa, acompanhando-a com o olhar até que ela sumisse atrás da porta de ferro.

​O Guarda Jones desceu os primeiros degraus da escada, parando a uma distância segura de Matteo e batendo o cassetete de leve na palma da mão.

​— É melhor tirar os olhos dela, Blake. Aquela mocinha ali é dura na queda. Não se deita para bandido e não cai em conversinha de mafioso.

​Matteo deu de ombros, soltando uma risada convencida e cheia de deboche.

​— Eu conheço meninas como ela, Jones. Muito orgulho, muita pose... mas pouca experiência. Uma semana de conversa e eu consigo virar a cabeça dela rapidinho. Mulheres difíceis são as minhas favoritas.

​Dois dias se passaram. O prazo da segunda consulta havia chegado.

​Na sala de atendimento psicológico, Ashley aguardava sentada em sua cadeira de metal. Para passar o tempo, ela olhava o celular, checando as mensagens de Sofia sobre as contas do mês, tentando manter a mente longe do nervosismo. A porta se abriu e Matteo foi trazido para dentro. Desta vez, no entanto, a atmosfera parecia diferente. Ele não sorria com deboche. Sentou-se na cadeira e esperou os guardas prenderem suas correntes ao chão em silêncio.

​Ashley guardou o celular na bolsa, ajeitou a prancheta e o encarou.

​— Boa tarde, Matteo. Vamos direto ao ponto — ela começou, assumindo o tom profissional. — No relatório de hoje, preciso avaliar as suas projeções de futuro. O que você pretende fazer se a sua condicional for aprovada e você sair daqui? Vai voltar para as ruas de Manhattan com o mesmo estilo de vida?

​Para a surpresa de Ashley, Matteo não usou de ironia. Ele se acomodou na cadeira, apoiou os braços na mesa e respondeu com uma seriedade que ela ainda não conhecia:

​— Não. Eu sei o que as pessoas pensam quando ouvem o meu sobrenome, doutora. Mas cinco anos trancado olhando para o teto mudam a perspectiva de um homem. Quando eu sair, pretendo fazer um curso técnico, talvez Administração ou Logística. Quero fazer alguma coisa para ser alguém útil, ter um negócio legítimo longe dos holofotes do meu pai.

​Ashley franziu o cenho de leve, analisando as microexpressões do rosto dele, procurando por mentiras.

​— Um curso? — ela repetiu, anotando os detalhes. — A máfia americana costuma cobrar lealdade eterna, Sr. Blake. Você realmente acha que seu pai vai aceitar um "administrador de empresas comum" na família?

​— Meu pai sabe que o mundo mudou, e eu também — Matteo respondeu calmamente, mantendo o tom de voz controlado e firme. — Eu paguei a minha dívida com o Estado. Agora quero o meu próprio caminho.

​A consulta seguiu de forma surpreendentemente normal. Ashley fez as perguntas padrão do arquivo — sobre controle de impulsividade, arrependimento e planos de moradia. Matteo respondeu a cada uma delas de forma limpa, direta, conversando calmamente com ela, sem as piadas de duplo sentido do primeiro encontro.

​No final da sessão, Ashley analisou a folha de avaliação. Ela pegou uma caneta e, no campo de observações diárias, desenhou um círculo com um OK VERDE — um contraste total com o OK VERMELHO e agressivo que ela havia marcado na primeira consulta devido às ameaças dele.

​— Por hoje é só, Matteo — ela disse, levantando-se e fechando a pasta. — Você foi bem hoje. Se mantiver essa postura, talvez tenhamos um progresso real.

​Matteo deu um sorriso sutil, quase imperceptível, bem diferente do sorriso arrogante de antes.

​— Obrigado, Dra. Park. Tenha uma boa tarde — ele disse, despedindo-se com um aceno de cabeça antes de ser conduzido para fora pelos guardas. Ashley recolheu suas coisas e saiu logo atrás, sentindo que, finalmente, estava assumindo o controle da situação.

​Mais tarde, naquele mesmo dia, Matteo foi levado para a sala de visitas especiais. O vidro blindado separava os detentos dos familiares, e do outro lado da cabine número 4 estava Selina Marquet Blake. A mãe de Matteo vestia um casaco de pele impecável, joias discretas mas caríssimas, e mantinha a expressão fria e aristocrática de quem comandava um império de sombras ao lado do marido, Ricardo.

​Matteo sentou-se e puxou o fone do gancho, colocando-o no ouvido. Selina fez o mesmo do outro lado do vidro.

​— Meu filho — a voz de Selina ecoou pelo receptor, suave mas firme. — Como você está? Seu pai está monitorando o comitê de condicional. Ele quer saber se os relatórios estão avançando.

​— Estão avançando, mãe — Matteo respondeu, encostando a cabeça no encosto da cadeira. — Mas o sistema mudou o avaliador. Colocaram uma psicóloga nova no meu caso. Uma loirinha recém-formada chamada Ashley Park.

​Selina cerrou os olhos castanhos, a expressão endurecendo imediatamente. O nome "Park" não significava nada no tabuleiro deles, o que a deixava em alerta.

​— Uma recém-formada? — Selina perguntou, a voz caindo para um sussurro perigoso através do telefone. — Isso pode ser um problema. Garotas jovens costumam ser idealistas e difíceis de corromper. Você quer que a gente dê um jeito nisso, Matteo? Seu pai pode mandar alguns homens visitarem o apartamento dela. Uma pequena ameaça... apenas para lembrá-la de quem manda nesta cidade e garantir que ela assine o relatório sem fazer perguntas.

​Matteo imediatamente endireitou o corpo na cadeira, a expressão tornando-se possessiva e séria. Ele olhou nos olhos da mãe e balançou a cabeça de forma negativa.

​— Não. Não encostem nela, e não mandem ninguém atrás dela.

​Selina franziu a testa, surpresa com a reação imediata do filho.

​— E por que não? Se ela for um obstáculo para a sua liberdade...

​— Ela não é um obstáculo, eu sei o que estou fazendo — Matteo cortou, a voz grave e determinada. Um brilho de divertimento e desafio voltou aos seus olhos ao lembrar do rosto teimoso de Ashley. — A doutora é durona, mas eu já estou lidando com isso. Eu mesmo vou resolver. Apenas digam ao pai para manter os advogados prontos. O relatório dela vai ser verde... eu garanto.